I, Tonya (2017) – Não pesquise, assista !

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Saber o mínimo possível de um filme antes de assisti-lo é o estilo de espectador em que eu me enquadro. Se vale a pena evitar ler notícias a respeito ou assistir trailers antes do filme em si? Normalmente, sim. Mas em “I, Tonya” a condição é ainda superada e obtive uma das mais fantásticas experiências cinematográficas graças a isso.

Sabendo apenas que se trata um filme que está no radar das premiações desta temporada 2017/2018 e com uma provável indicação a melhor atriz para Margot Robbie no Oscar – além de chances reais de vitória – e que o enredo é centrado na história de uma patinadora no gelo chamada Tonya Harding,  em praticamente 2 horas o filme brinca com este desconhecimento te deixando por vezes na certeza de que se trata de uma história real, mas na maior parte do filme racionalizando de que tudo faz parte de um grande roteiro de ficção com os mesmos atores dos personagens se passando pelas pessoas reais, numa livre a associação aos “falsos documentários”, como na série The Office. Ao final do filme, graças a uma brilhante edição ágil, conhecemos a verdade (assista ou procure em outro review pois não comentarei se é uma história real ou não).

Além disso, emoldurada sob a face de um drama de competição esportiva de alto nível (com espaço para as Olímpiadas) e todas as consequências de um ambiente competitivo, aos poucos o filme ganha seus contornos de comédia e certo humor negro, graças aos atores coadjuvantes e seus histórias surreais (destaque para o personagem Shawn de Paul Walter Hauser) e a leveza da atuação de Margot Robbie e simplicidade das suas falas. Assim, inevitável é a comparação com uma história dos irmãos Coen (Irmão, Cadê Você? ou Fargo) e precisas são as abordagens de uma realidade preconceituosa dos chamados whitetrashs nos EUA (neste caso, do estado do Oregon).

Sem revelar muito mais do filme, é notório que uma comédia – ainda mais como esta – inicialmente não tenha o mesmo apreço como um drama complexo e profundo, mas tenho a certeza que com o passar dos anos será inevitável não relaciona-la em qualquer lista dos melhores filmes de 2017 (a exemplo da maior parte dos filmes dos Coen ou do mais recente A Grande Aposta). Assistir um filme sem saber nada dele, aceita o desafio? Se a resposta for sim, I, Tonya é o melhor ponto de partida.

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Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (2017) – um filme independente para começar bem o ano

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Passada a corrida dos prêmios (Oscar, Globo de Ouro, prêmios dos críticos), 2017 começa a mostrar alguns bons exemplos de produções maduras e bem ajustadas. Já não me sinto em casa nesse mundo (I don’t feel at home in this world anymore) é um filme de 2017, dirigido por Macon Blair e exibido no Festival de Sundance em janeiro e rapidamente comprado e disponibilizado pela Netflix em seu catálogo mundial. Trata-se de um filme independente (leia-se aqui: baixo orçamento) mas habilmente produzido que, como sugere o título, mostra o desconforto da protagonista Ruth – vivendo nos dias atuais nos EUA – ao se deparar com a alienação e indiferença da população no cotidiano e após ter sua casa furtada. Nada mais é do que a sensação de “peixe vivendo fora d’água” tão recorrente atualmente.

Em seus primeiros atos vemos em Já Não me sinto… um drama de como é viver numa sociedade que vive no seu sistema quase robótico (comprar, comer, beber e não ligar para os outros – isso inclusive se aplica à Polícia) e temos um vislumbre de uma obra análoga a tantas outras que mostram a estranheza do nosso tempo (Tangerine ou Indomável Sonhadora foram alguns bons exemplos dos quais lembrei). Mas então, pouco a pouco são inseridos elementos de comédia, mas não uma comédia estilo “pastelão” feita para gargalhar, muito mais na mesma linha da comédia do humor negro e sútil que os irmãos Coen há tempos desenvolvem. Então, de repente, a metade final do filme transforma-se num belo exemplo de humor e consequências absurdas  a ações minimamente diferentes das habituais, reforçando muito um paralelo a Queime Depois De Ler (Burn After Reading).

Temos como resultado um filme que aparentemente traz uma premissa mas faz uma entrega totalmente diferente. Se deixarmos de lado essa consideração purista é fácil identificar que o filme tem uma base sólida de atuações (incluindo Elijah Wood) e uma história que sutilmente faz uma crítica a sociedade contemporânea no seu modo egoísta de agir mas de maneira mais contundente é um bom exemplo de entretenimento/comédia.

*Uma grande mensagem da história que ficou pairando na minha mente é a de que uma alteração no curso da rotina muda todo o futuro. Simples, porém nem sempre conseguimos aplicar a coisas que nos desagradam na vida, ou como diz o personagem de Kevin Spacey em House of Cards “se não gosta como a mesa está posta, vire a mesa”.