Arcade Fire – Everything Now (2017)

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Existe certo consenso de que uma opinião só deveria ser emitida após o conhecimento do objeto de estudo. Compartilhando dessa ideia, ouvir o novo álbum do Arcade Fire, intitulado Everything Now, nas suas 10 faixas foi uma grande, mas não tão agradável, surpresa. Após quase 4 anos de Reflektor, Everything Now traz a nova fase do Arcade Fire. Quem já escuta a banda há algum tempo sabe bem que cada lançamento deles é (aos moldes do seu principal mentor, David Bowie) uma realização, isto é, vem com uma temática distinta das anteriores, é precedida por certo hype e acompanhada por mudanças não somente na sonoridade, mas até no figurino, cenário dos shows e instrumentos usados pela banda ou modo de se portar em entrevistas.

Nesta jornada de descobertas dos canadentes Everything Now é a fase dance da banda. Ainda que a execução do Arcade Fire seja, na minha opinião, mais equilibrada que outras desastrosas tentativas neste caminho (por exemplo, Jake Bugg, Kasabian e Franz Ferdinand) o som deste álbum é muito ingênuo no seu otimismo sem conteúdo, ainda mais para quem se acostumou com Funeral ou Suburbs (outros álbuns deles), que além da sonoridade mais intimista tratou de temas universais como a nostalgia da felicidade na infância e as escolhas que fizemos e seus impactos para uma vida toda.

Mas não está no ritmo – até certo ponto banal para uma banda que sempre inovou (em certos momentos deste novo álbum lembramos mais de ABBA ou Shania Twain que do Arcade Fire) –  a razão que faz deste disco uma obra dispensável: atrás de toda a preocupação por “fazer algo diferente”, de causar impacto no mundo com um ritmo quase que motivacional inserido num contexto mundial de instabilidade política, o Arcade Fire se esqueceu da sua maior qualidade: as letras que sustentavam sua ideologia. Everything Now é, em última análise, uma obra vazia de letras desconexas (se não fosse pela melodia semelhante nem seria possível dizer que eram do mesmo disco). Um experimento que atrás de toda a pesada maquiagem ideológica e de distorções eletrônicas é esquecido por quem escuta em pouco tempo.

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Os melhores discos de 2016

Deixamos a pretensão dos “melhores” apenas para o título, pois uma lista deste tipo sempre quer dizer os FAVORITOS. Este foi um ano de grandes perdas para música (Bowie, Prince, Leonard Cohen) e de muitas bandas já consagradas repetindo a fórmula que os fez famosos (Rolling Stones, Nick Cave and the Bad Seeds, Iggy Pop, Kanye West). No entanto, nem isso é garantia para a qualidade. Os tempos mudam e, na minha opinião, 8 cantores/bandas se destacaram com álbuns acima da média. Numa lista que vai além de um gênero ou até mesmo da clássica distinção Nacional/Internacional estes são os melhores/favoritos do ano:

8.Angel Olsen, “My Woman” – em poucas palavras, Olsen consegue o que tantas outras (Lana Del Rey, por exemplo) não fizeram: saber que uma voz marcante ajuda, mas a música precisa de mais.

7.Beyoncé, “Lemonade” – Escute, fuja dos preconceitos ou encontre explicação racional para dizer que não gostou. O hype desse disco se justifica: Beyoncé mudou e encontrou um lugar que combina o pop que vende discos/“gera likes” com melodias e rimas únicas e não passageiras.

*O álbum está disponível somente para assinantes Tidal (nada de Youtube, Vimeo, Soundcloud) e, por isso, abaixo uma versão com mais instrumentos de percussão.

6.Criolo, “Ainda Há Tempo” – continua sendo a melhor voz (consciência social, simplicidade e objetividade) contemporânea nacional.  Simples assim.

5.Metá Metá, “MM3” – o que num instante é a brisa da calmaria lírica noutro é um furacão do rock na voz Juçara Marçal. O trio paulista mistura guitarra com saxofone na naturalidade de quem entregou o melhor disco nacional do ano.

4.Chance The Rapper, “Coloring Book” – O grande disco de Hip-Hop do ano. Parcerias bem escolhidas contribuem para uma harmonia no disco. Diversas sonoridades mas uma grande coesão na obra.

3.PJ Harvey, “The Hope Six Demolition Project” – Um disco de ativismo político, mas (embora menor que a obra prima Let England Shake de 2011) uma grande exibição de ritmo e poesia.

2.Jamie T., “Trick” – Poderia, também, ocupar o primeiro lugar dessa lista. Disco difícil de catalogar, definir uma categoria. Em todos os ritmos e variações, Jamie T. o faz com maestria rara e excepcional.

1.Elza Soares, “A mulher do fim do mundo” – o melhor, ouça agora !

*Como menção honrosa de outros bons trabalhos, na minha opinião, estão o do rapper brasileiro Rashid, dos também brasileiros e roqueiros d’O Terno, a sagacidade do Childish Gambino, o rap de J. Cole, a carta de despedida em forma de álbum de David Bowie e a sonoridade do Radiohead.

 

 

 

 

Red Hot Chili Peppers – The Getaway (2016)

Enquanto o mundo ou fala do processo de impeachment brasileiro ou do Pokemon Go ou do novo disco do Frank Ocean, com um belo atraso ouvi o novo disco do Red Hot Chili Peppers, The Getaway, já disponível em serviços de streaming, como o Spotify.

Na verdade, o quanto mais longo você encontrar/ler uma resenha sobre o disco, maior perda de tempo será (para o leitor e para quem escreveu). Certamente. Pois não há muito o que dizer depois de 13 músicas e 53 minutos. E isto sequer é uma crítica ou elogio.

Consiste num trabalho maduro, centrado e que mostra um Anthony Kiedis que “aceitou” o lugar dos Peppers (e isso se assemelha muito a Dave Grohl e o Foo Fighters atual): letra e ritmo invocam a melhor fase da banda, mas não saem de um “lugar comum” de criação ou inovação. Perfeito para quem é fã. Para quem não é assim tão ligado a trajetória da banda, sobressaem-se alguns bons singles mas ouvir o disco inteiro, sem pausas, causará uma náusea de uma grande música de quase uma hora, que anda em círculos, com alguns pontos brilhantes.

Engenheiros do Hawaii: como definir ?

 

Eis que na década de 80 os Engenheiros do Hawaii ganharam voz, saíram das fronteiras do Rio Grande do Sul e alcançaram o Brasil, nas rádios, televisões e LP’s. Isso tudo, somado as letras inconfundíveis das músicas da banda gerou (e ainda gera) uma grande dúvida sobre a qualidade das músicas. Criou-se uma cultura de “Ame ou Odeie” para o grupo de rock.

Precursores do que vemos mais recentemente com o Los Hermanos, os Engenheiros também foram pioneiros em causar no grande público essa divisão: enquanto uns achavam que ritmo e letras do Humberto Gessinger estavam entre as 7 maravilhas do mudou, outros o viam como um fanfarrão oportunista que apenas sabia fazer rima. Se até hoje essa discussão perdura, imaginem se na época existissem Twitter, Facebook e afins?

Como na música, e nas artes de modo geral, nada é definitivo e tudo é muito pessoal não há resposta certa para como classificar a banda. Creio que alçar eles ao status de gênio é algo para fãs, mas qualquer ser humano racional precisa reconhecer que a facilidade de falar sobre amor, política, guerra e alienação numa mesma música, fazendo ela soar bem, sem se tornar tediosa é algo para poucos.

Dentre vários exemplos de astúcia das composições fica o meu registro para as músicas O Papa é Pop e Perfeita Simetria, que abrem e encerram respectivamente um disco da banda (além desse post para referenciar bem) e possuem a mesma melodia, os mesmo acordes. Exatamente iguais. Apenas as letras as diferenciam, ao mesmo tempo que as tornam icônicas. Se uma fala do consumismo, da geração Coca Cola, da mídia televisiva, a outra busca solucionar um problema amoroso. E você, sabia disso tudo? Não?! Então escute as duas nesse post e compare. E nesse meio tempo decida-se: para você, qual o valor dos Engenheiros do Hawaii?

O que é arte ?

Se a resposta pode ser complexa, fácil ė perceber que ela se “esconde” nos lugares mais improváveis, como, por exemplo, na peculiar combinação entre uma música velha do Elton John na voz de uma cantora que ainda não mostrou a que veio para um comercial da KFC dos frangos fritos, que é, sem dúvida, um dos comerciais mais bonitos desta década.

Os melhores álbuns de 2015

Mais tradicional do que comer peru no Natal e lentilha no reveillon estão as listas de final de ano. Entre elas, as dos melhores álbuns, que um dia – na época do LP – chamamos de discos e com a evolução do streaming (Spotify, Apple Music, Deezer,…) quem sabe não serão chamados de de releases ou digitalizações. Já imaginou ?

Toda essa divagação, no entanto, não muda o modesto propósito desse post: elencar os 5 melhores lançamentos no mercado fonográfico em 2015 (ficou curioso dos anos anteriores? aqui as listas de 2014, 2013).

A lista desse ano tem os 5 melhores álbuns + 1 (e não, não tem o queridinho da imprensa e do Obama, Kendrick Lamar):

5. Sleater Kinney, “No cities to love”

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4. Kurt Vile, “b’lieve i’m goin down”

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3. Father John Misty, “I Love You, Honeybear”

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2.Blur, “The Magic Whip”

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1. Courtney Barnett,  “Sometimes I Sit and Think and Sometimes I just Sit”

Aquela sensação de algo novo, inovador e com qualidade que parece escassa nunca foi tão viva em 2015 quanto nesse disco. O melhor disco do ano e, numa análise extremamente breve e estereotipada, poderia dizer que é esse disco representa tudo que Malu Magalhães queria ser.

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*+1 – fora desse ranking mas com merecimento para ser escutado está Andrew Bird com seu “Echolocations: Canyon”, álbum em que o instrumentista cria sonoridade no seus violinos e piano que lembra Jhonny Greenwood (Radiohead) em seus trabalhos com o diretor Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, O Mestre).

 

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Além desses 5 melhores álbuns ainda merecem palmas os lançamentos de New Order, Adele, Mumford and Sons, Ryley Walker, Joanna Newson e Florence + The Machine pelos excelentes trabalhos.

Os melhores discos de 2014 – A lista

Pra ser sincero, resumir um ano em 5 álbuns além de injusto é um grande exercício de análise. Mas eis que, em 2014, a tarefa foi cumprida. Constatando todos os discos ouvidos e o resultado dessa compilação, sobressaíram-se discos com vocais masculinos e bandas/compositores que ou se reinventaram ou são estreantes.

Além do top 5 que apresento na sequência, 2014 foi um ano bom; não excelente, mas bom para a música de qualidade fazendo com que títulos muito bons do Beck, FKA Twigs, Tune Yards, Afghan Wigs, entre outros, ficassem de fora da seleção. E a seleção dos 5 álbuns definitivos de 2014 é a tão complicada que teve empate na 5ª posição, resultando no #TOP 5 de 6 discos!

 

  1. Spoon – “They Want My Soul”

 

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  1. Mac De Marco – “Salad Days”

 

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  1. Future Islands – “Singles”

 

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  1. The War on drugs – “Lost in the dream”

Indispensável em qualquer lista de melhores do ano, o álbum do War on…. é vibrante e traz combinações de mixtapes eletrônicos de forma orgânica.

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  1. Damon Albarn – “Everyday robots”

A mesma voz que imortalizou o Gorillaz e o Blur, Damon Albarn embarca na jornada solo com essa pérola de contemplação em forma de rock.

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  1. Jack White – “Lazaretto”

Sem a preocupação excessive em criar singles (como no útimo álbum), White conta uma história em Lazaretto que passa por todas as suas influências do White Stripes, Raconteurs, Dead Weather. Um passeio pelo rock clássico e, ao mesmo tempo, inovador.