Breve devaneio

Houve certa vez em que associar poesia a arte com refinamento era motivo de estranheza para mim. Hoje, certo da indecência desse pensamento, julgo que a magnitude que qualquer expressão artística possa ter passa, necessariamente, por encontrar os exemplares certos. Certos para cada um, que estejam alinhados com o que pensamos, procuramos, somos. Mesmo que em constante mutação, sempre há filme, música, livro, poesia, grafite que vai identificar nosso desejo e/ou estado de espírito.

Depois de muitos Leminskis e Quintanas, me deparo com esse pequeno pedaço de perfeição de Cecília Meireles (extraído de Cânticos) que, num sábado com cara de outono, cai como uma luva.

 

I

Não queiras ter Pátria.

Não dividas a Terra.

Não dividas o Céu.

Não arranques pedaços ao mar.

Não queiras ter.

Nasce bem alto,

Que as coisas todas serão tuas.

Que alcançarás todos os horizontes.

Que o teu olhar, estando em toda a parte

Te ponha em tudo,

Como Deus.

 

II

 

Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens…

Não queiras ser o de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabe que serás assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue:

É a passagem que se continua.

É a tua eternidade…

É a eternidade.

És tu.

 

III

 

Não digas onde acaba o dia.

Onde começa a noite.

Não fales palavras vãs.

As palavras do mundo.

Não digas onde começa a terra.

Onde termina o Céu.

Não digas até onde és tu.

Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.

Desfaze-te da vaidade triste de falar.

Pensa, completamente silencioso.

Até a glória de ficar silencioso.

Sem pensar.

 

IV

 

Adormece o teu corpo com a música da vida.

Encanta-te.

Esquece-te.

Tem por volúpia a dispersão.

Não queiras ser tu.

Quere ser a alma infinita de tudo.

Troca o teu curto sonho humano

Pelo sonho imortal.

O único.

Vence a miséria de ter medo.

Troca-te pelo Desconhecido.

Não vês, então, que ele é maior?

Não vês que ele não tem fim?

Não vês que ele és tu mesmo?

Tu que andas esquecido de ti?

 

V

 

Esse teu corpo é um fardo.

È uma grande montanha abafando-te.

Não te deixando sentir o vento livre

Do Infinito.

Quebra o teu corpo em cavernas

Para dentro de ti rugir

A força livre do ar.

Destrói mais essa prisão de pedra.

Faze-te recepo.

Âmbito.

Espaço.

Amplia-te.

Sê o grande sopro

Que circula…

 

VI

 

Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

 

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Os melhores álbuns de 2015

Mais tradicional do que comer peru no Natal e lentilha no reveillon estão as listas de final de ano. Entre elas, as dos melhores álbuns, que um dia – na época do LP – chamamos de discos e com a evolução do streaming (Spotify, Apple Music, Deezer,…) quem sabe não serão chamados de de releases ou digitalizações. Já imaginou ?

Toda essa divagação, no entanto, não muda o modesto propósito desse post: elencar os 5 melhores lançamentos no mercado fonográfico em 2015 (ficou curioso dos anos anteriores? aqui as listas de 2014, 2013).

A lista desse ano tem os 5 melhores álbuns + 1 (e não, não tem o queridinho da imprensa e do Obama, Kendrick Lamar):

5. Sleater Kinney, “No cities to love”

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4. Kurt Vile, “b’lieve i’m goin down”

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3. Father John Misty, “I Love You, Honeybear”

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2.Blur, “The Magic Whip”

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1. Courtney Barnett,  “Sometimes I Sit and Think and Sometimes I just Sit”

Aquela sensação de algo novo, inovador e com qualidade que parece escassa nunca foi tão viva em 2015 quanto nesse disco. O melhor disco do ano e, numa análise extremamente breve e estereotipada, poderia dizer que é esse disco representa tudo que Malu Magalhães queria ser.

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*+1 – fora desse ranking mas com merecimento para ser escutado está Andrew Bird com seu “Echolocations: Canyon”, álbum em que o instrumentista cria sonoridade no seus violinos e piano que lembra Jhonny Greenwood (Radiohead) em seus trabalhos com o diretor Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, O Mestre).

 

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Além desses 5 melhores álbuns ainda merecem palmas os lançamentos de New Order, Adele, Mumford and Sons, Ryley Walker, Joanna Newson e Florence + The Machine pelos excelentes trabalhos.

Os melhores filmes de 2013 – A lista

Pra ser sincero, dia de Oscar é também dia de retrospectiva dos filmes do ano. Desde a premiação do ano passado, da qual Argo fez história, centenas de filmes foram lançados no circuito mundial para apreciação do público e, especialmente, arrecadação aos cofres dos estúdios.

Embora a noite de hoje marque o embate, nas principais categorias (incluindo melhor filme e direção) entre o drama 12 anos de escravidão e a cult  ficção Gravidade, a temporada 2013/14 trouxe outras obras de igual (ou maior) prestígio. O meu palpite para os Oscars desse ano é o de que os dois favoritos se revezem nos principais prêmios, mas a minha lista de melhores do ano vai muito além.

Porém, se comparado aos anos anteriores, desde a safra que tivemos a disputa medíocre entre Quem quer ser um milionário  e O Curioso Caso de Benjamin Button, não tínhamos um ano tão fraco no ponto de vista cinematográfico. Para exemplificar a situação, neste ano não tivemos nenhuma animação de grande destaque (talvez o japonês Wind Rises, que não chegou ao Brasil ainda).

Abaixo a minha lista – a lista das listas:

 

TOP #5 de 2013

 

1 – Antes da Meia-Noite (Before Midnight), de Richard Linklater

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2 – Ela (Her), de Spike Jonze

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3 – Amor Bandido (Mud), de Jeff Nichols

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4 – Rush, de Ron Howard

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5 – Gravidade (Gravity), de Alfonso Cuarón

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– Menções honrosas (ou, “outros bons filmes do ano”):

Nebraska, 12 anos de escravidão, A Grande Beleza, Blue Jasmine, Star Trek: Além da Escuridão, The Spectacular Now, O ato de matar, O lobo de Wall Street, Capitão Philips, Jogos Vorazes: Em chamas, Short Term 12.

– Meus votos:

  • Melhor filme: Antes da Meia-Noite (Before Midnight)
  • Pior Filme do Ano: Kick Ass 2
  • Melhor diretor: Spike Jonze, por Ela (Her)
  • Melhor roteiro:  Antes da Meia-Noite (Before Midnight)
  • Melhor ator: Toni Servillo, por A Grande Beleza (La grande bellezza)
  • Melhor atriz: Cate Blanchet, por Blue Jasmine
  • Melhor ator coadjuvante: Jared Leto, por Dallas Buyers Club (Clube de Compras Dallas)
  • Melhor atriz coadjuvante: Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidão (12 years a slave)
  • Melhor elenco em obra cinematográfica:  12 Anos de Escravidão (12 years a slave)
  • Melhor fotografia: Amores Bandidos (Mud)
  • Melhor animação:  /nenhuma/
  • Melhores efeitos especiais: Gravidade
  • Filmes Mais Superestimados:  Trapaça (American Hustle), Os suspeitos (Prisoners).

– Filmes de 2013 com grande potencial mas que eu não assisti (ou, “o mea culpa”):

Asas ao vento (Wind Rises), Blackfish.