Short Review: A Malvada (1950)

Filme antigo não significa filme clássico tampouco implica qualidade. Muitos roteiros e direções “preguiçosas” que assistimos hoje já existiam no início do século passado. Então, a apreciação de um filme se volta além da sua época, do tipo de câmera e cores empregadas.

A Malvada (título horroroso para ‘All About Eve‘ de 1950, dirigido por Joseph L. Mankiewicz) é um daqueles exemplos que coloca o cinema como um todo no seu lugar. Um filme em que é possível entender porque qualidade transcende época. Como toda obra depende dos gostos e histórias pessoais de quem a consome, errado é afirmar que alguém “deve ver tal filme“. No entanto, se errado não fosse, A Malvada certamente estaria nessa lista dos must-see da vida. E por quê? Porque, mesmo com famigeradas pausas e ritmo provenientes do cinema da década de 50, constrói uma obra prima onde todo o cast principal atua formidavelmente bem (em destaque Bette Davis) e porque tem no seu desenvolvimento, maturidade (e imaturidade) dos personagens nos seus diálogos algo que ainda se enxerga hoje, os mais primitivos desejos, da vaidade a cobiça, da ironia ao desespero de envelhecer sem deixar nenhum legado. Um filme para assistir sempre que possível.

 

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Os melhores filmes de 2017 – A lista

 

No dia em que mais uma temporada do cinema se encerra com a 90a edição do Oscar – afirmação muito mais válida para o cinema norte americano, mas ainda assim extremamente relevante ao mundo – um balanço dos filmes de 2017 se faz necessário. Se, em 2016 a falta de diversidade (étnica, racial, social e de gênero) foi escancarada aos holofotes das principais premiações, um sopro de boas iniciativas fez de 2017 um ano com uma ligeira mudança nas apostas dos grandes estúdios (e, evidentemente, dos independentes mais ainda).

Ainda que corramos o risco de supervalorizar algumas obras ou atores apenas por uma questão de minorias – por exemplo,  a supervalorização das habilidades de Greta Gerwig como diretora – a minha lista de melhores do ano e também os indicados as premiações trazem bons exemplos de como a arte é – e deve ser – uma expressão contemporânea das características da nossa sociedade: do preconceito racial em Corra! a desigualdade econômica tão bem explorada em Projeto Flórida; da sensação de não pertencimento ao mundo e seu caos (Já não me sinto em casa nesse mundo) a diversidade sexual de uma forma lírica em Me Chame pelo Seu Nome.

Outro traço marcante dos filmes de 2017 foi o humor, que soube ser dosado nos filmes já citados no parágrafo anterior até nas mais psicológicas obras com Trama Fantasma (a incursão de Paul Thomas Anderson num universo à Hitchcock), as sutis ironias em A Forma D’Água ou de forma objetiva em Eu, Tonya. Além disso, a polarização de temas, muitas vezes dentro dos filmes, contribui para histórias com espaço para um grande número de fantásticas atuações de atores coadjuvantes, especialmente os homens.

Então, estes são os meus preferidos do ano:

  • Melhor Filme: Corra! (Get Out)
  • Melhor Diretor: Sean Baker em Projeto Flórida (The Florida Project)
  • Melhor Ator: Daniel Kaluuya em Corra! (Get Out)
  • Melhor Atriz: Vicky Krieps em Trama Fantasma (Phantom Thread)
  • Melhor Ator Coadjuvante: Jason Mitchell em Mudbound
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Lauren Metcalf em Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird)
  • Melhor roteiro: Corra! (Get Out)
  • Melhor documentário: Ícaro (Icarus)
  • Melhor montagem: Dunkirk
  • Melhor Fotografia: Blade Runner 2049
  • Filme(s) mais superestimado(s): Três anúncios para um crime (Three Billboards outside Ebbing, Missouri), Lady Bird: A hora de Voar (Lady Bird)
  • Piores filmes do ano: It – A Coisa (It), Alien: Covenant;

 

E o top15 do ano de 2017:

 

15 –   A Ghost Story de David Lowery

14 – Ícaro (Icarus) de Bryan Fogel

13 – Detroit em rebelião (Detroit) de Kathryn Bigelow

12 – Doentes de Amor (The Big Sick) de Michael Showalter

11 – Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird) de Greta Gerwig

10 – Blade Runner 2049 de Dennis Villeneuve

9 – Logan de James Mangold

8 – A Forma d’água (The Shape of Water) de Guillermo Del Toro

7 – Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by your name) de Luca Guadagnino

6 – Trama Fantasma (Phantom Thread) de Paul Thomas Anderson

5 – Eu, Tonya (I, Tonya) de Craig Gillespie

4 – Projeto Flórida (The Florida Project) de Sean Baker

3 – Bom Comportamento (Good Time) de Benny & Josh Safdie

2 – Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (I don’t feel at home in this world anymore) de Macon Blair

1 – Corra! (Get Out) de Jordan Peele

A Forma da Água (2017) – Universal, atemporal

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Famigerada é a preferência e hábito do diretor Guillermo Del Toro em usar criaturas mágicas, não convencionais ou místicas fora de seu habitat, rodeadas por humanos. Independente da época da história são eles (humanos) em sua maioria, arrogantes, convencidos de sua superioridade e medrosos com o desconhecido. A Forma da Água (The Shape of Water), um dos favoritos aos prêmios da temporada é uma nova incursão do cineasta mexicano nesta temática e é, desde O Labirinto do Fauno, seu melhor trabalho.

Numa ambientação primordial dos primeiros anos da Guerra Fria – da guerra por conhecimento científico e militar entre Estados Unidos e União Soviética – com destaque a trilha sonora e principalmente ao melhor design de produção do ano, a criatura interpretada por Doug Jones encontra na personagem de Sally Hawkins a genuína expressão de bondade e solidão, combinação que resulta em amor, carnal e fraternal entre ambos.

Numa precipitada interpretação esta é uma sinopse comum a várias centenas de filmes; então, o que faz A Forma da Água se sobressair?  Os detalhes e a ironia, no passageiro com um bolo no ônibus, na forma como a rotina é filmada ou na recorrente gelatina verde; no roteiro de Del Toro que nos faz acreditar que a vida da personagem de Hawkins a conduziu para àquele momento e que ainda no meio disso fala de racismo e homofobia sutil e habilmente; e, claro, na atuação da protagonista, que sem dizer uma palavra converge em expressão e ações a transformação da timidez e solidão em aventura e felicidade. Uma história convencional no seu núcleo que se torna grande não pelos efeitos especiais ou por retratar amor a uma criatura marítima (afinal, a analogia óbvia é que deslocados da sociedade, todos podemos ser ela em algum momento da vida) mas sim pela habilidade em falar de temas simples e universais.

I, Tonya (2017) – Não pesquise, assista !

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Saber o mínimo possível de um filme antes de assisti-lo é o estilo de espectador em que eu me enquadro. Se vale a pena evitar ler notícias a respeito ou assistir trailers antes do filme em si? Normalmente, sim. Mas em “I, Tonya” a condição é ainda superada e obtive uma das mais fantásticas experiências cinematográficas graças a isso.

Sabendo apenas que se trata um filme que está no radar das premiações desta temporada 2017/2018 e com uma provável indicação a melhor atriz para Margot Robbie no Oscar – além de chances reais de vitória – e que o enredo é centrado na história de uma patinadora no gelo chamada Tonya Harding,  em praticamente 2 horas o filme brinca com este desconhecimento te deixando por vezes na certeza de que se trata de uma história real, mas na maior parte do filme racionalizando de que tudo faz parte de um grande roteiro de ficção com os mesmos atores dos personagens se passando pelas pessoas reais, numa livre a associação aos “falsos documentários”, como na série The Office. Ao final do filme, graças a uma brilhante edição ágil, conhecemos a verdade (assista ou procure em outro review pois não comentarei se é uma história real ou não).

Além disso, emoldurada sob a face de um drama de competição esportiva de alto nível (com espaço para as Olímpiadas) e todas as consequências de um ambiente competitivo, aos poucos o filme ganha seus contornos de comédia e certo humor negro, graças aos atores coadjuvantes e seus histórias surreais (destaque para o personagem Shawn de Paul Walter Hauser) e a leveza da atuação de Margot Robbie e simplicidade das suas falas. Assim, inevitável é a comparação com uma história dos irmãos Coen (Irmão, Cadê Você? ou Fargo) e precisas são as abordagens de uma realidade preconceituosa dos chamados whitetrashs nos EUA (neste caso, do estado do Oregon).

Sem revelar muito mais do filme, é notório que uma comédia – ainda mais como esta – inicialmente não tenha o mesmo apreço como um drama complexo e profundo, mas tenho a certeza que com o passar dos anos será inevitável não relaciona-la em qualquer lista dos melhores filmes de 2017 (a exemplo da maior parte dos filmes dos Coen ou do mais recente A Grande Aposta). Assistir um filme sem saber nada dele, aceita o desafio? Se a resposta for sim, I, Tonya é o melhor ponto de partida.

Os meus (melhores) discos de 2017

One more year. Many more songs.

Como tradição, ainda que recente, apresento minha compilação de discos favoritos do ano; um ano em que foi difícil destacar algum álbum como muito superior aos demais (diferentemente do que, na minha opinião, ocorreu em 2016, 2015 e 2014), mas que ao contrário de 99% das listas de outros sites e publicações especializadas não tem Kendrick Lamar. Por isso, o  top 5 dos meus favoritos não está ordenado.

 

The War On Drugs,A Deeper Understanding” – a cada disco o grupo liderado por Adam Granduciel melhora e fica mais difícil evitar a comparação com as fases iniciais da carreira de Bruce Springsteen. Espirituosos e inteligentes, o rock que não se prende a um subgênero e constrói nesse álbum um evolução de sons, música a música. Para ouvir no modo repeat.

Sampha, “Process” – conceitual, meditativo, uma dose de Bon Iver e uma obra de R&B/soul difícil de categorizar e fácil de ouvir de olhos fechados e com pensamentos bem longe.

Queens of the Stoneage, “Villains” – um disco para embalar e enviar como presente para aqueles que insistem em repetir a velha (e cansativa) falácia de que o rock morreu. O melhor disco do gênero, com todos elementos que um apreciador de rock espera.

Courtnet Barnnet & Kurt Vile, “Lotta Sea Lice” – quando dois dos teus cantores favoritos dos últimos anos se juntam a chance de sucesso é grande. Assim foi essa parceria entre aquela que fez o melhor disco de 2015 com o ex-Sonic Youth. Em sons que trazem uma necessidade urgente de buscar um lugar para descansar e refletir, eis o melhor disco de indie rock do ano.

Lorde, “Melodrama” – certamente o disco “pop” do ano. Qualidade na produção, originalidade no ritmo e uma raiva bem dosada nas letras e vocal da cantora.

Além destes 5 discos, alguns outros também merecem reconhecimento: Masseduction (St. Vincent), I See You (The XX), American Dream (LCD Soundsystem) e, se você gosta de ouvir músicas em francês, o excelente Rest da Charlotte Gainsbourg.

 

No cenário nacional destaque para o veterano, que agora em carreira solo, fez um dos melhores discos:

 – Paulo Miklos, “A Gente Mora no Agora”

 

 

Star Wars VIII – (Não são) Os Últimos Jedi

*(COM SPOILERS SOBRE ACONTECIMENTOS DO FILME)

Disruptivo é uma palavra que, embora não seja habitualmente dita no português cotidiano aparece como mania de jornalistas e redatores que teimam em usa-la até a banalização de algo que, segundo o dicionário, deriva de “partir, despedaçar, rasgar, romper, destruir”, a ser usado para grandes mudanças. No entanto, falar de Star Wars em seu episódio VIII, “Os Últimos Jedi”, é obrigatoriamente associa-lo a uma grande mudança nos rumos da série de filmes.

Star Wars – Os Últimos Jedi é a continuação imediata de O Despertar da Força, seguindo mais uma vez a luta da Resistência comandada pela general Leia contra a Primeira Ordem de Snoke. Trocam-se os nomes dos grupos de poder (Aliança, Rebeldes, Império, República e tantos outros que já passaram pelos 7 filmes anteriores) mas a dinâmica ainda é a mesma: um pequeno mas valente grupo de pessoas lutando contra um poder ditatorial na galáxia. No entanto, nesta obra de 2017, dirigida pelo competente Rian Johnson (de Breaking Bad e Looper) o grupo dos mocinhos se reduz ao menor número de combatentes que já se viu em Star Wars e o lado sombrio, pela primeira vez, passa a ser liderado por um guerreiro Ex-Jedi, Kylo Ren que, numa cena surpreendente, mata o líder da Primeira Ordem. Começam aí as diferenças e os motivos para o episódio VIII ser um game changer.

No entanto, a mudança mais drástica na mitologia da série e que tem causado a revolta dos fãs de longa data dos filmes é a desmistificação dos Jedi. Através das falas de Luke Skywalker (Mark Hamil em sua melhor atuação em Star Wars) somos convidados a enxergar melhor a contribuição dos Jedis ao longo da história: praticamente nula. Uma Ordem vaidosa pelo poder da Força que esteve sempre além dos interesses da população e, quando lutou por liberdade foi para sua auto preservação – que se não falhou, chegou muito perto pois apenas Luke remanesceu. Além disso, a descoberta mais impactante e que alimentava teorias em fóruns e blogs foi a da real descendência de Rey: muito diferente do que se romantizava Rey não é filha de Luke ou Leia ou nenhum personagem heroico dos filmes, e sim de pessoas “comuns” e pobres que a venderam como mercadoria ainda na infância.

Uma das maiores místicas de Star Wars, a descendência Skywalker (Anakyn, Vader, Luke, Leia) como fonte de poder está desfeita. Tão importante é esta abordagem para seus realizadores que a cena final chega a ser redundante no tema ao mostrar uma criança qualquer num planeta desconhecido com indícios do poder da Força. Ocorre que o Último Jedi – como conhecíamos a Ordem – foi Luke, mas os Jedis ainda serão a força motriz da liberdade, porém vindos de classes sociais e locais distintos da galáxia, assim como Rey.

Fundamental também na construção deste novo capítulo é o personagem de Finn, que com bons diálogos e atuação de John Boyega, confirma um senso de heroísmo aliado ao humor e carisma diferentes de Han Solo (Harison Ford) mas igualmente importante para que o filme seja um bom entretenimento. Rian Johnson acerta também nos elementos de humor, vindos especialmente das criaturas da ilha onde Luke se refugiou e cria, nos porgs, por exemplo, tudo que George Lucas falhou com Jar Jar Banks. Outro ponto a se considerar no trabalho de Johnson é a preocupação estética: se em O Despertar da Força JJ Abrams preocupou-se mais em destacar o clima de ação e aventura em cenas de perseguição e fugas no espaço, Johnson dá atenção especial a montagem, como nas cenas que telepaticamente Kylo Ren e Rey conversam ou no design de produção, exemplificado pelo perfeccionismo da batalha nos campos de gelo e sal em que os veículos e armas deixam no seu rastro um impressionante mosaico vermelho no terreno.

O último e derradeiro elemento desta obra disruptiva é o fim da trilogia original (episódios IV, V e VI) nesta nova, marcado pela morte de Luke e Leia, esta última a ser antecipada devido ao falecimento da atriz Carrie Fischer em 2016. Ainda que Luke e Leia apareçam em flashes como Yoda neste episódio VIII, Star Wars não é mais uma terra dos Skywalker antigos ou dos egoístas Jedis de outra época ou das ações militares pela busca de poder sem considerar diretamente o impacto às pessoas comuns daquele mundo. É com essa mudança que Star Wars VIII pode ter desagradado fãs antigos mas ganhará as futuras gerações e permitirá a Disney a realização de mais episódios da saga.

Arcade Fire – Everything Now (2017)

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Existe certo consenso de que uma opinião só deveria ser emitida após o conhecimento do objeto de estudo. Compartilhando dessa ideia, ouvir o novo álbum do Arcade Fire, intitulado Everything Now, nas suas 10 faixas foi uma grande, mas não tão agradável, surpresa. Após quase 4 anos de Reflektor, Everything Now traz a nova fase do Arcade Fire. Quem já escuta a banda há algum tempo sabe bem que cada lançamento deles é (aos moldes do seu principal mentor, David Bowie) uma realização, isto é, vem com uma temática distinta das anteriores, é precedida por certo hype e acompanhada por mudanças não somente na sonoridade, mas até no figurino, cenário dos shows e instrumentos usados pela banda ou modo de se portar em entrevistas.

Nesta jornada de descobertas dos canadentes Everything Now é a fase dance da banda. Ainda que a execução do Arcade Fire seja, na minha opinião, mais equilibrada que outras desastrosas tentativas neste caminho (por exemplo, Jake Bugg, Kasabian e Franz Ferdinand) o som deste álbum é muito ingênuo no seu otimismo sem conteúdo, ainda mais para quem se acostumou com Funeral ou Suburbs (outros álbuns deles), que além da sonoridade mais intimista tratou de temas universais como a nostalgia da felicidade na infância e as escolhas que fizemos e seus impactos para uma vida toda.

Mas não está no ritmo – até certo ponto banal para uma banda que sempre inovou (em certos momentos deste novo álbum lembramos mais de ABBA ou Shania Twain que do Arcade Fire) –  a razão que faz deste disco uma obra dispensável: atrás de toda a preocupação por “fazer algo diferente”, de causar impacto no mundo com um ritmo quase que motivacional inserido num contexto mundial de instabilidade política, o Arcade Fire se esqueceu da sua maior qualidade: as letras que sustentavam sua ideologia. Everything Now é, em última análise, uma obra vazia de letras desconexas (se não fosse pela melodia semelhante nem seria possível dizer que eram do mesmo disco). Um experimento que atrás de toda a pesada maquiagem ideológica e de distorções eletrônicas é esquecido por quem escuta em pouco tempo.