Lion: Uma jornada para casa (2016)

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É inútil discutir Lion: Uma Jornada Para Casa (2016, Lion) como um filme ou explorar seus aspectos de produção, direção, roteiro e atuações. É uma obra que trabalha na mediocridade nesses quesitos, isto é, nem se destaca nem fica devendo, parecendo um belo exemplar de um telefilme (filme feito para a TV) da HBO.

O que realmente importa neste filme é a sua ligação com o mundo real. Ao acreditarmos que se trata de uma história real (eu não pesquisei o quanto é realidade e o quanto foi “ficcionalizado” pelo diretor Garth Davis), de que o menino indiano que se perdeu aos 6 anos e 25 anos depois, morando num país diferente e com cultura totalmente distinta (Austrália) consegue refazer o caminho de casa para encontrar a mãe biológica precisamos parar de pensar ou criticar muito do filme. Esta capacidade extraordinária de o mundo produzir inúmeras histórias fantásticas diariamente é uma obra de arte tão fantástica que supera quaisquer filmes. Enfim, Lion é um filme que deve ser visto como uma ode não ao cinema, mas a imprevisibilidade que o mundo – na verdade, estar vivo – reserva a quem dele fez ou faz parte.

Manchester à Beira Mar (2016) – o poder da imperfeição

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Enquanto tantos filmes procuram nos convencer da sua qualidade através de uma trama “redonda”, sem espaço para divagações, com todas as ações se desdobrando em outras num fluxo de perfeição cinematográfica, Manchester à Beira Mar (2016, Manchester By The Sea) vai – com o perdão do trocadilho – contra a maré.

Não é a grande atuação de Casey Affleck (indicado e favorito, com certa justiça, ao prêmio de Melhor Ator no Oscar) como protagonista nem a de Lucas Hedges que são o principal triunfo do filme. É a sua imperfeição – habilmente desenvolvida por Kenneth Lonergan, o diretor. A imperfeição é onipresente em todo o filme: nos diálogos que se encerram com ideias abertas, no clima de inconveniência nas conversas, na falta de solução aos problemas mundanos e burocráticos e na incapacidade de superar traumas passados. Pois isto tudo é a vida humana em uma condição mais próxima à realidade, longe de idealismos, a virtude deste que é, indiscutivelmente, um dos melhores filmes do ano.

Um limite entre nós (Fences, 2016) – O grande teatro de Denzel Washington

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Ao contrário do que o título deste post pode sugerir, Um Limite Entre Nós (título original Fences) não é um filme de baixa qualidade. A caracterização desta obra me lembra outras adaptações cinematográficas de roteiros focados nos diálogos acima de tudo, tais como a obra prima de 2008 intitulada Dúvida (Doubt). Neste filme de 2016, e concorrente a muitas estatuetas do Oscar – incluindo a de melhor filme, Denzel Washington além de ser protagonista é o diretor e mente criativa da obra. Interpretando um trabalhador da companhia do lixo nos EUA pós Segunda Guerra Mundial ele faz par com a personagem de Viola Davis, sua esposa.

Em menos de 5 minutos de filme temos a certeza que a atuação de Denzel merece, no mínimo, uma indicação a melhor ator. Com naturalidade e desenvoltura de um ator extra classe ele mostra carisma a amabilidade invejáveis, que fazem o espectador querer conhecer melhor Troy Maxson, seu personagem. Aí a trajetória do filme começa a se justificar de uma forma muito inteligente. Ao longo do filme descobrimos que por trás do Denzel Washington das primeiras cenas temos um homem abandonado pela mãe e com pai abusivo, amargurado por não ter mais êxito profissional, com nostalgia da época em que era um destaque do baseball e lutando contra sua vida boêmia e infiel no matrimônio. Conforme essa caracterização vai se delineando o outro ponto forte do filme, Viola Davis, começa a aparecer e tal qual seu par em cena, a clamar por atenção. Inicialmente de aparência submissa, vemos que a força de vontade para permanecer naquele casamento, amando ao seu marido é gigante, assim como a atuação.

Enquanto Denzel entrega ao público uma de suas melhores interpretações da sua carreira, como diretor ele prefere delinear bem os limites da cenografia, as posições de cada ator no set e deixar que as atuações conduzam o resto. Praticamente o filme inteiro se concentra entre o cenário da sala de estar, cozinha e área de fundos da residência do casal. Por isso e pelos longos, mas belíssimos monólogos, temos a estrutura teatral da obra, digna de uma grande peça. Mas não está na técnica de cenografia ou atuações o mérito do filme. Elas são parte de um propósito maior e relativamente bem sucedido: humanizar a complexidade das ações do ser humano. O comportamento moral idealizado não existe e, atrás de cada sorriso ou traição sempre há uma história.

Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) – e da simplicidade e beleza

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Um review de Moonlight – Sob a Luz do Luar não precisa ser extenso. Não há de ser escrita uma tese acadêmica para falar do filme. Aqui a simplicidade do filme deve se traduzir em facilidade na análise. Barry Jenkins, o diretor, desenvolve uma obra sobre o protagonista Chiron, que abrange três fases bem distintas e explicitadas na tela do mesmo modo como Quentin Tarantino, por exemplo, costuma marcar seus filmes em capítulos: 1.a infância de Chiron, 2.sua adolescência e 3.a fase adulta, próximo aos 30 anos. Ambientado em Miami, Flórida, com enfoque às regiões/vizinhanças habitadas majoritariamente por negros vemos um Chiron desde pequeno perseguido pelos colegas de escola por não se ajustar ao mesmo comportamento deles. Quieto, tímido e gay é o alvo claro dos preconceitos dos demais meninos. Desamparado pela mãe, que apenas dá valor as drogas que consome, encontra proteção no casal vivido por Mahershala Ali e Janelle Monáe, que suprem a necessidade paterna e materna.

Mas conforme Chiron vai crescendo, assim ocorre com seus “amigos”, e o preconceito se intensifica assim como a sua timidez e introversão. O clímax dessa história são as agressões físicas sofridas por Chiron e, então, a sua vingança violenta. Depois disso, vemos ele já adulto em uma cidade diferente, com uma postura e aparência completamente inesperadas: traficando drogas, com hábitos que remetem ao personagem de Mahershala Ali visto no início do filme. Forjado no sentimento de exclusão e agressão da sociedade ele agora é superficialmente alguém que age com a mesma violência da qual sofreu, nem que para isso precise esconder quem de fato gostaria de ser. Cabe as cenas finais do filme, que oportuniza o encontro dele com seu amigo de infância e primeiro homem que beijou na vida, revelar que psicologicamente continua sendo mesmo Chiron criança e adolescente, com inúmeras inseguranças mas com a certeza de que seria melhor ostentar algo que não é do que voltar aos tempos sombrios vistos no início do filme.

Percebemos que a história tem uma simplicidade invejável e que nos fascina sem precisar explorar temas como a vinda de extraterrestres a Terra ou uma jornada heroica na 2ª Guerra Mundial ou ainda coreografias que param uma rodovia inteira em Los Angeles – apenas para citar algumas tramas de outros concorrentes ao Oscar neste ano. Por que isso ocorre? Cabe aí o mérito a Jenkins, que recorre a simplicidade na direção aliada a refinamento nas tomadas calmas, bem sincronizadas com a trilha e edição. Nada é apressado nas cenas filmadas e agilidade fica por conta da montagem que faz o filme fluir sem deixar ninguém com sono. Ainda sobre o modo como Jenkins escolhe rodar seu filme, nas cenas da infância de Chiron (em especial na qual ele aprende a nadar – imagem deste post) temos uma beleza única e alguns paralelos com a direção de Terrence Malick em A Árvore da Vida.

Ponto fundamental para análise é o tema que une os capítulos do filme: o preconceito de gênero e, sob esse aspecto, Jenkins opta acertadamente em trata-lo de forma aberta, direta mas sem grandes sensacionalismos, como em Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), por exemplo. No entanto, ao lembrar de Sobre Meninos e Lobos (Mystic River) chego a conclusão de que prefiro o modo de montagem e direção do filme de Clint Eastwood de 2003, que desenvolve com mais tempo de tela todas as implicações que um trauma na infância gera no futuro. E é por isso, que na minha opinião, Moonlight é um grande filme, que conquista pelo modo direto mas belo de contar uma história comum (“comum” no sentido que pode se encaixar em diversos locais do mundo e épocas) mas que na preocupação de desenvolver uma história de tantos acontecimentos e de arco dramático tão longo deixa de oferecer pistas e subsídios para que o espectador formule interpretações e possa se envolver de uma forma mais profunda que perdure mesmo após os créditos finais.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016)

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Princípios básicos para uma crítica sobre Até o Último Homem: a análise é sobre o filme, em seus 139 minutos e nunca diretamente sobre as declarações, polêmicas e personalidade de Mel Gibson, seu diretor. Parece óbvio, mas até mesmo grandes veículos de comunicação fazem questão de falar de tudo menos sobre cinema.

Dito isso, Até o Último Homem (Hacksaw Ridge) é uma das melhores coisas nessa chamada “Corrida do Ouro”, expressão em referência aos prêmios da temporada (Oscar, PGA, DGA, associações de críticos, entre outras). O drama protagonizado por Andrew Garfield em, enfim, uma grande atuação desde A Rede Social, é bem dividido em 3 atos principais: a infância e adolescência do jovem Desmond Doss na Virginia da década de 30, o alistamento militar e o treinamento de guerra em solo norte-americano, e as batalhas da Segunda Guerra Mundial no Japão, mais especificamente na Serra de Hacksaw, que dá título ao filme. Esta estrutura muito bem montada e ritmada por Gibson e seus montadores me lembrou, com grande alegria, de Nascido para Matar (Full Metal Jacket) o clássico de guerra de Kubrik.

O mote do filme, que une suas 3 partes é a convicção pacifista de Desmond Doss, que recusa praticar a violência. Então, já no primeiro ato do filme descobrimos as motivações para esse comportamento moral do personagem vivido por Garfield. Mas, além disso, merece  destaque o romance do protagonista com a personagem de Teresa Palmer, que em poucos minutos de diálogos traz encantamento maior que a trama romântica inteira de La La Land – Cantando Estações.

O grande conflito do filme começa com a recusa de Desmond em portar/manusear qualquer arma em frente a todo batalhão de infantaria. O ambiente fortemente hierárquico do Exército e extremamente nervoso após o ataque a Pearl Harbor pressiona e pune Desmond a ponto de quase o fazer desistir da sua vontade de ir à guerra para ajudar, nunca para matar. Nesse arco dramático vemos dois atores de carreiras completamente distintas com atuações muito boas: Vince Vaughn aproveitando sua habilidade em comédia para interpretar o sargento responsável pela turma de recrutas e o retorno de Hugo Weaving a um papel de destaque.

Vencidas as barreiras de crenças e fé, somos transportados ao Japão e é seguro afirmar que já nos primeiros momentos de batalha temos as melhores cenas de guerra desde O Resgate do Soldado Ryan. As tomadas são ágeis, a edição de som e mixagem são impecáveis e Mel Gibson não tem receio em mostrar cenas mais sórdidas que uma guerra causa sobre as almas, vidas e corpos (em geral, dilacerados). Assim, o filme que começa calmo sob a tranquilidade de um dia de verão na Virginia vai crescendo em ambição com uma força carismática de Andrew Garfield e firmeza na direção de Mel Gibson até seus momentos finais, o êxtase da destruição, sombria e nefasta, mas real.

Até o Último Homem é apontado por muitos como uma obra de demagogia e acusado por romantizar o campo de batalha numa guerra. Discordo parcialmente dessas ponderações, pois a história de Desmond Doss, embora com cara de um belo trabalho de ficção é fidedigna, sendo ele, o soldado na vida real, responsável por salvar mais de 70 outros soldados e o primeiro pacifista a ganhar a Medalha de Honra do governo dos EUA, maior condecoração militar do país. No entanto, a atmosfera envolvente da aura de bom moço de Desmond, dada graças ao modo gentil, calmo e risonho de Garfield realmente contribui para que os horrores da guerra sejam minimizados nas cenas que Desmond ajuda seus amigos. Por fim, este detalhe não apaga todos os méritos deste que, para mim, é um dos melhores filmes do ano e, sem dúvida, da temática bélica.

 

La La Land – Cantando Estações (2016 e o seu musical)

Sim, eu tenho um preconceito. Na verdade, mais de um, infelizmente. Mas para esse texto importa dizer que meu preconceito é com musicais. Embora consiga ver qualidade em alguns (mas não muitos), a clássica fórmula de sair de um diálogo comum e virar um número musical com vários personagens cantando o que poderiam dizer de uma maneira mais natural me incomoda um tanto. Dito isso, fui assistir La La Land – Cantando Estações (2016), o musical que tem conquistado plateias e críticos ao redor do mundo. Se isso não bastasse, é o favorito ao prêmio de melhor filme do Oscar desse ano.

O filme do jovem e extremamente habilidoso diretor Damien Chazelle é uma história de amor entre as protagonistas, interpretadas por Emma Stone e Ryan Gosling, sob o luar, luzes e show business de Los Angeles (e Hollywood, o que na verdade é a mesma coisa). Para quem conhece a cidade, Chazelle oferece uma interpretação por horas verossímil do trânsito e indústria do entretenimento e em outras momentos uma abordagem otimista da “Terra dos Sonhos” norte-americana, onde jovens do mundo inteiro levam suas utopias de se tornarem grandes astros do cinema, televisão e música. Exatamente nesse contexto está centrada a trama de Stone e Gosling, aspirantes ao estrelato, ela a atriz e ele como músico. Após à “faísca” romântica de um primeiro encontro o amor e o relacionamento deles se desenvolve enquanto as carreiras profissionais parecem não andar no mesmo ritmo.

Assim, com inserções de músicas em um ritmo/intervalo não tão irritante (sim, temos diálogos entre elas!) a atmosfera de LA (Los Angeles) favorece uma história sobre o encantamento que um lugar ou uma pessoa amada pode dar. Um dos grandes acertos da trama é a escalação de uma dupla/par romântico que funciona muito bem e até já os vimos em outros filmes. A combinação Gosling + Emma Stone é a versão da década do que um dia já foi Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, Humprey Bogart e Ingrid Bergman, para citar apenas alguns. E, em La La  Land quem mais brilha é Emma Stone, sob um aparato de produção excelente (jogos de luzes, maguiagem e design dos sets de produção) somada a atuação em si, deixa-a mais madura e menos infantil que acostumados fomos pelos seus “big eyes”. Mas aí também reside a prova do belo trabalho de uma equipe de produção (centenas de pessoas), pois a mesma Emma até recentemente vivia de atuações medianas ou ruins, a lembrar do deplorável Aloha, de Cameron Crowe.

Se fosse para resumir o review num daqueles parágrafos que estampam capas de filmes é notório dizer que o hype dele e seu favoritismo a prêmios é pela combinação de ser uma boa obra de um gênero arriscado e menos comum nos dias atuais somado ao fato de reviver a magia de uma Hollywood/Los Angeles melhor e mais feliz do que é. O filme peca na minha opinião, como obra cinematográfica, ao apresentar um primeiro ato (a estação “Inverno”) bagunçada e desorganizada, empurrando às pressas os protagonistas ao seu inevitável encontro e início de romance para aí sim, com mais habilidade poder desenvolvê-lo. A partir de então as sucessões de acontecimentos são previsíveis mas o charme dos elementos (música, locações, atuações, direção) permite esquecer do resto mundo nos minutos restantes. Mas, entre um roteiro com algumas falhas e toda a previsibilidade citada, nota 10 mesmo é a música principal do filme, City of Stars (vídeo abaixo).

The Fits (2016) – Review do Filme Independente do Ano

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Um peculiar prazer meu ao assistir um filme é não saber nada a respeito dele, nem sua trama, nem seus atores ou diretor (mui menos o histórico cinematográfico dele). Se o cast, ainda por cima, se revelar inteiramente desconhecido ele ganha pontos (vários) extras comigo. Dito isso, assim foi The Fits (ainda sem título nacional) comigo. Em apenas 72 minutos aí vai meu conselho: se você, além de gostar de filmes, de se envolver com o enredo, é um cinéfilo observador dos movimentos de câmera, enquadramentos e fotografia este é definitivamente o filme da “safra” 2016!

No seu primeiro trabalho de direção num longa metragem, Anna Rose Holmer cria um micro cosmos de uma obra que se passa quase que inteiramente num centro comunitário esportivo de alguma cidade norte-americana, frequentado por crianças e adolescentes que lá estão para praticarem esportes e dança. Deste modo, você não sabe muita coisa das personagens e o filme não dá a mínima para explicar isso. A história de cada um, sua família, como vivem, se vão à escola e por aí em diante passam longe do filme (embora dê algumas sutis pistas durante a película). Admito que até certa altura dele isso me incomodou, mas aí você percebe a intencionalidade disto, de mostrar que o que importa está na tela e, da forma que é feito, é sublime e fantástico.

Permeado por uma trama de amadurecimento da personagem principal, uma menina que inicialmente treina boxe com os homens e migra para o time de dança feminino, temos um belo resultado técnico (repito, para mim, a melhor fotografia e um dos melhores designs de produção do ano – nota não tão relevante: obviamente por ser altamente independente e fora de circuito comercial passou longe das indicações ao Oscar, anunciadas hoje). Além da técnica também estão lá dramas que surgem, ou melhor, se intensificam na adolescência, tais como a competitividade (até nas tragédias do filme há competição), exibicionismo e descobertas de gostos e preferências.

Em poucas palavras, se você for um apreciador de filmes que fogem do circuito “cinema-pipoca” The Fits é a versão de 2016 do filme independente que sabe contar uma história aparentemente simples sob as nuances de uma atmosfera única, claustrofóbica e sedutora.