Trainspotting 2 (2017) – Quando a mesma fórmula não garante os mesmos resultados

 

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O mundo mudou em 20 anos. Não tanto quanto um dia imaginamos que duas décadas fariam de diferença ao mundo e muito menos, nem perto do que 20 anos representam na vida da Terra ou nos hábitos primitivos da nossa espécie – alguns, mesmo depois de milênios, continuam praticamente inalterados. Mas, de certa forma, mudou como sempre muda: com pequenos avanços tecnológicos e, principalmente, com as pessoas envelhecendo e o eterno ciclo de quem era jovem ficando velho e esta mudança natural trazendo momentos de nostalgia e arrependimentos.

É exatamente neste contexto que a sequência do Trainspotting de 1996 chegou aos cinemas neste ano. Trazendo seu núcleo principal de protagonistas (Ewan McGregor, Robert Carlyle, Ewen Bremner e Jonny Lee Miller) novamente na mesma Escócia do filme original e sob a mesma direção de Danny Boyle, assistimos em 2 horas uma ode à nostalgia da juventude do quarteto. Todos envelheceram e suas escolhas da juventude ainda repercutem no presente. Com uma série de referências ao filme de 96 em diálogos, conflitos ou rimas estéticas, está aí o primeiro ponto crucial do filme: se você decidiu assisti-lo sem conhecer o Trainspotting original provavelmente entenderá pouco da história e com grandes chances de sequer terminar de assistir este. O roteiro passa a ser vinculado a história original e praticamente tudo orbita em torno da decisão do personagem de Ewan McGregor de fugir com a parte dos seus amigos do dinheiro que eles roubam.

Mas este mote não é o problema do filme, afinal, grandes westerns foram construídos baseados na premissa de uma vingança oriunda de trapaças com dinheiro. Ocorre é que fora isso o filme não consegue desenvolver uma história convincente e a partir de certo ponto, parece que até os atores reconhecem isso e estão tão impacientes quanto o espectador para que o filme termine. Existe uma tentativa de história neste roteiro, que é a da reunião dos 3 (McGregor, Bremner e Miller) para construir e administrar um bordel, mas da forma como isso é conduzido em nenhum momento acreditamos que isso possa acontecer ou que tenha relevância. Além disso, a psicopatia do personagem de Robert Carlyle (Begbie) o faz ser temido pelos demais 3 parceiros e velhos amigos, mas embora ela quase chegue a níveis Alex DeLarge em Laranja Mecânica, é pouco verossímil que três homens mais novos, unidos, de bom porte físico e pouco a perder na vida, se esquivem tão pateticamente dele.

Embora estes pontos sejam cruciais e, na minha opinião, definidores de que seria melhor ter ficado com a lembrança de Ewan McGregor numa overdose de heroína ao som de Lou Reed (Perfect Day), o filme de 2017 tem alguns bons momentos. Entre eles, a melhor cena do filme, a explicação sincera do que é o Choose Life, que você pode ver no vídeo abaixo. No fim, temos um filme de oscilações entre alguns bons e sarcásticos momentos num emaranhado de referências ao filme de 1996 e uma história fraca que se preocupa em dar um tom exagerado no caráter determinista a vida, pois mesmo que o presente seja uma inevitável consequência dos nossos atos passados, viver num ritmo de c’est la vie, é um belo desperdício de tempo.

 

 

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O Sal da Terra (2014)

Se uma boa redação precisa de um excelente título, um bom filme também começa a ter sua qualidade apreciada já no título. Quando o título de um filme resume com excepcional habilidade as suas ideias centrais é um belo indício que, ao menos, ele tem coesão. E esta qualidade é uma das predominantes em O Sal da Terra, documentário de 2014 que apresenta a vida do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado através da sua obra.

Dirigido e produzido pelo cineasta alemão Wim Wenders em parceria com Juliano Salgado (filho de Sebastião), O Sal da Terra é um documentário (acertadamente indicado ao Oscar) que une as várias fases da carreira do famigerado protagonista através desta simples mas brilhante constatação: o que faz diferença para o mundo (o sal ou “tempero” dele) são – sempre foram e serão – as pessoas. Essa constatação, embora de uma obviedade gigante, através da utilização das fotos, resultado uma vida de expedições pela América Latina, Leste Europeu e África, entre outros, culmina na visualização das experiências do fotógrafo e vai além do que meros relatos escritos sobre a natureza humana nos 4 cantos da terra poderiam produzir.

Enquanto você lê este texto é perfeitamente provável que no planeta, por exemplo, existem pessoas experimentando suas maiores felicidades ou tristezas da vida, desempenhando rotinas ou hábitos que nunca vimos ou soubemos, ou com preocupações que para você (ou eu) não fazem sentido. Por mais polarizados e distintos que sejam nossos hábitos e locais por onde passamos, a vida ordinariamente nos limita a realidade que nos cerca (afinal, recursos como o tempo são finitos e a imprevisibilidade da raça humana, não), e com isso acabamos tendo a noção e percepção mais viva somente daquilo que faz parte da nossa realidade. São experiências como as de Salgado em O Sal da Terra, documentadas através da fotografia preto-e-branco, imparciais e impessoais, que servem de combustível para mostrar que o mundo sempre é maior do que o imaginávamos no instante anterior (apenas isto, sem o mérito de ser melhor ou pior, e toda a subjetividade carregada neste tipo de análise) .

(Melhor e mais prudente do que falar especificamente das obras de Sebastião Salgado é observá-las e, por isso, algumas estão na sequência abaixo neste post).

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Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (2017) – um filme independente para começar bem o ano

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Passada a corrida dos prêmios (Oscar, Globo de Ouro, prêmios dos críticos), 2017 começa a mostrar alguns bons exemplos de produções maduras e bem ajustadas. Já não me sinto em casa nesse mundo (I don’t feel at home in this world anymore) é um filme de 2017, dirigido por Macon Blair e exibido no Festival de Sundance em janeiro e rapidamente comprado e disponibilizado pela Netflix em seu catálogo mundial. Trata-se de um filme independente (leia-se aqui: baixo orçamento) mas habilmente produzido que, como sugere o título, mostra o desconforto da protagonista Ruth – vivendo nos dias atuais nos EUA – ao se deparar com a alienação e indiferença da população no cotidiano e após ter sua casa furtada. Nada mais é do que a sensação de “peixe vivendo fora d’água” tão recorrente atualmente.

Em seus primeiros atos vemos em Já Não me sinto… um drama de como é viver numa sociedade que vive no seu sistema quase robótico (comprar, comer, beber e não ligar para os outros – isso inclusive se aplica à Polícia) e temos um vislumbre de uma obra análoga a tantas outras que mostram a estranheza do nosso tempo (Tangerine ou Indomável Sonhadora foram alguns bons exemplos dos quais lembrei). Mas então, pouco a pouco são inseridos elementos de comédia, mas não uma comédia estilo “pastelão” feita para gargalhar, muito mais na mesma linha da comédia do humor negro e sútil que os irmãos Coen há tempos desenvolvem. Então, de repente, a metade final do filme transforma-se num belo exemplo de humor e consequências absurdas  a ações minimamente diferentes das habituais, reforçando muito um paralelo a Queime Depois De Ler (Burn After Reading).

Temos como resultado um filme que aparentemente traz uma premissa mas faz uma entrega totalmente diferente. Se deixarmos de lado essa consideração purista é fácil identificar que o filme tem uma base sólida de atuações (incluindo Elijah Wood) e uma história que sutilmente faz uma crítica a sociedade contemporânea no seu modo egoísta de agir mas de maneira mais contundente é um bom exemplo de entretenimento/comédia.

*Uma grande mensagem da história que ficou pairando na minha mente é a de que uma alteração no curso da rotina muda todo o futuro. Simples, porém nem sempre conseguimos aplicar a coisas que nos desagradam na vida, ou como diz o personagem de Kevin Spacey em House of Cards “se não gosta como a mesa está posta, vire a mesa”.

Os melhores filmes de 2016 – A lista e o ano

Nesta temporada 2016 do cinema, que formalmente se encerra no domingo com a cerimônia do Oscar, é inegável que o mundo cinematográfico mudou e evoluiu. Não somente – mas inclusive – Hollywood, chegou a um estágio da produção de vários BONS filmes. Filmes com uma história sem grandes problemas, atuações dentro da média e apelos visuais e emocionais com algumas boas histórias – muitas baseadas em fatos reais. Se isso tudo soa bem aparentemente, após alguns exemplares de obras dessa magnitude percebemos que essa “fórmula” do filme bem acabado enrolado em papel de presente é cansativa. O filme termina e em poucos minutos ou no dia seguinte, ele se perdeu entre tantos outros num lugar comum.

Há muito tempo eu não via uma lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme sem apontar um – ou mais filmes – como “ruins” numa análise mais sucinta e pouco recomendada. Embora eu tenha algumas restrições com o indicado Estrelas Além do Tempo deste ano, para mim é inegável que os 9 filmes indicados possuem um refinamento compatível com um “padrão mínimo” de qualidade. Mas, se quem ganha com isso são (ou deveria ser) os estúdios e cinemas com uma hipotética maior facilidade de comercializar os filmes, tem alguém que perde? Na minha opinião, sim, mas depende de como você se enquadra no quesito APRECIADOR-DE-FILMES. A significância do filme para cada pessoa é muito subjetiva (arte, não é mesmo?) e varia conforme inúmeros fatores, mas as probabilidades que um filme limitado em entregar uma fórmula pronta/pouco ousada e bem produzida oferece tendem a ser baixas.

Por isso tudo, a minha lista dos favoritos deste ano destoa na sua ordenação de muitos dos prêmios concedidos, pois embora alguns filmes destes ranqueados por mim apresentem alguns pontuais defeitos, como o momento “quase-vergonha-alheia” de Capitão Fantástico com “Sweet Child’o Mine” ou o moralismo de Mel Gibson de Até o Último Homem, todos esses e a maior parte dos meus favoritos fazem parte daquele grupo de filmes que te deixam a pensar por um bom tempo após os créditos finais, seja por um desconforto com o choque da temática (Moonlight ou A Criada, por exemplo) e da ambientação (The Fits) ou pela complexidade e articulação das ideias (O.J.: Made in America ou Capitão Fantástico) ou ainda por atuações magníficas, como Isabelle Hupert em Elle, atingindo o nível  Daniel Day Lewis de atuação.

Ou, depois disso tudo você ainda considera que o favorito ao Oscar, La La Land: Cantando Estações (um bom filme, diga-se de passagem) terá o mesmo impacto/significado em 5 ou 10 anos? Creio que não.

 

Dito isso, eis os meus preferidos…

  • Melhor Filme: Capitão Fantástico (Captain Fantastic);
  • Melhor Diretor: Anna Rose Holmer por The Fits (The Fits);
  • Melhor Ator: Casey Affleck em Manchester à Beira Mar (Manchester By The Sea);
  • Melhor Atriz: Isabelle Hupert em Elle* – a melhor coisa no ano no quesito atuação!
  • Melhor Ator Coadjuvante: John Goodman em Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane);
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Lily Gladstone em Certas Mulheres (Certain Women)* – Viola Davis é uma excelente atriz, mas não é coadjuvante em Um Limite Entre Nós (Fences);
  • Melhor Filme de Animação: Moana;
  • Melhor documentário: O.J.: Made in America;
  • Melhor Fotografia: Docinho Americano (American Honey);
  • Melhor Canção: City of Stars, La La Land: Cantando Estações (La La Land);
  • Filme(s) mais superestimado(s): Zootopia (Zootopia), A Chegada (Arrival);
  • Piores filmes do ano: Esquadrão Suicida (Suicide Squad), Horizonte Profundo (Deepwater Horizon);

 

…e o Top15 dos filmes de 2016:

15 – Animais Noturnos (Nocturnal Animals) de Tom Ford

14 – Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake) de Ken Loach

13 – A 13ª Emenda (13th) de Ava DuVernay

12 – Divinas (Divines) de Houda Benyamina

11 – Aquarius (Aquarius) de Kleber Mendonça Filho

10 – Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight) de Barry Jenkins

9 – Manchester à Beira Mar (Manchester By The Sea) de Kenneth Lonergan

8 – Toni Erdmann (Toni Erdmann) de Maren Ade

7 – A Bruxa (The Witch) de Robert Eggers

6 – O.J.: Made in America (O.J.: Made in America) de Ezra Edelman

5 – A Criada (The Handmaiden) de Park Chan-wook

4 – Até o Último Homem (Hacksaw Ridge) de Mel Gibson

3 – Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfiel Lane) de Dan Trachtenberg

2 – The Fits (The Fits) de Anna Rose Holmer

1 – Capitão Fantástico (Captain Fantastic) de Matt Ross

 

 

Lion: Uma jornada para casa (2016)

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É inútil discutir Lion: Uma Jornada Para Casa (2016, Lion) como um filme ou explorar seus aspectos de produção, direção, roteiro e atuações. É uma obra que trabalha na mediocridade nesses quesitos, isto é, nem se destaca nem fica devendo, parecendo um belo exemplar de um telefilme (filme feito para a TV) da HBO.

O que realmente importa neste filme é a sua ligação com o mundo real. Ao acreditarmos que se trata de uma história real (eu não pesquisei o quanto é realidade e o quanto foi “ficcionalizado” pelo diretor Garth Davis), de que o menino indiano que se perdeu aos 6 anos e 25 anos depois, morando num país diferente e com cultura totalmente distinta (Austrália) consegue refazer o caminho de casa para encontrar a mãe biológica precisamos parar de pensar ou criticar muito do filme. Esta capacidade extraordinária de o mundo produzir inúmeras histórias fantásticas diariamente é uma obra de arte tão fantástica que supera quaisquer filmes. Enfim, Lion é um filme que deve ser visto como uma ode não ao cinema, mas a imprevisibilidade que o mundo – na verdade, estar vivo – reserva a quem dele fez ou faz parte.

Manchester à Beira Mar (2016) – o poder da imperfeição

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Enquanto tantos filmes procuram nos convencer da sua qualidade através de uma trama “redonda”, sem espaço para divagações, com todas as ações se desdobrando em outras num fluxo de perfeição cinematográfica, Manchester à Beira Mar (2016, Manchester By The Sea) vai – com o perdão do trocadilho – contra a maré.

Não é a grande atuação de Casey Affleck (indicado e favorito, com certa justiça, ao prêmio de Melhor Ator no Oscar) como protagonista nem a de Lucas Hedges que são o principal triunfo do filme. É a sua imperfeição – habilmente desenvolvida por Kenneth Lonergan, o diretor. A imperfeição é onipresente em todo o filme: nos diálogos que se encerram com ideias abertas, no clima de inconveniência nas conversas, na falta de solução aos problemas mundanos e burocráticos e na incapacidade de superar traumas passados. Pois isto tudo é a vida humana em uma condição mais próxima à realidade, longe de idealismos, a virtude deste que é, indiscutivelmente, um dos melhores filmes do ano.

Um limite entre nós (Fences, 2016) – O grande teatro de Denzel Washington

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Ao contrário do que o título deste post pode sugerir, Um Limite Entre Nós (título original Fences) não é um filme de baixa qualidade. A caracterização desta obra me lembra outras adaptações cinematográficas de roteiros focados nos diálogos acima de tudo, tais como a obra prima de 2008 intitulada Dúvida (Doubt). Neste filme de 2016, e concorrente a muitas estatuetas do Oscar – incluindo a de melhor filme, Denzel Washington além de ser protagonista é o diretor e mente criativa da obra. Interpretando um trabalhador da companhia do lixo nos EUA pós Segunda Guerra Mundial ele faz par com a personagem de Viola Davis, sua esposa.

Em menos de 5 minutos de filme temos a certeza que a atuação de Denzel merece, no mínimo, uma indicação a melhor ator. Com naturalidade e desenvoltura de um ator extra classe ele mostra carisma a amabilidade invejáveis, que fazem o espectador querer conhecer melhor Troy Maxson, seu personagem. Aí a trajetória do filme começa a se justificar de uma forma muito inteligente. Ao longo do filme descobrimos que por trás do Denzel Washington das primeiras cenas temos um homem abandonado pela mãe e com pai abusivo, amargurado por não ter mais êxito profissional, com nostalgia da época em que era um destaque do baseball e lutando contra sua vida boêmia e infiel no matrimônio. Conforme essa caracterização vai se delineando o outro ponto forte do filme, Viola Davis, começa a aparecer e tal qual seu par em cena, a clamar por atenção. Inicialmente de aparência submissa, vemos que a força de vontade para permanecer naquele casamento, amando ao seu marido é gigante, assim como a atuação.

Enquanto Denzel entrega ao público uma de suas melhores interpretações da sua carreira, como diretor ele prefere delinear bem os limites da cenografia, as posições de cada ator no set e deixar que as atuações conduzam o resto. Praticamente o filme inteiro se concentra entre o cenário da sala de estar, cozinha e área de fundos da residência do casal. Por isso e pelos longos, mas belíssimos monólogos, temos a estrutura teatral da obra, digna de uma grande peça. Mas não está na técnica de cenografia ou atuações o mérito do filme. Elas são parte de um propósito maior e relativamente bem sucedido: humanizar a complexidade das ações do ser humano. O comportamento moral idealizado não existe e, atrás de cada sorriso ou traição sempre há uma história.