Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (2017) – um filme independente para começar bem o ano

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Passada a corrida dos prêmios (Oscar, Globo de Ouro, prêmios dos críticos), 2017 começa a mostrar alguns bons exemplos de produções maduras e bem ajustadas. Já não me sinto em casa nesse mundo (I don’t feel at home in this world anymore) é um filme de 2017, dirigido por Macon Blair e exibido no Festival de Sundance em janeiro e rapidamente comprado e disponibilizado pela Netflix em seu catálogo mundial. Trata-se de um filme independente (leia-se aqui: baixo orçamento) mas habilmente produzido que, como sugere o título, mostra o desconforto da protagonista Ruth – vivendo nos dias atuais nos EUA – ao se deparar com a alienação e indiferença da população no cotidiano e após ter sua casa furtada. Nada mais é do que a sensação de “peixe vivendo fora d’água” tão recorrente atualmente.

Em seus primeiros atos vemos em Já Não me sinto… um drama de como é viver numa sociedade que vive no seu sistema quase robótico (comprar, comer, beber e não ligar para os outros – isso inclusive se aplica à Polícia) e temos um vislumbre de uma obra análoga a tantas outras que mostram a estranheza do nosso tempo (Tangerine ou Indomável Sonhadora foram alguns bons exemplos dos quais lembrei). Mas então, pouco a pouco são inseridos elementos de comédia, mas não uma comédia estilo “pastelão” feita para gargalhar, muito mais na mesma linha da comédia do humor negro e sútil que os irmãos Coen há tempos desenvolvem. Então, de repente, a metade final do filme transforma-se num belo exemplo de humor e consequências absurdas  a ações minimamente diferentes das habituais, reforçando muito um paralelo a Queime Depois De Ler (Burn After Reading).

Temos como resultado um filme que aparentemente traz uma premissa mas faz uma entrega totalmente diferente. Se deixarmos de lado essa consideração purista é fácil identificar que o filme tem uma base sólida de atuações (incluindo Elijah Wood) e uma história que sutilmente faz uma crítica a sociedade contemporânea no seu modo egoísta de agir mas de maneira mais contundente é um bom exemplo de entretenimento/comédia.

*Uma grande mensagem da história que ficou pairando na minha mente é a de que uma alteração no curso da rotina muda todo o futuro. Simples, porém nem sempre conseguimos aplicar a coisas que nos desagradam na vida, ou como diz o personagem de Kevin Spacey em House of Cards “se não gosta como a mesa está posta, vire a mesa”.

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The Fits (2016) – Review do Filme Independente do Ano

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Um peculiar prazer meu ao assistir um filme é não saber nada a respeito dele, nem sua trama, nem seus atores ou diretor (mui menos o histórico cinematográfico dele). Se o cast, ainda por cima, se revelar inteiramente desconhecido ele ganha pontos (vários) extras comigo. Dito isso, assim foi The Fits (ainda sem título nacional) comigo. Em apenas 72 minutos aí vai meu conselho: se você, além de gostar de filmes, de se envolver com o enredo, é um cinéfilo observador dos movimentos de câmera, enquadramentos e fotografia este é definitivamente o filme da “safra” 2016!

No seu primeiro trabalho de direção num longa metragem, Anna Rose Holmer cria um micro cosmos de uma obra que se passa quase que inteiramente num centro comunitário esportivo de alguma cidade norte-americana, frequentado por crianças e adolescentes que lá estão para praticarem esportes e dança. Deste modo, você não sabe muita coisa das personagens e o filme não dá a mínima para explicar isso. A história de cada um, sua família, como vivem, se vão à escola e por aí em diante passam longe do filme (embora dê algumas sutis pistas durante a película). Admito que até certa altura dele isso me incomodou, mas aí você percebe a intencionalidade disto, de mostrar que o que importa está na tela e, da forma que é feito, é sublime e fantástico.

Permeado por uma trama de amadurecimento da personagem principal, uma menina que inicialmente treina boxe com os homens e migra para o time de dança feminino, temos um belo resultado técnico (repito, para mim, a melhor fotografia e um dos melhores designs de produção do ano – nota não tão relevante: obviamente por ser altamente independente e fora de circuito comercial passou longe das indicações ao Oscar, anunciadas hoje). Além da técnica também estão lá dramas que surgem, ou melhor, se intensificam na adolescência, tais como a competitividade (até nas tragédias do filme há competição), exibicionismo e descobertas de gostos e preferências.

Em poucas palavras, se você for um apreciador de filmes que fogem do circuito “cinema-pipoca” The Fits é a versão de 2016 do filme independente que sabe contar uma história aparentemente simples sob as nuances de uma atmosfera única, claustrofóbica e sedutora.