Tudo sente

O mundo sente. Tudo que existe, existe com uma história. E por que não as plantas, os vegetais, os animais, além dos homens? Sem a pretensão de querer igualar o que representam histórias individuais de cada ser, esquecer que a alface que vai à mesa ou a pessoa que atravessa a faixa de pedestres ao seu lado são mais que casualidades pode nos tornar distantes, tão distantes como algo que não é um ser, uma máquina.

Em 1982 o filme Blade Runner inovou em técnicas cinematográficas e, pela primeira vez na história do cinema de altos orçamentos, apresentou um futuro conceitual onde o mundo não era bonito ou fluido e quebrou o senso comum de que o progresso vai nos levar a um lugar sem falhas. Afinal, quando pensamos em futuro da humanidade, por muitas vezes nossa mente está tão condicionada a ir em direção a novas tecnologias e confortos que é poderoso lembrar que continuaremos a ter medos, inseguranças e dificuldades cujas nada que foi criado no mundo externo pelo homem é solução. Se causa um desconforto, é porque continuamos sentindo. Se continuamos sentindo, é porque estamos no caminho certo – ainda mais se nos escutarmos bem.

Além disso, o mesmo filme ainda fez algo mais impactante ao estimular a dúvida em seus personagens (e nos espectadores) de quem eram de fato os homens e quem eram replicantes (os androides, criados a imagem da raça humana) e, se estes não eram máquinas bem construídas para simular humanidade. Quanto mais nos distanciamos do pensar e viver longe da nossa essência e potencialidades, mais difícil fica de responder a dúvida dos personagens do filme. O estoicismo – tão na moda atualmente, embora muitas vezes para justificar comportamentos questionáveis – apontava que só somos felizes quando alinhamos o que podemos oferecer com o que de fato fazemos. Poucas as sensações são melhores do que àquelas onde você sente que faz ou está vivendo no lugar – físico, espiritual ou de companhia – que deveria estar. Mas, escrever sobre isso é apenas entrar no hall de entrada de uma mansão que só pode ser percorrida na vida. Tem quem prefira ficar só em um cômodo e àqueles que vão olhar a casa inteira, encontrando aposentos mais bagunçados e outros bem decorados implorando para serem usados. Se a casa é sua, por que não viver em todo o seu espaço?

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