Aprendendo a começar

Começar algo novo é o típico tema falado na maioria dos discursos motivacionais aos quais os algoritmos de redes sociais colocam sob holofotes. Mas a banalização do falar que “é importante fazer coisas novas” foca prioritariamente no resultado delas, do pragmatismo de que, com prática, um novo hábito será incorporará na nossa rotina, na nossa vida e ela ficará melhor. Treinar musculação é difícil, mas depois que acostuma tem seus benefícios ao corpo e mente. Correr é só começar e se nas primeiras vezes não for a 8ª maravilha do mundo, insista um pouco que a endorfina vem e tudo vira rotina. Cozinhar uma receita complexa é possível de forma rápida e descomplicada, basta aprender o método e ter alguma parafernália gourmet. Vida saudável, falar outras línguas, tarefas domésticas, rotinas empresariais…é assim na maioria dos discursos.

Porém, quando focamos muito em um motivo para agir (a motivação) ou em um propósito – que beira certa utopia muitas vezes – nos esquecemos de aproveitar o processo, a experiência única que é aprender, aperfeiçoar, errar. Aprender é entrar em contato com aquilo que não se sabe. Implica doses de vulnerabilidade, pois se quisermos aprender ficando na defensiva ou arrogância o resultado não virá conforme o esperado e o tempo investido parecerá sem sentido, reforçando crenças e negatividades. Embora este texto não seja uma apologia ao viver a vida sem rumo ou não ter motivo para fazer o que se faz, ele é um convite a prestar atenção quando estamos começando algo, aprendendo: o que funciona, o que não funciona e (mais importante) qual a minha régua para medir funcionalidade? Além disso, se descobrir nos seus erros, baixar a guarda e aceitar que até aquele momento você sabia muito pouco sobre.

*Texto originado a partir do aprendizado de fazer um bom iogurte natural caseiro.

Tudo sente

O mundo sente. Tudo que existe, existe com uma história. E por que não as plantas, os vegetais, os animais, além dos homens? Sem a pretensão de querer igualar o que representam histórias individuais de cada ser, esquecer que a alface que vai à mesa ou a pessoa que atravessa a faixa de pedestres ao seu lado são mais que casualidades pode nos tornar distantes, tão distantes como algo que não é um ser, uma máquina.

Em 1982 o filme Blade Runner inovou em técnicas cinematográficas e, pela primeira vez na história do cinema de altos orçamentos, apresentou um futuro conceitual onde o mundo não era bonito ou fluido e quebrou o senso comum de que o progresso vai nos levar a um lugar sem falhas. Afinal, quando pensamos em futuro da humanidade, por muitas vezes nossa mente está tão condicionada a ir em direção a novas tecnologias e confortos que é poderoso lembrar que continuaremos a ter medos, inseguranças e dificuldades cujas nada que foi criado no mundo externo pelo homem é solução. Se causa um desconforto, é porque continuamos sentindo. Se continuamos sentindo, é porque estamos no caminho certo – ainda mais se nos escutarmos bem.

Além disso, o mesmo filme ainda fez algo mais impactante ao estimular a dúvida em seus personagens (e nos espectadores) de quem eram de fato os homens e quem eram replicantes (os androides, criados a imagem da raça humana) e, se estes não eram máquinas bem construídas para simular humanidade. Quanto mais nos distanciamos do pensar e viver longe da nossa essência e potencialidades, mais difícil fica de responder a dúvida dos personagens do filme. O estoicismo – tão na moda atualmente, embora muitas vezes para justificar comportamentos questionáveis – apontava que só somos felizes quando alinhamos o que podemos oferecer com o que de fato fazemos. Poucas as sensações são melhores do que àquelas onde você sente que faz ou está vivendo no lugar – físico, espiritual ou de companhia – que deveria estar. Mas, escrever sobre isso é apenas entrar no hall de entrada de uma mansão que só pode ser percorrida na vida. Tem quem prefira ficar só em um cômodo e àqueles que vão olhar a casa inteira, encontrando aposentos mais bagunçados e outros bem decorados implorando para serem usados. Se a casa é sua, por que não viver em todo o seu espaço?

Engrenagens

Tantas são as engrenagens que regem o mundo, e nem as percebemos — a ponto de que, se uma simples peça sair do lugar, o mundo muda drasticamente. Pode parecer propaganda de canal de notícias ou discurso pré-fabricado; depende de como você interpreta. Meu convite é para uma pequena pausa, um suspiro trabalhado em reflexão.

Na última semana, a notícia de um vazamento de combustível em uma vizinhança próxima ao meu lar ganhou algumas manchetes e alterou a rotina do entorno. Alguns moradores tiveram que deixar suas casas por precaução; outros permaneceram em estado de alerta, e os empregados do posto de combustível devem estar se perguntando quando poderão voltar ao trabalho. A mesma rotina de sempre, com algo levemente fora do esperado.

Talvez a situação mais universalmente ilustrativa nos dias de hoje é ficarmos sem conexão com a internet e/ou sem energia elétrica. Sem entrar nos lugares-comuns já amplamente explorados, não se pode negar que não é apenas o funcionamento dos eletrônicos e equipamentos que muda — é o nosso funcionamento também. No aspecto biológico dos seres vivos, a complexidade é ainda maior do que uma simples interrupção no sinal de internet. O professor Clóvis de Barros, em um recente podcast, já dizia que um simples cisco no olho nos torna inoperantes.

Há muita vida e muitas coisas acontecendo o tempo todo, ao mesmo tempo, para que, às vezes, tudo pareça não estar acontecendo — no universo, ao nosso redor e dentro de nós. Diante de cada oportunidade em que algo sai da normalidade e da previsibilidade, antes de pensar no que fazer, ajuda e tranquiliza muito lembrar da complexidade presente nesse emaranhado. Por outro lado, quando coisas boas — daquelas que você não esperava tiram o fôlego ou causam frio na barriga — acontecem, também vale (e muito) lembrar que houve uma sucessão de complexidades que foram superadas para que elas se realizassem.

Oeste Outra Vez (2024)

Se fosse para resumir este post em uma frase, somente um “vá e veja!” seria suficiente.

É este o sentimento que Oeste Outra Vez, filme nacional de Erico Rassi, estrelado por Ângelo Antonio, Rodger Rogério e Babu Santana, me causou. Disponível no catálogo do Telecine para quem perdeu o privilégio de ver na tela grande, Oeste Outra Vez tem o potencial de agradar um distinto grupo de espectadores e de muitas formas diferentes.

O filme tem a genialidade de soar perfeito para um momento de entretenimento, o passar do tempo com qualidade e contentamento, de rir do ritual de sempre ter limão quando se bebe cachaça ou dos temidos e alardeados pistoleiros do agreste que não conseguem acertar o alvo de primeira nunca, o ritmo é leve e a sensação de não ver o filme passar é um grande elogio ao trabalho de Rassi. Além disso, a identificação de costumes, valores e locais tão brasileiros e enraizados na nossa cultura um filme de western norte americano nunca mostrará – é formidável ver os restaurantes de “beira de estrada”, os bares improvisados em casas nas cidades de interior e a resistência de comunidades em manter tradições sociais.

Somente isso faria do filme uma obrigatória indicação de 2h bem vividas, mas é através de sutilezas, da câmera que mais do que filme, contempla as excepcionais atuações e interações entre os personagens de Ângelo e Rodger que o filme se transforma numa belíssima obra de filosofia e sociologia contemporâneas. Temas como a aridez que os homens sustentam nas suas vidas e relacionamentos e como ele é frágil e está prestes a ruir em cada desabafo, o orgulho, o papel das mulheres na sociedade patriarcal e as consequências de uma vida sem propósito fazem que o filme não termine nos créditos finais, mas continue ressoando na nossa mente.

Vá e veja.

La Notte (1961): o silêncio das relações e o eco da modernidade

Poucos filmes conseguem traduzir de forma tão profunda e sensível as transformações de uma sociedade quanto La Notte, dirigido por Michelangelo Antonioni. Lançado em 1961, esse clássico do cinema italiano é uma verdadeira ponte entre o neorealismo do pós-guerra e o surgimento de uma nova linguagem cinematográfica mais introspectiva, existencial e modernista.

Ambientado em uma única noite, o filme acompanha um casal — vivido por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau — cuja relação parece se desfazer aos poucos, não por grandes rupturas, mas pelos pequenos silêncios, pelas ausências sutis, pelos gestos não ditos. La Notte é minimalista em sua estrutura narrativa, mas incrivelmente rico nos detalhes técnicos, estéticos e emocionais. A ironia é essa: é um filme de poucas palavras, mas de muitas camadas.

A Itália retratada no filme é uma nação em reconstrução — saindo das ruínas da guerra e mergulhando em uma nova era de desenvolvimento econômico e transformação tecnológica. Essa transição está presente até nas cenas aparentemente simples, como a dos garotos soltando pequenos foguetes, um aceno direto ao clima de Guerra Fria que se instalava no mundo. Antonioni, com sua visão aguçada, faz do cotidiano um espelho da história.

O diretor não se preocupa em entregar respostas prontas. Ao contrário: ele planta dúvidas, convida à reflexão e deixa que o desconforto do espectador se instale. Quando, ao final, o personagem de Mastroianni declara ainda amar sua esposa, tudo o que vimos até ali sugere o oposto. E é exatamente aí que o filme nos provoca: o que dizemos tem mesmo mais peso que o que fazemos? E o quanto das nossas relações está baseado no que silenciamos?

La Notte é, sem exagero, uma obra-prima. Um filme que exige atenção, entrega e sensibilidade.

Infelizmente, encontrar essa joia do cinema italiano pode ser um desafio. O filme não está disponível nas principais plataformas de streaming no Brasil. Encontrei-o apenas no YouTube, com áudio original em italiano e legendas em inglês — link abaixo.

Os melhores filmes de 2024: a lista

O dia do Oscar é o marco de encerramento de ciclo anual do cinema (hollywoodiano? Sim, mas pela influência cultural, mundial também). Hoje é o réveillon dos cinéfilos (cof cof). Dito isso, nada mais justo que explorar brevemente o 2024 e elencar os melhores daquele ano.

Este 2024 foi um ano, se comparado a 2023, estranho. Um ano em que – na minha opinião – não tivemos obras primas, destas que perduram na nossa imaginação e nostalgia, que geram vontade de debater e rever. Se em 2023 fomos agraciados com obras como Assassinos da Lua das Flores, Dias Perfeitos, Zona de Interesse e Monster, 2024 trouxe exemplares mais comedidos no quesito qualidade, um ano repleto de boas histórias, mas com alguma lacuna a desenvolver melhor (ritmo, direção, cast e atuações, roteiros, etc.). Talvez o clima de indefinição em muitos dos prêmios do Oscar seja um reflexo disso. Talvez.

E como não falar de Ainda Estou Aqui? O representante brasileiro que mais gerou engajamento na história de Hollywood, que mobilizou muitos em redes sociais e alertou o mundo que aqui neste país são produzidas obras de qualidade e que possuímos uma história rica a contar (lembrar e, nesse caso, não repetir)? Hesitei muito em escrever uma resenha sobre o filme de Walter Salles, pois me senti muito – pra não dizer integralmente – representado pela belíssima crítica de Luiz Santiago do Plano Crítico (aqui), que traduziu o que penso sobre o filme: uma obra tecnicamente perfeita, com atuações acima da média, mas com uma direção que “segura” mais a trama do que deveria e um epílogo dispensável. Gostaria de ter visto mais um “Walter Salles de Central de Brasil” em Ainda Estou Aqui. Porém, independente disso, a torcida para o filme continua, em especial na categoria Melhor Filme Estrangeiro, a estatueta mais provável de angariar.

Ademais, montei minha lista de favoritos e, na dificuldade em escolher melhor ator e atriz, listei um empate (se o Festival de Cannes pode fazer isso, por que eu não?). Outros bons exemplos do melhor lado de 2024 cinéfilo estão em filmes com temática do body horror com inserção de questões psicológicas e filosóficas, do gênero da comédia com mais um belo exemplar de Richard Linklater, novas técnicas e abordagens de filmar em primeira pessoa e de construir animações que, de tão simples, se tornam sofisticadas. Por fim, meu filme favorito do ano passou quase fora das premiações, (o que não diz nada sobre sua qualidade e sim sobre campanhas de marketing e como a indústria cinematográfica funciona) tem a habilidade de andar numa linha muito tênue de clichês e conseguir originalidades através do que a arte tem de melhor: a beleza. Eis a minha lista dos meus 15 favoritos:

15 – Duna: Parte 2, de Denis Villeneuve

14 – Rivais (Challengers), de Luca Guadagnino

13 – Ainda Estou Aqui, de Walter Salles

12 – A Verdadeira Dor (A Real Pain), de Jesse Eisenberg

11 – O Brutalista (The Brutalist), de Brady Corbet

10 – A Semente do Fruto Sagrado (The Seed of the Sacred Fig), de Mohammad Rasoulof

09 – Flow, de Gints Zilbalodis

08 – Jurado n°2 (Juror #2), de Clint Eastwood

07 – Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown), de James Mangold

06 – Hard Truths, de Mike Leigh

Top5

05 – Conclave, de Edward Berger

04 – Nickel Boys, de RaMell Ross

03 – Assassino por Acaso (Hit Man), de Richard Linklater

02 – A Substância (The Substance), de Coralie Fargeat

01 – Sing Sing, de Greg Kwedar

  • Melhor Filme: Sing Sing
  • Melhor Diretor: Coralie Fargeat  em A Substância
  • Melhor Ator: Colman Domingo em Sing Sing & Ralph Fiennes em Conclave
  • Melhor Atriz:  Demi Moore em A Substância &  Marianne Jean-Baptiste em Hard Truths
  • Melhor Ator Coadjuvante: Jeremy Strong em O Aprendiz
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Monica Barbaro em Um Completo Desconhecido
  • Melhor roteiro: Sing Sing
  • Melhor montagem: Conclave
  • Melhor trilha sonora: Rivais
  • Melhor Fotografia: Conclave
  • Melhor elenco: Um Completo Desconhecido
  • Filmes mais superestimados: Megalopolis; Mad Max: Furiosa, Wicked

Gladiador 2 – Vale a pena ouvir Enya de novo?

Quando um filme combina aprovação de crítica e sucesso de público é justo parar e entender os motivos que o levaram a essa posição geralmente tão almejada além, é claro, de apreciá-lo. Assim é Gladiador do ano 2000, dirigido e produzido por Ridley Scott. Vinte e quatro anos depois, a sequência encabeçada pelo mesmo diretor dificilmente conseguirá um ou outro feito (crítica e público) e tem diversos motivos para isso.

No filme deste ano, Paul Mescal (excelente em Aftersun) é o novo gladiador e protagonista, que ganha de presente um roteiro e direção que o faz querer repetir muito de Russel Crowe do primeiro filme: de querer se mostrar mais introspectivo (mas aí por 3 vezes faz um discurso longo começando com frases do tipo “não sou de falar muito…”), de carregar trauma e mágoas que precisam de vingança, para então a vontade de vingar simplesmente desaparecer sem um desenvolvimento adequado. Por tudo isso, a atuação do gladiador não empolga. A mesma percepção se aplica ao cast principal, mesmo que Denzel Washington tenha tempo em tela para usar sua oratória e atuação em bons monólogos, é muito torpe sequer acreditar na velocidade que a personagem dele chega ao topo da hierarquia política do maior império da Terra.

Há uma corrente da crítica que despreza as liberdades poéticas de Ridley Scott frente a história real, mas sob esse aspecto, na minha opinião, o cinema pode ser soberano se souber usar variações para a História – do Coliseu com tubarões aos dois imperadores dividindo trono – mas são em outras partes da história que o filme se perde, como por exemplo, a legião de 5.000 pessoas do exército mais poderoso do mundo que não soube que seu general – a quem são fieis – foi assassinado a não ser que ume mensageiro mandando dias e dias depois vai a cavalo contar.

Na maior parte do filme – em especial na metade final – tem-se a impressão de que a obra é o resultado da direção e roteiro de um estudante afoito sem saber o que fazer mas que tem lembrança e carinho pelas coisas boas do filme de 2000. Assim, Gladiador 2 funciona como um fan service pesado, que ao beber dessa fonte consegue fazer um primeiro ato muito bom ao introduzir os personagens e os contextos da Roma naquele momento (16 anos após a trama do primeiro filme), mas que não tem habilidade para desenvolver uma história que superficialmente tenta ser complexa (a deposição de imperadores, traição, revolta popular, descendência plebeia mas com sangue “real”) e quando se vê perdido tenta recorrer a um atalho: se aproveitar de elementos do primeiro filme. As personagens principais mudam de opinião sobre as coisas mais importantes de uma cena para outra apenas porque é mais conveniente para história. Outro ponto a se destacar é a vida de todos que parece tão descartável onde todo mundo morre (mais que nos episódios mais sangrentos de Game of Thrones) e, com isso, é difícil criar vínculo ou sensação que as personagens são importantes para a história.

Em suma, o mais indignante deste filme é que mesmo com todos seus percalços e falhas de concepção e direção, o tema e a clássica história da jornada de herói personificada num gladiador que luta num Coliseu cheio de romanos e mexe com o poder do império continua tendo elementos que fascinam, que fazem querer ver um filme deste tamanho no cinema, mas que a entrega disso tudo seja preguiçosa e cheia de atalhos – o final usando a música de Enya é a cereja do bolo.

8 Mile – Rua das Ilusões

Embalado pela descoberta do novo álbum de estúdio de Eminem (The Death of Slim Shady – Coup de Grâce) e fascinado pela qualidade de rimas, letras e melodias que o artista ainda encontra, mais de 20 anos desde sua fama mundial, fui reparar uma dívida cinematográfica antiga: assistir a 8 Mile – Rua das Ilusões, o filme ficcional mas ainda assim autobiográfico do início da carreira de Marshall Bruce Mathers III, o Eminem, lançado em 2002. Se já o conhecemos pelo que as letras de suas músicas revelam, da sua relação conturbada com a mãe, com a ex mulher e depois com a filha, o filme é uma surpresa em diversas circunstâncias.

A primeira delas é a delimitação da trama, que ocorre em um ritmo muito bom e abrange pouco mais de uma semana da vida do rapper Jimmy Rabbit. No entanto, o roteiro parece ser feito para elevar a classificação etária do filme, deixando de lado aspectos mais sombrios que o próprio Eminem canta em suas letras. A violência e as drogas, por exemplo, passam mais taciturnas no filme. Além disso, a escolha de ser focado num período de anonimato do jovem que sabia rimar e tinha sonho de gravar uma demo para mostrar a uma gravadora é curiosa no seu final, que embora seja “feliz” evita um clichê de já mostrar o estrelato do rapper, evidenciando que mesmo tendo ganhado uma pequena competição de rimas na sua cidade ainda teria muitos desafios pela frente, sendo o primeiro voltar para o trabalho numa indústria ainda naquela noite.

O filme embora tenha pequenos problemas de direção, na minha opinião, se sobressai especialmente pela sua melhor qualidade: as atuações. Do próprio Eminem a todos amigos e rivais de batalha rap, há uma coesão e brilhantismo em atuações que não precisam serem espalhafatosas para serem marcantes e poderosas.

Para encerrar um post sobre um filme que fala de música: Lose Yourself, a composição que deu o Oscar ao Eminem em 2003, mas cuja apresentação que aconteceu apenas na cerimônia de 2020:

Deadpool & Wolverine – Take it easy

Na mais recente investida Marvel nos cinemas, vemos pela primeira vez a inserção de personagem dos X-Men no enredo dos heróis Marvel, o MCU. Deadpool chega a sua terceira aparição cinematográfica, sempre protagonizada por Ryan Reynolds mas desta vez dirigida por Shawn Levy, agarrando-se mais do que nunca na busca da “quebra da quarta” parede, isto é, na interação direta com o espectador, com olhares para câmera, muitas piadas internas sobre o próprio universo Marvel e autodepreciação sobre os rumos das franquias. Trata-se do maior exemplo do chamado fan service da década nos cinemas, com busca por querer agradar, ser descolado e sagaz, ao extremo. A forma se sobressai ao conteúdo, e muito! A esta conclusão, somente se frustrará quem não assistiu as versões anteriores de Deadpool ou esteve ausente do mundo hollywoodiano de filmes dos últimos 15 anos, pois o filme de 2024 entrega o que a maioria foi buscar nele. Porém, na minha opinião, há um sentimento bem efêmero do filme – e a produção dele está comprometida com isso – uma ida ao cinema para se “desligar do mundo” e ouvir ironias que não afetam o seu cotidiano, os seus problemas.

Enquanto Ryan Reynolds repete os mesmos trejeitos e incessantemente tenta emplacar alguma piada que ecoe, esta abordagem funciona no primeiro terço do filme, mas há um cansaço que ela traz nas partes finais. E este cansaço é felizmente contrabalanceado por uma bela atuação de Hugh Jackman, novamente no seu papel mais famoso nos cinemas, o Wolverine. Porém, ainda que rabugento, mas solto e igualmente competente em elevar a trama. Há de se destacar a massiva utilização de músicas “anos 90” e como elas contribuem positivamente para sequências coreografadas de lutas. Quem diria que N’Sync combinaria tanto com matança? Not me.

Neste combinado de argumentos, o filme satisfaz mais a quem conhece as histórias dos filmes Marvel/X-Men (e até Homem Aranha no seu Spiderverse), um preço talvez alto demais para entender bem as piadas feitas, mas se aceitar ser pago, tem seu valor (gostei especialmente da piada sobre tentarem acabar com Wolverine no passado e não conseguirem, citando Mangold no filme – p.s.: James Mangold é o diretor de Logan, em que o personagem de Hugh Jackman morre).

Afora a interação dos 2 protagonistas no filme e o senso de humor lapidado, sobra muito pouco a ser relevante. Pelo contrário inclusive, o roteiro é preguiçoso ao extremo para apenas criar plots de piadas e a construção da vilã do filme, personagem de Emma Corrin (Cassandra) é vazio, como o mundo em que ela habita e governa.

Em suma, há uma nostalgia de fan services que o cinema fazia mais nos idos do final do século passado (me lembrou muito de Todo Mundo em Pânico) sendo Deadpool & Wolverine o completo exemplo de falta de conteúdo compensado com apreço pela forma. Jogar no modo “easy”. Nem sempre isso é ruim. Às vezes é o que precisamos.

Dose dupla: Clube dos Vândalos e Furiosa

Dois grandes e aguardados filmes, por motivos distintos, chegaram aos cinemas e streamings nesse ano. Embora tenham temáticas diferentes, tem mais semelhanças de resultado que seus idealizadores imaginaram.

O primeiro, Clube dos Vândalos (Bikeriders) é a versão cinematográfica de uma história do final da década de 60 que um repórter fotográfico acompanhou em Chicago: do início a decadência de um dos mais tradicionais grupos de motociclistas dos Estados Unidos, unificando em pouco mais de 120 minutos todo o estereótipo de motociclistas que Hollywood já incutiu em nossas mentes – grupo de homens, transgressores, sem preocupação com rotina.

Clube dos Vândalos é dirigido por Jeff Nichols, um diretor que no início de sua carreira trouxe gemas preciosas como Amor Bandido (Mud) e O Abrigo (Take Shelter) carregando em seu estilo uma competência em mostrar sensibilidade como pano de fundo que amarra histórias de sucessão de grandes acontecimentos e feitos, mas cujos últimos filmes caíram num sentimento de preguiça, de deixar a história “correr solta” e não ser coesa.

Neste mais recente trabalho, Nichols segue, infelizmente a linha dos seus últimos filmes. Consegue a proeza de reunir um elenco talentoso, como Tom Hardy, Austin Butler e Michael Shannon e entregar um filme medíocre, pois é visível que a história podia (e pedia) mais, mas que parou e não fluiu pelas mãos do diretor. Argumentos e desconexos, falta de foco na história ao não decidir quem é o protagonista contribuem para que ela seja desinteressante. Se isso se deve a qualidade do material original (fotografias e entrevistas da época) não sabemos, mas o cinema pressupõe que a história precisa saber aonde quer chegar.

Já o novo capítulo da franquia Mad Max, intitulado Furiosa, nome da teoricamente protagonista do filme falha em algo parecido com o supracitado Clube dos Vândalos. Furiosa chegou aos cinemas com uma grande expectativa após o sucesso (de crítica e bilheterias) de Estrada da Fúria de 2015. Na obra de 2024, também dirigida por George Miller, o que menos enxergamos é o protagonismo de Furiosa, interpretada por uma esforçada  Anya Taylor-Joy, pois após um prólogo bem estruturado com uma duração maior que deveria, a personagem principal é alçada a um status de coadjuvante  que destoa pontualmente em situações de perigo, mas que o grande condutor da história é o grande tempo de tela que o diretor investe em querer explicar as relações de poder daquele universo de distopia, quem controla o quê, como é feito o comércio. Chega-se num ponto que parece estarmos sendo apresentados mais a uma análise de macroeconomia do “Mundo Mad Max” que de uma história de construção de personagem e empoderamento feminino (sim, não é possível esquecer da brilhante performance de no filme de Charlize Theron como Furiosa, já adulta, no filme de 2015 e sua contribuição em trazer à mesa a valorização do protagonismo feminino).

No apagar das luzes e créditos finais, ambos os filmes parecem uma centelha do que poderia ter sido com outros rumos de suas direções.