A nossa riqueza

Medir e falar de números sempre esteve ao lado das ciências exatas e distante demais das humanas. Neste processo de 8 ou 80, yin ou yang, esta separação trouxe uma perda de oportunidades a ambas as áreas. Um exemplo clássico, que condiz e muito com a nossa época, é a forma de categorizar a classe social. Polêmica por natureza, pode vir pelo questionamento a um entrevistado sobre a renda familiar ou sobre quantidade de bens que possui, cujo somatório é apresentado através de um método chamado “Critério Brasil”.

Antes de discorrer sobre a eficácia de tais métodos, é oportuno falar deste Critério Brasil, que transforma em pontos a quantidade de atributos no domicílio e a escolaridade do chefe da família da forma que as tabelas abaixo denotam.

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De acordo com a pontuação obtida, o domicílio será classificado em seis estratos socioeconômicos: A, B1, B2, C1, C2 e D-E.

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Quanto mais se dedica tempo a essa metodologia, ainda considerada de grande eficácia nas pesquisas, mais se percebe que ela é falha e que falhamos nas coisas mais óbvias.

Inicialmente, personifica em uma pessoa, o “chefe da família”, num conceito retrógrado que remete ao patriarcado antigo, a responsabilidade do sucesso de todos. Além disso, atribui importância desmedida aos bens/cômodos de uma moradia. Aí está o maior questionamento filosófico, que se estende não só ao método, mas a percepção social (pois, embora discorde deste critério, ele representa infelizmente ainda, um senso comum), a falácia de que a maior quantidade de bens indica maior riqueza. A este critério o investimento de tempo e dinheiro em projetos sociais é muito menor do que dois micro-ondas na cozinha. Afinal, quem prefere ajudar ao outro quando se pode ter um copo de leite e um prato de comida aquecidos ao mesmo tempo? Mais do que isso, é de certa forma uma apologia a uma vida de consumo, orientada a posses e sua divulgação alimenta um sonho distorcido a tantos que buscam melhores condições financeiras de que para se elevar de classe, implica adquirir, comprar e ter.

Na contramão deste, o sociólogo Jessé Souza (autor de A Elite do Atraso e A Classe Média no Espelho, entre outros) traz uma classificação menos econômica e mais social e cultural às classes: com sabedoria classifica a classe alta como elite proprietária, de grandes extensões de terra ou dos meios de produção, e a classe média vinculada a educação, ao privilégio positivo de estudar, de receber educação (da família principalmente) que estimula capacidade de pensar, que faz enxergar toda a complexidade que há no mundo e estimula a capacidade de pensamento abstrato. Além de estar implícita uma crítica a ideologia da meritocracia aí, traz de forma simples a importância da educação, da família, de aspectos sociais a um tema – classe socioeconômica – atualmente muito mais associado a cifrões que ao modo de pensar.

Então, por que abordar e questionar esses métodos atuais? Porque são os dados obtidos através deles que ditam políticas de governo e estudos sociais aplicados. Também porque espalhar e questionar esse senso de certeza quanto ao método de medir é o princípio para muda-lo e, aprender que numa discussão de métodos e números, nem só um pensamento puramente cartesiano pode ser ouvido.

Mais sobre esse raciocínio de Jessé Souza pode ser visto nessa entrevista: