Carta para você, Bruce Springsteen

Neste ano existem oportunidades de falar, pensar e demonstrar que diferem de tudo que a geração que anda sobre este planeta já presenciou. A causa – a pandemia – é uma terrível marca de 2020, mas não há outro movimento, senão o artístico que nos faz pensar de forma mais eficiente sobre o que acontece “lá fora” e “aqui dentro”. Neste contexto oportuno, o veterano Bruce Springsteen, ou The Boss para os fãs, lança seu novo trabalho, Letter to You, em 12 canções inéditas e 58 minutos, mostrando-se mais conectado ao mundo e a temas atemporais do que nunca. Além disso, traz seu exuberante tom de voz, ainda preciso e afinado, mesmo com 50 anos de carreira, construindo uma obra das mais completas e profundas na sua carreira.

Letter to You alterna entre baladas de rock com letras sensíveis a crônicas e devaneios organizados em prosa cantada, sendo a música que dá título ao álbum a de maior potencial a virar single, de ouvirmos em trilhas sonoras de filmes e séries. Mas não é somente nisso que se destaca e merece atenção: assim como outras canções do disco (Rainmaker, Song for Orphans), Letter to you – cujo trecho inicial compartilho abaixo – é uma declaração humilde e sensação de uma varredura pelo coração daquele que aparentemente tem um tom de voz arrogante.

Uma ode à reflexão, a encontrar sentido nos momentos mais conturbados na vida – íntima ou da sociedade, este álbum é um remédio que talvez nem sabíamos que precisávamos. Numa livre associação a metáfora mais acurada é a de que é como um whisky 18 anos servido com gelo: a qualidade e toda a “bagagem” estão lá, poucos chegam nesse nível; porém, há uma suavidade poética no meio de toda energia e amargor, digna de querer repetir a dose.

15 segundos de chiado

Num vídeo recente do canal Meteoro (https://www.youtube.com/watch?v=PxFAiejrHBM) em meio a um resgate das três principais distopias do século passado (Admirável Mundo Novo, 1974 e Fahrenheit 451) certo assunto surge como ponto de reflexão: a comunicação mais visual do que escrita e os emojis como peça simbólica do nosso tempo. Embora não se estenda em explicar ou dissecar o tema, o vídeo termina e as questões brotam na mente em frente a uma tela preta.</p> vídeo recente do canal Meteoro em meio a um resgate das três principais distopias do século passado (Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451) certo assunto surge como ponto de reflexão: a comunicação mais visual do que escrita e os emojis como peça simbólica do nosso tempo. Embora não se estenda em explicar ou dissecar o tema, o vídeo termina e as questões brotam na mente em frente a uma tela preta.

Sem a pretensão de cientificar algo muito mais profundo do que poucos parágrafos escritos numa manhã de inverno com sol, as imagens (e vídeos) são peças fundamentais da nossa cultura, porém entre tantos efeitos colaterais o mais grave é nos levar por um caminho de imediatismo ou superficialidade.

Os 15 segundos iniciais padrão de apenas chiados no início de um LP, o vinil, hoje são no máximo, nostalgia momentânea, mas geralmente acompanhados de uma inquietação e senso de urgência pelo que virá a seguir e também contemplações não entendíveis num 2020 como “Por que colocar trecho sem música num disco?”. Qual a razão? Perguntamos tanto isso como sociedade que a vida tem momentos de contemplação mais breves, despercebidos às vezes e, como provoca o vídeo do Meteoro, expressos por um simples emojis. Feliz, triste, engraçado. Tudo é simples na linguagem visual. Mas a simplicidade não nos tornou mais ágeis ou práticos como fomos ensinados a crer e sim, mais superficiais. O quanto a mais você descobre do seu mundo se emojis darem lugar a pensamentos complexos e à observação daquilo que nos rodeia?

Arcade Fire – Everything Now (2017)

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Existe certo consenso de que uma opinião só deveria ser emitida após o conhecimento do objeto de estudo. Compartilhando dessa ideia, ouvir o novo álbum do Arcade Fire, intitulado Everything Now, nas suas 10 faixas foi uma grande, mas não tão agradável, surpresa. Após quase 4 anos de Reflektor, Everything Now traz a nova fase do Arcade Fire. Quem já escuta a banda há algum tempo sabe bem que cada lançamento deles é (aos moldes do seu principal mentor, David Bowie) uma realização, isto é, vem com uma temática distinta das anteriores, é precedida por certo hype e acompanhada por mudanças não somente na sonoridade, mas até no figurino, cenário dos shows e instrumentos usados pela banda ou modo de se portar em entrevistas.

Nesta jornada de descobertas dos canadentes Everything Now é a fase dance da banda. Ainda que a execução do Arcade Fire seja, na minha opinião, mais equilibrada que outras desastrosas tentativas neste caminho (por exemplo, Jake Bugg, Kasabian e Franz Ferdinand) o som deste álbum é muito ingênuo no seu otimismo sem conteúdo, ainda mais para quem se acostumou com Funeral ou Suburbs (outros álbuns deles), que além da sonoridade mais intimista tratou de temas universais como a nostalgia da felicidade na infância e as escolhas que fizemos e seus impactos para uma vida toda.

Mas não está no ritmo – até certo ponto banal para uma banda que sempre inovou (em certos momentos deste novo álbum lembramos mais de ABBA ou Shania Twain que do Arcade Fire) –  a razão que faz deste disco uma obra dispensável: atrás de toda a preocupação por “fazer algo diferente”, de causar impacto no mundo com um ritmo quase que motivacional inserido num contexto mundial de instabilidade política, o Arcade Fire se esqueceu da sua maior qualidade: as letras que sustentavam sua ideologia. Everything Now é, em última análise, uma obra vazia de letras desconexas (se não fosse pela melodia semelhante nem seria possível dizer que eram do mesmo disco). Um experimento que atrás de toda a pesada maquiagem ideológica e de distorções eletrônicas é esquecido por quem escuta em pouco tempo.

Red Hot Chili Peppers – The Getaway (2016)

Enquanto o mundo ou fala do processo de impeachment brasileiro ou do Pokemon Go ou do novo disco do Frank Ocean, com um belo atraso ouvi o novo disco do Red Hot Chili Peppers, The Getaway, já disponível em serviços de streaming, como o Spotify.

Na verdade, o quanto mais longo você encontrar/ler uma resenha sobre o disco, maior perda de tempo será (para o leitor e para quem escreveu). Certamente. Pois não há muito o que dizer depois de 13 músicas e 53 minutos. E isto sequer é uma crítica ou elogio.

Consiste num trabalho maduro, centrado e que mostra um Anthony Kiedis que “aceitou” o lugar dos Peppers (e isso se assemelha muito a Dave Grohl e o Foo Fighters atual): letra e ritmo invocam a melhor fase da banda, mas não saem de um “lugar comum” de criação ou inovação. Perfeito para quem é fã. Para quem não é assim tão ligado a trajetória da banda, sobressaem-se alguns bons singles mas ouvir o disco inteiro, sem pausas, causará uma náusea de uma grande música de quase uma hora, que anda em círculos, com alguns pontos brilhantes.

Os melhores discos de 2013 – A lista

Pra ser sincero, listas de final de ano sempre tentam em alguns caracteres resumir tudo o que aconteceu no ano em determinada categoria/segmento. Obviamente, injustiças são cometidas devido a necessidade/limitações do poder de síntese de cada um.

No quesito música, esse post quer discutir e lhe trazer a pergunta: qual foi (ou, foram) o melhor disco do ano? Para mim, embora a resposta não tenha sido fácil, foi oportuna a reflexão sobre o que aconteceu no ano e elaborar a lista do TOP 5 (que poderia ser top 10, 20 ou 30, tranquilamente) dos disco de 2013:

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5º – …Like Clockwork de Queens of Stone Age

A lista do top 5 inicia pelo Queens of Stone Age (ficaram de fora outras tantas opções, com menções honrosas ao Daft Punk, Palma Violet, Boards of Canada, Peace e os estreantes do Disclosure), mas a banda norte-americana do Queens of… (QOTSA) se sobressaiu, pois manteve uma impressionante consistência em todas as faixas dos disco (para mim, o melhor da banda). Com colaborações de Dave Grohl, Elton John e Trent Reznor, as canções são uma leitura excelente do que pode ser o grunge de hoje, sem modismos ou preso na nostalgia dos anos 1990, com um significado próprio, uma ode ao bom rock ‘n roll.

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4º – The Next Day de David Bowie

A volta do ícone das décadas 80 e 90, David Bowie, talvez tenha sido o acontecimento musical do ano. Dado como doente e recluso pela mídia, eis que Bowie lança um álbum de inéditas quase 20 anos depois das suas últimas composições. Mas, o que aconteceu com o roqueiro nesses anos? Se procurarmos respostas nas suas canções de The Next Day, saberemos que a jovialidade (de Starman, por exemplo) se foi, mas o que ficou foi um artista ainda questionador sobre seu papel no mundo e qual o seu impacto na vida dos demais. Quase  um disco biográfico, que faz um  balanço das conquistas, o disco começa alegre e vai se tornando introspectivo, omitindo refrões ou rimas fáceis.

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3º – AM do Arctic Monkeys

Para os que acreditavam que o destino do Arctic Monkeys estava fadado às coleções “Greatest Hits” (eu inclusive), o disco AM de 2013, mostrou o poder de inovação que a banda ainda esconde. Especialmente na primeira metade do álbum, o grupo converge uma energia única no segmento rock, com melodias empolgantes como R U Mine e Do you wanna know?, imbatíveis tanto para transformar qualquer ambiente numa festa. Embora a segunda metade do disco quase coloque tudo a perder, na soma das virtudes, a qualidade e a representatividade do disco se sobressaem.

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2º – Reflektor  do Arcade Fire

Sempre ousado, o grupo canadense desta vez traz um disco rodeado de temas políticos (especialmente a miséria e condições econômicas do Haiti e América Central), distanciando-se do tom mais jovial e alegre que seu trabalho anterior, de 2009, apresentou. Em Reflektor, a banda apresenta sua maturidade musical, combinando questões existenciais (a vida após a morte?) e ritmos envolventes. É acima de tudo, uma obra bem montada, um disco que tem evolução clara e que desempenha um papel fundamental na musica contemporânea.

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1º – Modern Vampires of the City do Vampire Weekend

Assim como o disco Is this it (2001), do Strokes, que marcou a década que se iniciava, o disco do Vampire Weekend (2013) dita a personalidade da música para, no mínimo, 5 cinco anos. E não se limita ao estilo rock. Neste álbum do Vampire Weekend, a banda encontra um aspecto humano nas suas letras e melodias, raro na cena musical atual. Oscilando composições aceleradas e canções despretensiosas, este é o álbum que melhor caracteriza o ano e a sociedade em que vivemos. Apesar deste discurso altamente filosófico, o disco consegue ser (além de tudo) uma alegre combinação para um dia depressivo.

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* E então, você concorda com a lista ou tem preferências diferentes?

** Notaram a ausência de discos nacionais? Pois então, eu também.