Oeste Outra Vez (2024)

Se fosse para resumir este post em uma frase, somente um “vá e veja!” seria suficiente.

É este o sentimento que Oeste Outra Vez, filme nacional de Erico Rassi, estrelado por Ângelo Antonio, Rodger Rogério e Babu Santana, me causou. Disponível no catálogo do Telecine para quem perdeu o privilégio de ver na tela grande, Oeste Outra Vez tem o potencial de agradar um distinto grupo de espectadores e de muitas formas diferentes.

O filme tem a genialidade de soar perfeito para um momento de entretenimento, o passar do tempo com qualidade e contentamento, de rir do ritual de sempre ter limão quando se bebe cachaça ou dos temidos e alardeados pistoleiros do agreste que não conseguem acertar o alvo de primeira nunca, o ritmo é leve e a sensação de não ver o filme passar é um grande elogio ao trabalho de Rassi. Além disso, a identificação de costumes, valores e locais tão brasileiros e enraizados na nossa cultura um filme de western norte americano nunca mostrará – é formidável ver os restaurantes de “beira de estrada”, os bares improvisados em casas nas cidades de interior e a resistência de comunidades em manter tradições sociais.

Somente isso faria do filme uma obrigatória indicação de 2h bem vividas, mas é através de sutilezas, da câmera que mais do que filme, contempla as excepcionais atuações e interações entre os personagens de Ângelo e Rodger que o filme se transforma numa belíssima obra de filosofia e sociologia contemporâneas. Temas como a aridez que os homens sustentam nas suas vidas e relacionamentos e como ele é frágil e está prestes a ruir em cada desabafo, o orgulho, o papel das mulheres na sociedade patriarcal e as consequências de uma vida sem propósito fazem que o filme não termine nos créditos finais, mas continue ressoando na nossa mente.

Vá e veja.

Gladiador 2 – Vale a pena ouvir Enya de novo?

Quando um filme combina aprovação de crítica e sucesso de público é justo parar e entender os motivos que o levaram a essa posição geralmente tão almejada além, é claro, de apreciá-lo. Assim é Gladiador do ano 2000, dirigido e produzido por Ridley Scott. Vinte e quatro anos depois, a sequência encabeçada pelo mesmo diretor dificilmente conseguirá um ou outro feito (crítica e público) e tem diversos motivos para isso.

No filme deste ano, Paul Mescal (excelente em Aftersun) é o novo gladiador e protagonista, que ganha de presente um roteiro e direção que o faz querer repetir muito de Russel Crowe do primeiro filme: de querer se mostrar mais introspectivo (mas aí por 3 vezes faz um discurso longo começando com frases do tipo “não sou de falar muito…”), de carregar trauma e mágoas que precisam de vingança, para então a vontade de vingar simplesmente desaparecer sem um desenvolvimento adequado. Por tudo isso, a atuação do gladiador não empolga. A mesma percepção se aplica ao cast principal, mesmo que Denzel Washington tenha tempo em tela para usar sua oratória e atuação em bons monólogos, é muito torpe sequer acreditar na velocidade que a personagem dele chega ao topo da hierarquia política do maior império da Terra.

Há uma corrente da crítica que despreza as liberdades poéticas de Ridley Scott frente a história real, mas sob esse aspecto, na minha opinião, o cinema pode ser soberano se souber usar variações para a História – do Coliseu com tubarões aos dois imperadores dividindo trono – mas são em outras partes da história que o filme se perde, como por exemplo, a legião de 5.000 pessoas do exército mais poderoso do mundo que não soube que seu general – a quem são fieis – foi assassinado a não ser que ume mensageiro mandando dias e dias depois vai a cavalo contar.

Na maior parte do filme – em especial na metade final – tem-se a impressão de que a obra é o resultado da direção e roteiro de um estudante afoito sem saber o que fazer mas que tem lembrança e carinho pelas coisas boas do filme de 2000. Assim, Gladiador 2 funciona como um fan service pesado, que ao beber dessa fonte consegue fazer um primeiro ato muito bom ao introduzir os personagens e os contextos da Roma naquele momento (16 anos após a trama do primeiro filme), mas que não tem habilidade para desenvolver uma história que superficialmente tenta ser complexa (a deposição de imperadores, traição, revolta popular, descendência plebeia mas com sangue “real”) e quando se vê perdido tenta recorrer a um atalho: se aproveitar de elementos do primeiro filme. As personagens principais mudam de opinião sobre as coisas mais importantes de uma cena para outra apenas porque é mais conveniente para história. Outro ponto a se destacar é a vida de todos que parece tão descartável onde todo mundo morre (mais que nos episódios mais sangrentos de Game of Thrones) e, com isso, é difícil criar vínculo ou sensação que as personagens são importantes para a história.

Em suma, o mais indignante deste filme é que mesmo com todos seus percalços e falhas de concepção e direção, o tema e a clássica história da jornada de herói personificada num gladiador que luta num Coliseu cheio de romanos e mexe com o poder do império continua tendo elementos que fascinam, que fazem querer ver um filme deste tamanho no cinema, mas que a entrega disso tudo seja preguiçosa e cheia de atalhos – o final usando a música de Enya é a cereja do bolo.

8 Mile – Rua das Ilusões

Embalado pela descoberta do novo álbum de estúdio de Eminem (The Death of Slim Shady – Coup de Grâce) e fascinado pela qualidade de rimas, letras e melodias que o artista ainda encontra, mais de 20 anos desde sua fama mundial, fui reparar uma dívida cinematográfica antiga: assistir a 8 Mile – Rua das Ilusões, o filme ficcional mas ainda assim autobiográfico do início da carreira de Marshall Bruce Mathers III, o Eminem, lançado em 2002. Se já o conhecemos pelo que as letras de suas músicas revelam, da sua relação conturbada com a mãe, com a ex mulher e depois com a filha, o filme é uma surpresa em diversas circunstâncias.

A primeira delas é a delimitação da trama, que ocorre em um ritmo muito bom e abrange pouco mais de uma semana da vida do rapper Jimmy Rabbit. No entanto, o roteiro parece ser feito para elevar a classificação etária do filme, deixando de lado aspectos mais sombrios que o próprio Eminem canta em suas letras. A violência e as drogas, por exemplo, passam mais taciturnas no filme. Além disso, a escolha de ser focado num período de anonimato do jovem que sabia rimar e tinha sonho de gravar uma demo para mostrar a uma gravadora é curiosa no seu final, que embora seja “feliz” evita um clichê de já mostrar o estrelato do rapper, evidenciando que mesmo tendo ganhado uma pequena competição de rimas na sua cidade ainda teria muitos desafios pela frente, sendo o primeiro voltar para o trabalho numa indústria ainda naquela noite.

O filme embora tenha pequenos problemas de direção, na minha opinião, se sobressai especialmente pela sua melhor qualidade: as atuações. Do próprio Eminem a todos amigos e rivais de batalha rap, há uma coesão e brilhantismo em atuações que não precisam serem espalhafatosas para serem marcantes e poderosas.

Para encerrar um post sobre um filme que fala de música: Lose Yourself, a composição que deu o Oscar ao Eminem em 2003, mas cuja apresentação que aconteceu apenas na cerimônia de 2020:

Deadpool & Wolverine – Take it easy

Na mais recente investida Marvel nos cinemas, vemos pela primeira vez a inserção de personagem dos X-Men no enredo dos heróis Marvel, o MCU. Deadpool chega a sua terceira aparição cinematográfica, sempre protagonizada por Ryan Reynolds mas desta vez dirigida por Shawn Levy, agarrando-se mais do que nunca na busca da “quebra da quarta” parede, isto é, na interação direta com o espectador, com olhares para câmera, muitas piadas internas sobre o próprio universo Marvel e autodepreciação sobre os rumos das franquias. Trata-se do maior exemplo do chamado fan service da década nos cinemas, com busca por querer agradar, ser descolado e sagaz, ao extremo. A forma se sobressai ao conteúdo, e muito! A esta conclusão, somente se frustrará quem não assistiu as versões anteriores de Deadpool ou esteve ausente do mundo hollywoodiano de filmes dos últimos 15 anos, pois o filme de 2024 entrega o que a maioria foi buscar nele. Porém, na minha opinião, há um sentimento bem efêmero do filme – e a produção dele está comprometida com isso – uma ida ao cinema para se “desligar do mundo” e ouvir ironias que não afetam o seu cotidiano, os seus problemas.

Enquanto Ryan Reynolds repete os mesmos trejeitos e incessantemente tenta emplacar alguma piada que ecoe, esta abordagem funciona no primeiro terço do filme, mas há um cansaço que ela traz nas partes finais. E este cansaço é felizmente contrabalanceado por uma bela atuação de Hugh Jackman, novamente no seu papel mais famoso nos cinemas, o Wolverine. Porém, ainda que rabugento, mas solto e igualmente competente em elevar a trama. Há de se destacar a massiva utilização de músicas “anos 90” e como elas contribuem positivamente para sequências coreografadas de lutas. Quem diria que N’Sync combinaria tanto com matança? Not me.

Neste combinado de argumentos, o filme satisfaz mais a quem conhece as histórias dos filmes Marvel/X-Men (e até Homem Aranha no seu Spiderverse), um preço talvez alto demais para entender bem as piadas feitas, mas se aceitar ser pago, tem seu valor (gostei especialmente da piada sobre tentarem acabar com Wolverine no passado e não conseguirem, citando Mangold no filme – p.s.: James Mangold é o diretor de Logan, em que o personagem de Hugh Jackman morre).

Afora a interação dos 2 protagonistas no filme e o senso de humor lapidado, sobra muito pouco a ser relevante. Pelo contrário inclusive, o roteiro é preguiçoso ao extremo para apenas criar plots de piadas e a construção da vilã do filme, personagem de Emma Corrin (Cassandra) é vazio, como o mundo em que ela habita e governa.

Em suma, há uma nostalgia de fan services que o cinema fazia mais nos idos do final do século passado (me lembrou muito de Todo Mundo em Pânico) sendo Deadpool & Wolverine o completo exemplo de falta de conteúdo compensado com apreço pela forma. Jogar no modo “easy”. Nem sempre isso é ruim. Às vezes é o que precisamos.

Dose dupla: Clube dos Vândalos e Furiosa

Dois grandes e aguardados filmes, por motivos distintos, chegaram aos cinemas e streamings nesse ano. Embora tenham temáticas diferentes, tem mais semelhanças de resultado que seus idealizadores imaginaram.

O primeiro, Clube dos Vândalos (Bikeriders) é a versão cinematográfica de uma história do final da década de 60 que um repórter fotográfico acompanhou em Chicago: do início a decadência de um dos mais tradicionais grupos de motociclistas dos Estados Unidos, unificando em pouco mais de 120 minutos todo o estereótipo de motociclistas que Hollywood já incutiu em nossas mentes – grupo de homens, transgressores, sem preocupação com rotina.

Clube dos Vândalos é dirigido por Jeff Nichols, um diretor que no início de sua carreira trouxe gemas preciosas como Amor Bandido (Mud) e O Abrigo (Take Shelter) carregando em seu estilo uma competência em mostrar sensibilidade como pano de fundo que amarra histórias de sucessão de grandes acontecimentos e feitos, mas cujos últimos filmes caíram num sentimento de preguiça, de deixar a história “correr solta” e não ser coesa.

Neste mais recente trabalho, Nichols segue, infelizmente a linha dos seus últimos filmes. Consegue a proeza de reunir um elenco talentoso, como Tom Hardy, Austin Butler e Michael Shannon e entregar um filme medíocre, pois é visível que a história podia (e pedia) mais, mas que parou e não fluiu pelas mãos do diretor. Argumentos e desconexos, falta de foco na história ao não decidir quem é o protagonista contribuem para que ela seja desinteressante. Se isso se deve a qualidade do material original (fotografias e entrevistas da época) não sabemos, mas o cinema pressupõe que a história precisa saber aonde quer chegar.

Já o novo capítulo da franquia Mad Max, intitulado Furiosa, nome da teoricamente protagonista do filme falha em algo parecido com o supracitado Clube dos Vândalos. Furiosa chegou aos cinemas com uma grande expectativa após o sucesso (de crítica e bilheterias) de Estrada da Fúria de 2015. Na obra de 2024, também dirigida por George Miller, o que menos enxergamos é o protagonismo de Furiosa, interpretada por uma esforçada  Anya Taylor-Joy, pois após um prólogo bem estruturado com uma duração maior que deveria, a personagem principal é alçada a um status de coadjuvante  que destoa pontualmente em situações de perigo, mas que o grande condutor da história é o grande tempo de tela que o diretor investe em querer explicar as relações de poder daquele universo de distopia, quem controla o quê, como é feito o comércio. Chega-se num ponto que parece estarmos sendo apresentados mais a uma análise de macroeconomia do “Mundo Mad Max” que de uma história de construção de personagem e empoderamento feminino (sim, não é possível esquecer da brilhante performance de no filme de Charlize Theron como Furiosa, já adulta, no filme de 2015 e sua contribuição em trazer à mesa a valorização do protagonismo feminino).

No apagar das luzes e créditos finais, ambos os filmes parecem uma centelha do que poderia ter sido com outros rumos de suas direções.

Divertidamente 2: O casamento entre Cinema e Psicologia?

Uma das minhas obras de animação favoritas de todos os tempos, Divertidamente (Inside Out) de 2015 é o marco definitivo da Pixar, seu auge em combinar num mesmo filme uma narrativa que agrada e fascina crianças e, ao mesmo tempo mergulhar em teses psicológicas densas com uma série de gatilhos para trazer estas à realidade de cada um. Passados 9 anos, o diretor Pete Docter assume a produção da continuação com a direção de Kelsey Mann (conhecido pelas animações O Bom Dinossauro, Lightyear e Red) para tratar da adolescência da protagonista Riley e o que se passa em seu cérebro.

E é nesse contexto que reside o maior demérito do filme. Enquanto no primeiro volume de 2015 o plot se ambientava na mudança de cidade da protagonista Riley e sua complexidade natural (amigos, escola, raízes) que ia além da sua vida e atingia a de seus pais trazendo abrangência para que as emoções básicas (Alegria, Tristeza, Raiva e Aversão/Nojo) usassem os melhores momentos para aparecer, nesta continuação a trama é muito específica e se baseia na aceitação de Riley em uma nova equipe de hóquei no gelo e a separação de duas amigas que mal são desenvolvidas como personagens. No meio disso, o início da adolescência e puberdade trazem novas emoções (Ansiedade, Inveja, Tédio, Vergonha e, de relance, a Nostalgia). A Alegria (dublada por Amy Poehler) rivaliza com a Ansiedade (esta, dublada por Maya Hawke) como a emoção dominante e controladora e este duelo, a dualidade ocupa a maior parte do filme e o aprisiona de explorar o mundo “cérebro da Riley”, um grande trunfo do primeiro filme.

No entanto, Divertidamente 2 continua a mexer com nossas emoções, e a carga quase didática da transição das emoções na entrada da adolescência continua sendo excepcional, digno de nota. Quão importante é enxergamos momentos de Ansiedade na nossa vida? As memórias se somando e virando convicções, você já pensou nas convicções que carrega para vide, de onde vieram? E, talvez, a “mensagem do filme” continuando ecoando algo introduzido na obra de 2015: todas emoções e memórias são importantes (no primeiro volume, “aprendemos” que a Tristeza é fundamental para a vida), no momento que queremos “esconder” algo no cérebro (uma analogia, bem apresentada) a vida se torna desordem, desiquilíbrio. Aliado a isso, a transformação de uma memória de curto para longo prazo ocorre devido às emoções; afinal, um dia rotineiro tem muito mais chance de ser esquecido que o dia que acontece algo emocionante na vida de cada um.

Assim, Divertidamente 2 é um casamento incompleto entre a Psicologia que vai a fundo nas emoções e a universaliza, compactuando muitos pontos com os espectadores e o Cinema, que peca na escolha da narrativa e ritmo.

Para uma continuação na conversa neurocientífica da obra, recomendo a análise do psicólogo Eslen Delanogare (https://www.instagram.com/p/C8j2Gv7uKXk/)

Os melhores filmes de 2022 – A lista

O ano de 2022 transita para o mundo do cinema como uma vasta rede de experimentos nos filmes que despontam com maior apelo para este espectador. Se a onda de super heróis parece ter atingido seu apogeu e estar em leve queda, abre-se de volta o espaço para novos (ou apenas “atualizados”) experimentos ou mercados, de um filme sul coreano que deve ser grande vencedor do Oscar (quem poderia apostar nisso antes de Parasita abrir caminho?) a outros que tinham tudo para transitar apenas em círculos cult mas que atraem grande público (“Triângulo da Tristeza” e “Aftersun”, por exemplo). No entanto, infelizmente ainda premiações deixam alguns gêneros de fora (“Não! Não Olhe!” é o melhor exemplo), mas o mercado dos distintos serviços de streaming reduz e quase anulo a validação advinda de estatuetas e prêmios. Os meus filmes preferidos de 2022 (lista abaixo), tem algo em comum: são marcados pelo desafio de contar algo novo ou de contar algo conhecido mas com um novo olhar.

10 – Living, de Oliver Hermanus

9 – Navalny, de Daniel Roher (Disponível na HBO Max)

8 – Os Fabelmans, de Steven Spielberg

7 – Nada Novo no Front (All Quiet on the Western Front), de Edward Berger (Disponível na Netflix)

6 – Marcel the Shell with Shoes On, de Dean Fleischer-Camp

5 – Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness), de Ruben Östlund (Disponível no Prime Video)

4 – Os Banshees of Inisherin, de Martin McDonagh

3 – EO, de Jerzy Skolimowski – um burro sem falas, mas mais expressivo na sua jornada que boa parte dos filmes. Sob seu olhar vemos o mundo e nos vemos também.

2 – Não! Não Olhe! (Nope), de Jordan Peele – reciclar e renovar gêneros como suspense e ficção científica sem esquecer de que acima de todas as inovações tecnológicas que cinema de 2022 pode trazer, uma boa história ainda é o mais importante. É “só isso” que Jordan Peele consegue fazer, mais uma vez, brilhantemente.

1 – Aftersun, de Charlotte Wells – (Disponível no Mubi) – um pai e uma filha em uma curta viagem de verão. Qual o impacto desses preciosos momentos na vida da filha? Como se constroem as memórias? E, mais do que tudo, elas são reais? (P.S.: recomendo a leitura da crítica do Pablo Villaça)

Um resumo dos melhores:

  • Melhor Filme: Aftersun
  • Melhor Diretor: Charlotte Wells  em Aftsersun
  • Melhor Ator: Paul Mescal em Aftersun
  • Melhor Atriz:  Cate Blanchett em Tár
  • Melhor Ator Coadjuvante: Anthony Hopkins em Armageddon Time
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Angela Bassett em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
  • Melhor roteiro: The Fabelmans
  • Melhor montagem: Elvis
  • Melhor trilha sonora: All Quiet on the Western Front
  • Melhor Fotografia: Nope
  • Filmes mais superestimados: Everything Everywhere All At Once, Tár, RRR
  • Piores filmes do ano: Morbius, Blonde, White Noise

Carta para você, Bruce Springsteen

Neste ano existem oportunidades de falar, pensar e demonstrar que diferem de tudo que a geração que anda sobre este planeta já presenciou. A causa – a pandemia – é uma terrível marca de 2020, mas não há outro movimento, senão o artístico que nos faz pensar de forma mais eficiente sobre o que acontece “lá fora” e “aqui dentro”. Neste contexto oportuno, o veterano Bruce Springsteen, ou The Boss para os fãs, lança seu novo trabalho, Letter to You, em 12 canções inéditas e 58 minutos, mostrando-se mais conectado ao mundo e a temas atemporais do que nunca. Além disso, traz seu exuberante tom de voz, ainda preciso e afinado, mesmo com 50 anos de carreira, construindo uma obra das mais completas e profundas na sua carreira.

Letter to You alterna entre baladas de rock com letras sensíveis a crônicas e devaneios organizados em prosa cantada, sendo a música que dá título ao álbum a de maior potencial a virar single, de ouvirmos em trilhas sonoras de filmes e séries. Mas não é somente nisso que se destaca e merece atenção: assim como outras canções do disco (Rainmaker, Song for Orphans), Letter to you – cujo trecho inicial compartilho abaixo – é uma declaração humilde e sensação de uma varredura pelo coração daquele que aparentemente tem um tom de voz arrogante.

Uma ode à reflexão, a encontrar sentido nos momentos mais conturbados na vida – íntima ou da sociedade, este álbum é um remédio que talvez nem sabíamos que precisávamos. Numa livre associação a metáfora mais acurada é a de que é como um whisky 18 anos servido com gelo: a qualidade e toda a “bagagem” estão lá, poucos chegam nesse nível; porém, há uma suavidade poética no meio de toda energia e amargor, digna de querer repetir a dose.

A Felicidade Não Se Compra: o individualismo e a liquidez do mundo

O clássico filme de 1946 de Frank Capra A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life) continua vivo e atual, mais do que nunca nas manifestações da nossa cultura em referencia-lo como um filme obrigatório para época natalina. No entanto, sua atualidade vai além: seus temas centrais, como o individualismo, a vontade de ser mestre do seu destino (representada no frustrado ideal de vida do protagonista) se tornou mais forte desde que o filme foi lançado. Passaram-se as grandes guerras armadas para o “mundo ocidental” e restou o consumo e a falsa sensação de que tudo o que fazemos ou deixamos de fazer é nosso mérito individual, exacerbando um estado de liquidez. Com um aditivo mais recente chamado redes sociais temos um estado caótico muito bem explicado no vídeo do excelente canal Like Stories of Old, intitulado “O Antídoto final ao Cinismo”. Vale (e muito) os 14 minutos – legendado:

Os melhores discos de 2018

Wow! What a year!

Se ano passado a tarefa de elencar os melhores discos foi árdua (você lê nesse post aqui a lista de 2017), nesse ano a pretensão de resumir o ano em 5 álbuns foi pro espaço ainda no primeiro trimestre e o top5 virou top10 e, na vontade de não deixar tantos bons trabalhos de fora, virou top15.

Eis os meus discos preferidos de 2018:

15 – Soccer Mommy, Clean

14 – Jorja Smith, Lost and Found

13 – Spiritualized, And Nothing Hurt

12 – Robyn, Honey

11 – Janelle Monae, Dirty Computer

10 – Kurt Vile, Bottle it in

9 – Kali Uchis, Isolation

8 – Camila Cabello, Camila

7 – Courtney Barnett, Tell me How you Really Feel

6 – Paul McCartney, Egypt Station

5 – Arctic Monkeys, Tranquility Base Hotel & Casino

4 – The Internet, Hive Mind

3 – Mitski, Be the Cowboy

2 – Fantastic Negrito, Please don’t be dead

1 – Pusha T, Daytona