Deadpool & Wolverine – Take it easy

Na mais recente investida Marvel nos cinemas, vemos pela primeira vez a inserção de personagem dos X-Men no enredo dos heróis Marvel, o MCU. Deadpool chega a sua terceira aparição cinematográfica, sempre protagonizada por Ryan Reynolds mas desta vez dirigida por Shawn Levy, agarrando-se mais do que nunca na busca da “quebra da quarta” parede, isto é, na interação direta com o espectador, com olhares para câmera, muitas piadas internas sobre o próprio universo Marvel e autodepreciação sobre os rumos das franquias. Trata-se do maior exemplo do chamado fan service da década nos cinemas, com busca por querer agradar, ser descolado e sagaz, ao extremo. A forma se sobressai ao conteúdo, e muito! A esta conclusão, somente se frustrará quem não assistiu as versões anteriores de Deadpool ou esteve ausente do mundo hollywoodiano de filmes dos últimos 15 anos, pois o filme de 2024 entrega o que a maioria foi buscar nele. Porém, na minha opinião, há um sentimento bem efêmero do filme – e a produção dele está comprometida com isso – uma ida ao cinema para se “desligar do mundo” e ouvir ironias que não afetam o seu cotidiano, os seus problemas.

Enquanto Ryan Reynolds repete os mesmos trejeitos e incessantemente tenta emplacar alguma piada que ecoe, esta abordagem funciona no primeiro terço do filme, mas há um cansaço que ela traz nas partes finais. E este cansaço é felizmente contrabalanceado por uma bela atuação de Hugh Jackman, novamente no seu papel mais famoso nos cinemas, o Wolverine. Porém, ainda que rabugento, mas solto e igualmente competente em elevar a trama. Há de se destacar a massiva utilização de músicas “anos 90” e como elas contribuem positivamente para sequências coreografadas de lutas. Quem diria que N’Sync combinaria tanto com matança? Not me.

Neste combinado de argumentos, o filme satisfaz mais a quem conhece as histórias dos filmes Marvel/X-Men (e até Homem Aranha no seu Spiderverse), um preço talvez alto demais para entender bem as piadas feitas, mas se aceitar ser pago, tem seu valor (gostei especialmente da piada sobre tentarem acabar com Wolverine no passado e não conseguirem, citando Mangold no filme – p.s.: James Mangold é o diretor de Logan, em que o personagem de Hugh Jackman morre).

Afora a interação dos 2 protagonistas no filme e o senso de humor lapidado, sobra muito pouco a ser relevante. Pelo contrário inclusive, o roteiro é preguiçoso ao extremo para apenas criar plots de piadas e a construção da vilã do filme, personagem de Emma Corrin (Cassandra) é vazio, como o mundo em que ela habita e governa.

Em suma, há uma nostalgia de fan services que o cinema fazia mais nos idos do final do século passado (me lembrou muito de Todo Mundo em Pânico) sendo Deadpool & Wolverine o completo exemplo de falta de conteúdo compensado com apreço pela forma. Jogar no modo “easy”. Nem sempre isso é ruim. Às vezes é o que precisamos.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016)

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Princípios básicos para uma crítica sobre Até o Último Homem: a análise é sobre o filme, em seus 139 minutos e nunca diretamente sobre as declarações, polêmicas e personalidade de Mel Gibson, seu diretor. Parece óbvio, mas até mesmo grandes veículos de comunicação fazem questão de falar de tudo menos sobre cinema.

Dito isso, Até o Último Homem (Hacksaw Ridge) é uma das melhores coisas nessa chamada “Corrida do Ouro”, expressão em referência aos prêmios da temporada (Oscar, PGA, DGA, associações de críticos, entre outras). O drama protagonizado por Andrew Garfield em, enfim, uma grande atuação desde A Rede Social, é bem dividido em 3 atos principais: a infância e adolescência do jovem Desmond Doss na Virginia da década de 30, o alistamento militar e o treinamento de guerra em solo norte-americano, e as batalhas da Segunda Guerra Mundial no Japão, mais especificamente na Serra de Hacksaw, que dá título ao filme. Esta estrutura muito bem montada e ritmada por Gibson e seus montadores me lembrou, com grande alegria, de Nascido para Matar (Full Metal Jacket) o clássico de guerra de Kubrik.

O mote do filme, que une suas 3 partes é a convicção pacifista de Desmond Doss, que recusa praticar a violência. Então, já no primeiro ato do filme descobrimos as motivações para esse comportamento moral do personagem vivido por Garfield. Mas, além disso, merece  destaque o romance do protagonista com a personagem de Teresa Palmer, que em poucos minutos de diálogos traz encantamento maior que a trama romântica inteira de La La Land – Cantando Estações.

O grande conflito do filme começa com a recusa de Desmond em portar/manusear qualquer arma em frente a todo batalhão de infantaria. O ambiente fortemente hierárquico do Exército e extremamente nervoso após o ataque a Pearl Harbor pressiona e pune Desmond a ponto de quase o fazer desistir da sua vontade de ir à guerra para ajudar, nunca para matar. Nesse arco dramático vemos dois atores de carreiras completamente distintas com atuações muito boas: Vince Vaughn aproveitando sua habilidade em comédia para interpretar o sargento responsável pela turma de recrutas e o retorno de Hugo Weaving a um papel de destaque.

Vencidas as barreiras de crenças e fé, somos transportados ao Japão e é seguro afirmar que já nos primeiros momentos de batalha temos as melhores cenas de guerra desde O Resgate do Soldado Ryan. As tomadas são ágeis, a edição de som e mixagem são impecáveis e Mel Gibson não tem receio em mostrar cenas mais sórdidas que uma guerra causa sobre as almas, vidas e corpos (em geral, dilacerados). Assim, o filme que começa calmo sob a tranquilidade de um dia de verão na Virginia vai crescendo em ambição com uma força carismática de Andrew Garfield e firmeza na direção de Mel Gibson até seus momentos finais, o êxtase da destruição, sombria e nefasta, mas real.

Até o Último Homem é apontado por muitos como uma obra de demagogia e acusado por romantizar o campo de batalha numa guerra. Discordo parcialmente dessas ponderações, pois a história de Desmond Doss, embora com cara de um belo trabalho de ficção é fidedigna, sendo ele, o soldado na vida real, responsável por salvar mais de 70 outros soldados e o primeiro pacifista a ganhar a Medalha de Honra do governo dos EUA, maior condecoração militar do país. No entanto, a atmosfera envolvente da aura de bom moço de Desmond, dada graças ao modo gentil, calmo e risonho de Garfield realmente contribui para que os horrores da guerra sejam minimizados nas cenas que Desmond ajuda seus amigos. Por fim, este detalhe não apaga todos os méritos deste que, para mim, é um dos melhores filmes do ano e, sem dúvida, da temática bélica.