Carta para você, Bruce Springsteen

Neste ano existem oportunidades de falar, pensar e demonstrar que diferem de tudo que a geração que anda sobre este planeta já presenciou. A causa – a pandemia – é uma terrível marca de 2020, mas não há outro movimento, senão o artístico que nos faz pensar de forma mais eficiente sobre o que acontece “lá fora” e “aqui dentro”. Neste contexto oportuno, o veterano Bruce Springsteen, ou The Boss para os fãs, lança seu novo trabalho, Letter to You, em 12 canções inéditas e 58 minutos, mostrando-se mais conectado ao mundo e a temas atemporais do que nunca. Além disso, traz seu exuberante tom de voz, ainda preciso e afinado, mesmo com 50 anos de carreira, construindo uma obra das mais completas e profundas na sua carreira.

Letter to You alterna entre baladas de rock com letras sensíveis a crônicas e devaneios organizados em prosa cantada, sendo a música que dá título ao álbum a de maior potencial a virar single, de ouvirmos em trilhas sonoras de filmes e séries. Mas não é somente nisso que se destaca e merece atenção: assim como outras canções do disco (Rainmaker, Song for Orphans), Letter to you – cujo trecho inicial compartilho abaixo – é uma declaração humilde e sensação de uma varredura pelo coração daquele que aparentemente tem um tom de voz arrogante.

Uma ode à reflexão, a encontrar sentido nos momentos mais conturbados na vida – íntima ou da sociedade, este álbum é um remédio que talvez nem sabíamos que precisávamos. Numa livre associação a metáfora mais acurada é a de que é como um whisky 18 anos servido com gelo: a qualidade e toda a “bagagem” estão lá, poucos chegam nesse nível; porém, há uma suavidade poética no meio de toda energia e amargor, digna de querer repetir a dose.