La Notte (1961): o silêncio das relações e o eco da modernidade

Poucos filmes conseguem traduzir de forma tão profunda e sensível as transformações de uma sociedade quanto La Notte, dirigido por Michelangelo Antonioni. Lançado em 1961, esse clássico do cinema italiano é uma verdadeira ponte entre o neorealismo do pós-guerra e o surgimento de uma nova linguagem cinematográfica mais introspectiva, existencial e modernista.

Ambientado em uma única noite, o filme acompanha um casal — vivido por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau — cuja relação parece se desfazer aos poucos, não por grandes rupturas, mas pelos pequenos silêncios, pelas ausências sutis, pelos gestos não ditos. La Notte é minimalista em sua estrutura narrativa, mas incrivelmente rico nos detalhes técnicos, estéticos e emocionais. A ironia é essa: é um filme de poucas palavras, mas de muitas camadas.

A Itália retratada no filme é uma nação em reconstrução — saindo das ruínas da guerra e mergulhando em uma nova era de desenvolvimento econômico e transformação tecnológica. Essa transição está presente até nas cenas aparentemente simples, como a dos garotos soltando pequenos foguetes, um aceno direto ao clima de Guerra Fria que se instalava no mundo. Antonioni, com sua visão aguçada, faz do cotidiano um espelho da história.

O diretor não se preocupa em entregar respostas prontas. Ao contrário: ele planta dúvidas, convida à reflexão e deixa que o desconforto do espectador se instale. Quando, ao final, o personagem de Mastroianni declara ainda amar sua esposa, tudo o que vimos até ali sugere o oposto. E é exatamente aí que o filme nos provoca: o que dizemos tem mesmo mais peso que o que fazemos? E o quanto das nossas relações está baseado no que silenciamos?

La Notte é, sem exagero, uma obra-prima. Um filme que exige atenção, entrega e sensibilidade.

Infelizmente, encontrar essa joia do cinema italiano pode ser um desafio. O filme não está disponível nas principais plataformas de streaming no Brasil. Encontrei-o apenas no YouTube, com áudio original em italiano e legendas em inglês — link abaixo.

Divertidamente 2: O casamento entre Cinema e Psicologia?

Uma das minhas obras de animação favoritas de todos os tempos, Divertidamente (Inside Out) de 2015 é o marco definitivo da Pixar, seu auge em combinar num mesmo filme uma narrativa que agrada e fascina crianças e, ao mesmo tempo mergulhar em teses psicológicas densas com uma série de gatilhos para trazer estas à realidade de cada um. Passados 9 anos, o diretor Pete Docter assume a produção da continuação com a direção de Kelsey Mann (conhecido pelas animações O Bom Dinossauro, Lightyear e Red) para tratar da adolescência da protagonista Riley e o que se passa em seu cérebro.

E é nesse contexto que reside o maior demérito do filme. Enquanto no primeiro volume de 2015 o plot se ambientava na mudança de cidade da protagonista Riley e sua complexidade natural (amigos, escola, raízes) que ia além da sua vida e atingia a de seus pais trazendo abrangência para que as emoções básicas (Alegria, Tristeza, Raiva e Aversão/Nojo) usassem os melhores momentos para aparecer, nesta continuação a trama é muito específica e se baseia na aceitação de Riley em uma nova equipe de hóquei no gelo e a separação de duas amigas que mal são desenvolvidas como personagens. No meio disso, o início da adolescência e puberdade trazem novas emoções (Ansiedade, Inveja, Tédio, Vergonha e, de relance, a Nostalgia). A Alegria (dublada por Amy Poehler) rivaliza com a Ansiedade (esta, dublada por Maya Hawke) como a emoção dominante e controladora e este duelo, a dualidade ocupa a maior parte do filme e o aprisiona de explorar o mundo “cérebro da Riley”, um grande trunfo do primeiro filme.

No entanto, Divertidamente 2 continua a mexer com nossas emoções, e a carga quase didática da transição das emoções na entrada da adolescência continua sendo excepcional, digno de nota. Quão importante é enxergamos momentos de Ansiedade na nossa vida? As memórias se somando e virando convicções, você já pensou nas convicções que carrega para vide, de onde vieram? E, talvez, a “mensagem do filme” continuando ecoando algo introduzido na obra de 2015: todas emoções e memórias são importantes (no primeiro volume, “aprendemos” que a Tristeza é fundamental para a vida), no momento que queremos “esconder” algo no cérebro (uma analogia, bem apresentada) a vida se torna desordem, desiquilíbrio. Aliado a isso, a transformação de uma memória de curto para longo prazo ocorre devido às emoções; afinal, um dia rotineiro tem muito mais chance de ser esquecido que o dia que acontece algo emocionante na vida de cada um.

Assim, Divertidamente 2 é um casamento incompleto entre a Psicologia que vai a fundo nas emoções e a universaliza, compactuando muitos pontos com os espectadores e o Cinema, que peca na escolha da narrativa e ritmo.

Para uma continuação na conversa neurocientífica da obra, recomendo a análise do psicólogo Eslen Delanogare (https://www.instagram.com/p/C8j2Gv7uKXk/)

Os melhores filmes de 2022 – A lista

O ano de 2022 transita para o mundo do cinema como uma vasta rede de experimentos nos filmes que despontam com maior apelo para este espectador. Se a onda de super heróis parece ter atingido seu apogeu e estar em leve queda, abre-se de volta o espaço para novos (ou apenas “atualizados”) experimentos ou mercados, de um filme sul coreano que deve ser grande vencedor do Oscar (quem poderia apostar nisso antes de Parasita abrir caminho?) a outros que tinham tudo para transitar apenas em círculos cult mas que atraem grande público (“Triângulo da Tristeza” e “Aftersun”, por exemplo). No entanto, infelizmente ainda premiações deixam alguns gêneros de fora (“Não! Não Olhe!” é o melhor exemplo), mas o mercado dos distintos serviços de streaming reduz e quase anulo a validação advinda de estatuetas e prêmios. Os meus filmes preferidos de 2022 (lista abaixo), tem algo em comum: são marcados pelo desafio de contar algo novo ou de contar algo conhecido mas com um novo olhar.

10 – Living, de Oliver Hermanus

9 – Navalny, de Daniel Roher (Disponível na HBO Max)

8 – Os Fabelmans, de Steven Spielberg

7 – Nada Novo no Front (All Quiet on the Western Front), de Edward Berger (Disponível na Netflix)

6 – Marcel the Shell with Shoes On, de Dean Fleischer-Camp

5 – Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness), de Ruben Östlund (Disponível no Prime Video)

4 – Os Banshees of Inisherin, de Martin McDonagh

3 – EO, de Jerzy Skolimowski – um burro sem falas, mas mais expressivo na sua jornada que boa parte dos filmes. Sob seu olhar vemos o mundo e nos vemos também.

2 – Não! Não Olhe! (Nope), de Jordan Peele – reciclar e renovar gêneros como suspense e ficção científica sem esquecer de que acima de todas as inovações tecnológicas que cinema de 2022 pode trazer, uma boa história ainda é o mais importante. É “só isso” que Jordan Peele consegue fazer, mais uma vez, brilhantemente.

1 – Aftersun, de Charlotte Wells – (Disponível no Mubi) – um pai e uma filha em uma curta viagem de verão. Qual o impacto desses preciosos momentos na vida da filha? Como se constroem as memórias? E, mais do que tudo, elas são reais? (P.S.: recomendo a leitura da crítica do Pablo Villaça)

Um resumo dos melhores:

  • Melhor Filme: Aftersun
  • Melhor Diretor: Charlotte Wells  em Aftsersun
  • Melhor Ator: Paul Mescal em Aftersun
  • Melhor Atriz:  Cate Blanchett em Tár
  • Melhor Ator Coadjuvante: Anthony Hopkins em Armageddon Time
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Angela Bassett em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
  • Melhor roteiro: The Fabelmans
  • Melhor montagem: Elvis
  • Melhor trilha sonora: All Quiet on the Western Front
  • Melhor Fotografia: Nope
  • Filmes mais superestimados: Everything Everywhere All At Once, Tár, RRR
  • Piores filmes do ano: Morbius, Blonde, White Noise

A Forma da Água (2017) – Universal, atemporal

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Famigerada é a preferência e hábito do diretor Guillermo Del Toro em usar criaturas mágicas, não convencionais ou místicas fora de seu habitat, rodeadas por humanos. Independente da época da história são eles (humanos) em sua maioria, arrogantes, convencidos de sua superioridade e medrosos com o desconhecido. A Forma da Água (The Shape of Water), um dos favoritos aos prêmios da temporada é uma nova incursão do cineasta mexicano nesta temática e é, desde O Labirinto do Fauno, seu melhor trabalho.

Numa ambientação primordial dos primeiros anos da Guerra Fria – da guerra por conhecimento científico e militar entre Estados Unidos e União Soviética – com destaque a trilha sonora e principalmente ao melhor design de produção do ano, a criatura interpretada por Doug Jones encontra na personagem de Sally Hawkins a genuína expressão de bondade e solidão, combinação que resulta em amor, carnal e fraternal entre ambos.

Numa precipitada interpretação esta é uma sinopse comum a várias centenas de filmes; então, o que faz A Forma da Água se sobressair?  Os detalhes e a ironia, no passageiro com um bolo no ônibus, na forma como a rotina é filmada ou na recorrente gelatina verde; no roteiro de Del Toro que nos faz acreditar que a vida da personagem de Hawkins a conduziu para àquele momento e que ainda no meio disso fala de racismo e homofobia sutil e habilmente; e, claro, na atuação da protagonista, que sem dizer uma palavra converge em expressão e ações a transformação da timidez e solidão em aventura e felicidade. Uma história convencional no seu núcleo que se torna grande não pelos efeitos especiais ou por retratar amor a uma criatura marítima (afinal, a analogia óbvia é que deslocados da sociedade, todos podemos ser ela em algum momento da vida) mas sim pela habilidade em falar de temas simples e universais.

Àquele que nos fez rir: Adeus a um gênio

Um gênio da atuação morreu hoje.

Gene Wilder morreu hoje.

Escrevo esse post com a sensação que deveria ter vindo antes, não apenas em homenagem póstuma ao grande ator norte-americano. A carreira de Wilder foi de grandes (sempre memoráveis) atuações. E, se hoje, ele é lembrado muito mais pelo seu Willy Wonka da Fantástica Fábrica de Chocolates (1971) é dever dos apreciadores do cinema conhecer mais da sua filmografia.

No entanto, é sobre o Wonka de Wilder que escrevo. Uma das grandes comédias da história é também uma das memórias afetivas mais preciosas da minha infância. Todos temos filmes que marcam nosso primeiro contato com a arte cinematográfica e suas raízes são carregadas para toda a vida. Assim é a atuação de Wilder: o diretor Mel Stuart cria um clima tão fascinante no primeiro ato do filme que qualquer um tem desejo de obter um bilhete dourado. E retratando as intempéries que a população mundial levou para buscar e conseguir os cupons, além da simplicidade e pureza do garoto Charlie, quando chega o derradeiro momento da abertura dos portões da fábrica este clímax da importância das indústrias Wonka (e, certamente do seu fundador) para o mundo é o momento perfeito para o grande astro Gene Wilder aparecer. Eis que surge um Willy Wonka cansado, mancando e de expressão sofrida e aí, bom….O resto é história e 9 entre 10 pessoas conhecem.

Desde então, o magnetismo do ator nos conduz àquela fascinante jornada que entre alegorias e rios de chocolate aborda temas adultos como a honestidade e a arrogância.

A cena, das mais belas, que descrevi acima, você vê no vídeo abaixo 😉