Oeste Outra Vez (2024)

Se fosse para resumir este post em uma frase, somente um “vá e veja!” seria suficiente.

É este o sentimento que Oeste Outra Vez, filme nacional de Erico Rassi, estrelado por Ângelo Antonio, Rodger Rogério e Babu Santana, me causou. Disponível no catálogo do Telecine para quem perdeu o privilégio de ver na tela grande, Oeste Outra Vez tem o potencial de agradar um distinto grupo de espectadores e de muitas formas diferentes.

O filme tem a genialidade de soar perfeito para um momento de entretenimento, o passar do tempo com qualidade e contentamento, de rir do ritual de sempre ter limão quando se bebe cachaça ou dos temidos e alardeados pistoleiros do agreste que não conseguem acertar o alvo de primeira nunca, o ritmo é leve e a sensação de não ver o filme passar é um grande elogio ao trabalho de Rassi. Além disso, a identificação de costumes, valores e locais tão brasileiros e enraizados na nossa cultura um filme de western norte americano nunca mostrará – é formidável ver os restaurantes de “beira de estrada”, os bares improvisados em casas nas cidades de interior e a resistência de comunidades em manter tradições sociais.

Somente isso faria do filme uma obrigatória indicação de 2h bem vividas, mas é através de sutilezas, da câmera que mais do que filme, contempla as excepcionais atuações e interações entre os personagens de Ângelo e Rodger que o filme se transforma numa belíssima obra de filosofia e sociologia contemporâneas. Temas como a aridez que os homens sustentam nas suas vidas e relacionamentos e como ele é frágil e está prestes a ruir em cada desabafo, o orgulho, o papel das mulheres na sociedade patriarcal e as consequências de uma vida sem propósito fazem que o filme não termine nos créditos finais, mas continue ressoando na nossa mente.

Vá e veja.

La Notte (1961): o silêncio das relações e o eco da modernidade

Poucos filmes conseguem traduzir de forma tão profunda e sensível as transformações de uma sociedade quanto La Notte, dirigido por Michelangelo Antonioni. Lançado em 1961, esse clássico do cinema italiano é uma verdadeira ponte entre o neorealismo do pós-guerra e o surgimento de uma nova linguagem cinematográfica mais introspectiva, existencial e modernista.

Ambientado em uma única noite, o filme acompanha um casal — vivido por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau — cuja relação parece se desfazer aos poucos, não por grandes rupturas, mas pelos pequenos silêncios, pelas ausências sutis, pelos gestos não ditos. La Notte é minimalista em sua estrutura narrativa, mas incrivelmente rico nos detalhes técnicos, estéticos e emocionais. A ironia é essa: é um filme de poucas palavras, mas de muitas camadas.

A Itália retratada no filme é uma nação em reconstrução — saindo das ruínas da guerra e mergulhando em uma nova era de desenvolvimento econômico e transformação tecnológica. Essa transição está presente até nas cenas aparentemente simples, como a dos garotos soltando pequenos foguetes, um aceno direto ao clima de Guerra Fria que se instalava no mundo. Antonioni, com sua visão aguçada, faz do cotidiano um espelho da história.

O diretor não se preocupa em entregar respostas prontas. Ao contrário: ele planta dúvidas, convida à reflexão e deixa que o desconforto do espectador se instale. Quando, ao final, o personagem de Mastroianni declara ainda amar sua esposa, tudo o que vimos até ali sugere o oposto. E é exatamente aí que o filme nos provoca: o que dizemos tem mesmo mais peso que o que fazemos? E o quanto das nossas relações está baseado no que silenciamos?

La Notte é, sem exagero, uma obra-prima. Um filme que exige atenção, entrega e sensibilidade.

Infelizmente, encontrar essa joia do cinema italiano pode ser um desafio. O filme não está disponível nas principais plataformas de streaming no Brasil. Encontrei-o apenas no YouTube, com áudio original em italiano e legendas em inglês — link abaixo.

Os melhores filmes de 2024: a lista

O dia do Oscar é o marco de encerramento de ciclo anual do cinema (hollywoodiano? Sim, mas pela influência cultural, mundial também). Hoje é o réveillon dos cinéfilos (cof cof). Dito isso, nada mais justo que explorar brevemente o 2024 e elencar os melhores daquele ano.

Este 2024 foi um ano, se comparado a 2023, estranho. Um ano em que – na minha opinião – não tivemos obras primas, destas que perduram na nossa imaginação e nostalgia, que geram vontade de debater e rever. Se em 2023 fomos agraciados com obras como Assassinos da Lua das Flores, Dias Perfeitos, Zona de Interesse e Monster, 2024 trouxe exemplares mais comedidos no quesito qualidade, um ano repleto de boas histórias, mas com alguma lacuna a desenvolver melhor (ritmo, direção, cast e atuações, roteiros, etc.). Talvez o clima de indefinição em muitos dos prêmios do Oscar seja um reflexo disso. Talvez.

E como não falar de Ainda Estou Aqui? O representante brasileiro que mais gerou engajamento na história de Hollywood, que mobilizou muitos em redes sociais e alertou o mundo que aqui neste país são produzidas obras de qualidade e que possuímos uma história rica a contar (lembrar e, nesse caso, não repetir)? Hesitei muito em escrever uma resenha sobre o filme de Walter Salles, pois me senti muito – pra não dizer integralmente – representado pela belíssima crítica de Luiz Santiago do Plano Crítico (aqui), que traduziu o que penso sobre o filme: uma obra tecnicamente perfeita, com atuações acima da média, mas com uma direção que “segura” mais a trama do que deveria e um epílogo dispensável. Gostaria de ter visto mais um “Walter Salles de Central de Brasil” em Ainda Estou Aqui. Porém, independente disso, a torcida para o filme continua, em especial na categoria Melhor Filme Estrangeiro, a estatueta mais provável de angariar.

Ademais, montei minha lista de favoritos e, na dificuldade em escolher melhor ator e atriz, listei um empate (se o Festival de Cannes pode fazer isso, por que eu não?). Outros bons exemplos do melhor lado de 2024 cinéfilo estão em filmes com temática do body horror com inserção de questões psicológicas e filosóficas, do gênero da comédia com mais um belo exemplar de Richard Linklater, novas técnicas e abordagens de filmar em primeira pessoa e de construir animações que, de tão simples, se tornam sofisticadas. Por fim, meu filme favorito do ano passou quase fora das premiações, (o que não diz nada sobre sua qualidade e sim sobre campanhas de marketing e como a indústria cinematográfica funciona) tem a habilidade de andar numa linha muito tênue de clichês e conseguir originalidades através do que a arte tem de melhor: a beleza. Eis a minha lista dos meus 15 favoritos:

15 – Duna: Parte 2, de Denis Villeneuve

14 – Rivais (Challengers), de Luca Guadagnino

13 – Ainda Estou Aqui, de Walter Salles

12 – A Verdadeira Dor (A Real Pain), de Jesse Eisenberg

11 – O Brutalista (The Brutalist), de Brady Corbet

10 – A Semente do Fruto Sagrado (The Seed of the Sacred Fig), de Mohammad Rasoulof

09 – Flow, de Gints Zilbalodis

08 – Jurado n°2 (Juror #2), de Clint Eastwood

07 – Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown), de James Mangold

06 – Hard Truths, de Mike Leigh

Top5

05 – Conclave, de Edward Berger

04 – Nickel Boys, de RaMell Ross

03 – Assassino por Acaso (Hit Man), de Richard Linklater

02 – A Substância (The Substance), de Coralie Fargeat

01 – Sing Sing, de Greg Kwedar

  • Melhor Filme: Sing Sing
  • Melhor Diretor: Coralie Fargeat  em A Substância
  • Melhor Ator: Colman Domingo em Sing Sing & Ralph Fiennes em Conclave
  • Melhor Atriz:  Demi Moore em A Substância &  Marianne Jean-Baptiste em Hard Truths
  • Melhor Ator Coadjuvante: Jeremy Strong em O Aprendiz
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Monica Barbaro em Um Completo Desconhecido
  • Melhor roteiro: Sing Sing
  • Melhor montagem: Conclave
  • Melhor trilha sonora: Rivais
  • Melhor Fotografia: Conclave
  • Melhor elenco: Um Completo Desconhecido
  • Filmes mais superestimados: Megalopolis; Mad Max: Furiosa, Wicked

Os melhores filmes de 2023 – A Lista

What a year! 2023 já parece ter ficado para trás há tanto tempo, mas seu legado cinematográfico não. Na esteira dos Oscars, cabe uma importante constatação: de que os filmes deste último ano certamente o fazem um dos melhores em qualidade da última década. Embora premiações estejam monopolizadas por Oppenheimer, são notáveis os exemplos do cinema em seu máximo. Da cena final de Assassinos da Lua das Flores a atuação de Sandra Hüller em Anatomia de uma Queda (talvez, a melhor coisa de um ano tão bom), ou da construção de tudo que a câmera mostra em Zona de Interesse ao cinema argentino com duas obras primas (ambas com personalidade e auntenticidade); ou ainda do mestre Wim Wenders (e também de Miyazaki) teimando em não se aposentar para entregar qualidade acima da média, são só alguns exemplos de como construir uma lista dos melhores de 2023 é tarefa árdua. Por isso mesmo, o top 10 se tornou top15 nesse ano! Confira a minha lista:

15 – Barbie, de Greta Gerwig

14 – Oppenheimer, de Christopher Nolan

13 – O mal que nos Habita (Cuando acecha la maldad), de Demián Rugna

12 – Pobres Criaturas (Poor Things), de Yorgos Lanthimos

11 – Os Rejeitados (The Holdovers), de Alexander Payne

Top10

10 – O Menino e a Garça (The Boy and the Heron), de Hayao Miyazaki

9 – A Sala de Professores (Teacher’s Lounge), de Ilker Çatak

8 – Vidas Passadas (Past Lives), de Celine Song

7 – Anatomia de uma Queda (Anatomy of a Fall), de Justine Triet

6 – Monster (Kaibutsu), de Hirokazu Koreeda

5 – Os Delinquentes, de Rodrigo Moreno

4 – John Wick 4: Baba Yaga, de Chad Stahelski

3 – Zona de Interesse (Zone of Interest), de Jonathan Glazer

2 – Dias Perfeitos (Perfect Days), de Wim Wenders

1 – Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon), de Martin Scorsese

  • Melhor Filme: Assasinos da Lua das Flores
  • Melhor Diretor: Martin Scorsese  em Assassinos da Lua das Flores
  • Melhor Ator: Leonardo DiCaprio em Assassinos da Lua das Flores
  • Melhor Atriz:  Sandra Hüller em Anatomia de uma Queda
  • Melhor Ator Coadjuvante: Robert Downey Jr. em Oppenheimer
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Da’Vine Joy Randolph em Os Rejeitados
  • Melhor roteiro: Zona de Interesse
  • Melhor montagem: Os Delinquentes
  • Melhor trilha sonora: Assassinos da Lua das Flores
  • Melhor Fotografia: Oppenheimer
  • Filmes mais superestimados: Asteroid City

Os melhores filmes de 2022 – A lista

O ano de 2022 transita para o mundo do cinema como uma vasta rede de experimentos nos filmes que despontam com maior apelo para este espectador. Se a onda de super heróis parece ter atingido seu apogeu e estar em leve queda, abre-se de volta o espaço para novos (ou apenas “atualizados”) experimentos ou mercados, de um filme sul coreano que deve ser grande vencedor do Oscar (quem poderia apostar nisso antes de Parasita abrir caminho?) a outros que tinham tudo para transitar apenas em círculos cult mas que atraem grande público (“Triângulo da Tristeza” e “Aftersun”, por exemplo). No entanto, infelizmente ainda premiações deixam alguns gêneros de fora (“Não! Não Olhe!” é o melhor exemplo), mas o mercado dos distintos serviços de streaming reduz e quase anulo a validação advinda de estatuetas e prêmios. Os meus filmes preferidos de 2022 (lista abaixo), tem algo em comum: são marcados pelo desafio de contar algo novo ou de contar algo conhecido mas com um novo olhar.

10 – Living, de Oliver Hermanus

9 – Navalny, de Daniel Roher (Disponível na HBO Max)

8 – Os Fabelmans, de Steven Spielberg

7 – Nada Novo no Front (All Quiet on the Western Front), de Edward Berger (Disponível na Netflix)

6 – Marcel the Shell with Shoes On, de Dean Fleischer-Camp

5 – Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness), de Ruben Östlund (Disponível no Prime Video)

4 – Os Banshees of Inisherin, de Martin McDonagh

3 – EO, de Jerzy Skolimowski – um burro sem falas, mas mais expressivo na sua jornada que boa parte dos filmes. Sob seu olhar vemos o mundo e nos vemos também.

2 – Não! Não Olhe! (Nope), de Jordan Peele – reciclar e renovar gêneros como suspense e ficção científica sem esquecer de que acima de todas as inovações tecnológicas que cinema de 2022 pode trazer, uma boa história ainda é o mais importante. É “só isso” que Jordan Peele consegue fazer, mais uma vez, brilhantemente.

1 – Aftersun, de Charlotte Wells – (Disponível no Mubi) – um pai e uma filha em uma curta viagem de verão. Qual o impacto desses preciosos momentos na vida da filha? Como se constroem as memórias? E, mais do que tudo, elas são reais? (P.S.: recomendo a leitura da crítica do Pablo Villaça)

Um resumo dos melhores:

  • Melhor Filme: Aftersun
  • Melhor Diretor: Charlotte Wells  em Aftsersun
  • Melhor Ator: Paul Mescal em Aftersun
  • Melhor Atriz:  Cate Blanchett em Tár
  • Melhor Ator Coadjuvante: Anthony Hopkins em Armageddon Time
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Angela Bassett em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
  • Melhor roteiro: The Fabelmans
  • Melhor montagem: Elvis
  • Melhor trilha sonora: All Quiet on the Western Front
  • Melhor Fotografia: Nope
  • Filmes mais superestimados: Everything Everywhere All At Once, Tár, RRR
  • Piores filmes do ano: Morbius, Blonde, White Noise

Os melhores filmes de 2021 – A lista

Dois mil e vinte um. Ano cinematográfico que vai até a noite dos prêmios Oscar e consigo carrega um ano – ainda – de pandemia (que ficou para trás?), da cena europeia e asiática fazendo frente comercial às produções cults norte americanas e de gratas surpresas como histórias medievais ou de western contadas de forma peculiar, que se por um lado incomoda por fugir de padrões outrora estabelecidos, por outro nos faz lembrar que cinema é arte e arte pode ser sim uma vertente de água cristalina que não tem fim.

Os meus filmes preferidos de 2021 são estes:

10 – Pig, de Michael Sarnoski

9 – Summer of Soul (…ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada), de Questlove

8 – Noite Passada em Soho (Last Night in Soho), de Edgar Wright

7 – Drive My Car, de Ryusuke Hamaguchi

6 – A Filha Perdida (The lost Daughter), de Maggie Gyllenhaal

5 – Ataque dos Cães (The Power of the Dog), de Jane Campion

4 – Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson

3 – A Pior Pessoa do Mundo (The Worst Person in the World), de Joachim Trier

2 – A Ilha de Bergman (Bergman Island), de Mia Hansen-Løve

1 – The Green Knight, de David Lowery

Um resumo dos melhores:

  • Melhor Filme: The Green Knight
  • Melhor Diretor: David Lowery em The Green Knight
  • Melhor Ator: Benedict Cumberbatch em Ataque dos Cães
  • Melhor Atriz:  Renate Reinsve em A Pior Pessoa do Mundo
  • Melhor Ator Coadjuvante: Troy Kotsur em No Ritmo do Coração
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Jessie Buckley em A filha perdida
  • Melhor roteiro: A Ilha de Bergman
  • Melhor montagem: Licorice Pizza
  • Melhor trilha sonora: Ataque dos Cães
  • Melhor Fotografia: Ataque dos Cães
  • Filmes mais superestimados: No Ritmo Do Coração; Não Olhe para Cima; Amor, Sublime Amor
  • Piores filmes do ano: Annette, Um Príncipe em Nova York 2

Short Review: A Malvada (1950)

Filme antigo não significa filme clássico tampouco implica qualidade. Muitos roteiros e direções “preguiçosas” que assistimos hoje já existiam no início do século passado. Então, a apreciação de um filme se volta além da sua época, do tipo de câmera e cores empregadas.

A Malvada (título horroroso para ‘All About Eve‘ de 1950, dirigido por Joseph L. Mankiewicz) é um daqueles exemplos que coloca o cinema como um todo no seu lugar. Um filme em que é possível entender porque qualidade transcende época. Como toda obra depende dos gostos e histórias pessoais de quem a consome, errado é afirmar que alguém “deve ver tal filme“. No entanto, se errado não fosse, A Malvada certamente estaria nessa lista dos must-see da vida. E por quê? Porque, mesmo com famigeradas pausas e ritmo provenientes do cinema da década de 50, constrói uma obra prima onde todo o cast principal atua formidavelmente bem (em destaque Bette Davis) e porque tem no seu desenvolvimento, maturidade (e imaturidade) dos personagens nos seus diálogos algo que ainda se enxerga hoje, os mais primitivos desejos, da vaidade a cobiça, da ironia ao desespero de envelhecer sem deixar nenhum legado. Um filme para assistir sempre que possível.

 

A Forma da Água (2017) – Universal, atemporal

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Famigerada é a preferência e hábito do diretor Guillermo Del Toro em usar criaturas mágicas, não convencionais ou místicas fora de seu habitat, rodeadas por humanos. Independente da época da história são eles (humanos) em sua maioria, arrogantes, convencidos de sua superioridade e medrosos com o desconhecido. A Forma da Água (The Shape of Water), um dos favoritos aos prêmios da temporada é uma nova incursão do cineasta mexicano nesta temática e é, desde O Labirinto do Fauno, seu melhor trabalho.

Numa ambientação primordial dos primeiros anos da Guerra Fria – da guerra por conhecimento científico e militar entre Estados Unidos e União Soviética – com destaque a trilha sonora e principalmente ao melhor design de produção do ano, a criatura interpretada por Doug Jones encontra na personagem de Sally Hawkins a genuína expressão de bondade e solidão, combinação que resulta em amor, carnal e fraternal entre ambos.

Numa precipitada interpretação esta é uma sinopse comum a várias centenas de filmes; então, o que faz A Forma da Água se sobressair?  Os detalhes e a ironia, no passageiro com um bolo no ônibus, na forma como a rotina é filmada ou na recorrente gelatina verde; no roteiro de Del Toro que nos faz acreditar que a vida da personagem de Hawkins a conduziu para àquele momento e que ainda no meio disso fala de racismo e homofobia sutil e habilmente; e, claro, na atuação da protagonista, que sem dizer uma palavra converge em expressão e ações a transformação da timidez e solidão em aventura e felicidade. Uma história convencional no seu núcleo que se torna grande não pelos efeitos especiais ou por retratar amor a uma criatura marítima (afinal, a analogia óbvia é que deslocados da sociedade, todos podemos ser ela em algum momento da vida) mas sim pela habilidade em falar de temas simples e universais.

Star Wars VIII – (Não são) Os Últimos Jedi

*(COM SPOILERS SOBRE ACONTECIMENTOS DO FILME)

Disruptivo é uma palavra que, embora não seja habitualmente dita no português cotidiano aparece como mania de jornalistas e redatores que teimam em usa-la até a banalização de algo que, segundo o dicionário, deriva de “partir, despedaçar, rasgar, romper, destruir”, a ser usado para grandes mudanças. No entanto, falar de Star Wars em seu episódio VIII, “Os Últimos Jedi”, é obrigatoriamente associa-lo a uma grande mudança nos rumos da série de filmes.

Star Wars – Os Últimos Jedi é a continuação imediata de O Despertar da Força, seguindo mais uma vez a luta da Resistência comandada pela general Leia contra a Primeira Ordem de Snoke. Trocam-se os nomes dos grupos de poder (Aliança, Rebeldes, Império, República e tantos outros que já passaram pelos 7 filmes anteriores) mas a dinâmica ainda é a mesma: um pequeno mas valente grupo de pessoas lutando contra um poder ditatorial na galáxia. No entanto, nesta obra de 2017, dirigida pelo competente Rian Johnson (de Breaking Bad e Looper) o grupo dos mocinhos se reduz ao menor número de combatentes que já se viu em Star Wars e o lado sombrio, pela primeira vez, passa a ser liderado por um guerreiro Ex-Jedi, Kylo Ren que, numa cena surpreendente, mata o líder da Primeira Ordem. Começam aí as diferenças e os motivos para o episódio VIII ser um game changer.

No entanto, a mudança mais drástica na mitologia da série e que tem causado a revolta dos fãs de longa data dos filmes é a desmistificação dos Jedi. Através das falas de Luke Skywalker (Mark Hamil em sua melhor atuação em Star Wars) somos convidados a enxergar melhor a contribuição dos Jedis ao longo da história: praticamente nula. Uma Ordem vaidosa pelo poder da Força que esteve sempre além dos interesses da população e, quando lutou por liberdade foi para sua auto preservação – que se não falhou, chegou muito perto pois apenas Luke remanesceu. Além disso, a descoberta mais impactante e que alimentava teorias em fóruns e blogs foi a da real descendência de Rey: muito diferente do que se romantizava Rey não é filha de Luke ou Leia ou nenhum personagem heroico dos filmes, e sim de pessoas “comuns” e pobres que a venderam como mercadoria ainda na infância.

Uma das maiores místicas de Star Wars, a descendência Skywalker (Anakyn, Vader, Luke, Leia) como fonte de poder está desfeita. Tão importante é esta abordagem para seus realizadores que a cena final chega a ser redundante no tema ao mostrar uma criança qualquer num planeta desconhecido com indícios do poder da Força. Ocorre que o Último Jedi – como conhecíamos a Ordem – foi Luke, mas os Jedis ainda serão a força motriz da liberdade, porém vindos de classes sociais e locais distintos da galáxia, assim como Rey.

Fundamental também na construção deste novo capítulo é o personagem de Finn, que com bons diálogos e atuação de John Boyega, confirma um senso de heroísmo aliado ao humor e carisma diferentes de Han Solo (Harison Ford) mas igualmente importante para que o filme seja um bom entretenimento. Rian Johnson acerta também nos elementos de humor, vindos especialmente das criaturas da ilha onde Luke se refugiou e cria, nos porgs, por exemplo, tudo que George Lucas falhou com Jar Jar Banks. Outro ponto a se considerar no trabalho de Johnson é a preocupação estética: se em O Despertar da Força JJ Abrams preocupou-se mais em destacar o clima de ação e aventura em cenas de perseguição e fugas no espaço, Johnson dá atenção especial a montagem, como nas cenas que telepaticamente Kylo Ren e Rey conversam ou no design de produção, exemplificado pelo perfeccionismo da batalha nos campos de gelo e sal em que os veículos e armas deixam no seu rastro um impressionante mosaico vermelho no terreno.

O último e derradeiro elemento desta obra disruptiva é o fim da trilogia original (episódios IV, V e VI) nesta nova, marcado pela morte de Luke e Leia, esta última a ser antecipada devido ao falecimento da atriz Carrie Fischer em 2016. Ainda que Luke e Leia apareçam em flashes como Yoda neste episódio VIII, Star Wars não é mais uma terra dos Skywalker antigos ou dos egoístas Jedis de outra época ou das ações militares pela busca de poder sem considerar diretamente o impacto às pessoas comuns daquele mundo. É com essa mudança que Star Wars VIII pode ter desagradado fãs antigos mas ganhará as futuras gerações e permitirá a Disney a realização de mais episódios da saga.

Trainspotting 2 (2017) – Quando a mesma fórmula não garante os mesmos resultados

 

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O mundo mudou em 20 anos. Não tanto quanto um dia imaginamos que duas décadas fariam de diferença ao mundo e muito menos, nem perto do que 20 anos representam na vida da Terra ou nos hábitos primitivos da nossa espécie – alguns, mesmo depois de milênios, continuam praticamente inalterados. Mas, de certa forma, mudou como sempre muda: com pequenos avanços tecnológicos e, principalmente, com as pessoas envelhecendo e o eterno ciclo de quem era jovem ficando velho e esta mudança natural trazendo momentos de nostalgia e arrependimentos.

É exatamente neste contexto que a sequência do Trainspotting de 1996 chegou aos cinemas neste ano. Trazendo seu núcleo principal de protagonistas (Ewan McGregor, Robert Carlyle, Ewen Bremner e Jonny Lee Miller) novamente na mesma Escócia do filme original e sob a mesma direção de Danny Boyle, assistimos em 2 horas uma ode à nostalgia da juventude do quarteto. Todos envelheceram e suas escolhas da juventude ainda repercutem no presente. Com uma série de referências ao filme de 96 em diálogos, conflitos ou rimas estéticas, está aí o primeiro ponto crucial do filme: se você decidiu assisti-lo sem conhecer o Trainspotting original provavelmente entenderá pouco da história e com grandes chances de sequer terminar de assistir este. O roteiro passa a ser vinculado a história original e praticamente tudo orbita em torno da decisão do personagem de Ewan McGregor de fugir com a parte dos seus amigos do dinheiro que eles roubam.

Mas este mote não é o problema do filme, afinal, grandes westerns foram construídos baseados na premissa de uma vingança oriunda de trapaças com dinheiro. Ocorre é que fora isso o filme não consegue desenvolver uma história convincente e a partir de certo ponto, parece que até os atores reconhecem isso e estão tão impacientes quanto o espectador para que o filme termine. Existe uma tentativa de história neste roteiro, que é a da reunião dos 3 (McGregor, Bremner e Miller) para construir e administrar um bordel, mas da forma como isso é conduzido em nenhum momento acreditamos que isso possa acontecer ou que tenha relevância. Além disso, a psicopatia do personagem de Robert Carlyle (Begbie) o faz ser temido pelos demais 3 parceiros e velhos amigos, mas embora ela quase chegue a níveis Alex DeLarge em Laranja Mecânica, é pouco verossímil que três homens mais novos, unidos, de bom porte físico e pouco a perder na vida, se esquivem tão pateticamente dele.

Embora estes pontos sejam cruciais e, na minha opinião, definidores de que seria melhor ter ficado com a lembrança de Ewan McGregor numa overdose de heroína ao som de Lou Reed (Perfect Day), o filme de 2017 tem alguns bons momentos. Entre eles, a melhor cena do filme, a explicação sincera do que é o Choose Life, que você pode ver no vídeo abaixo. No fim, temos um filme de oscilações entre alguns bons e sarcásticos momentos num emaranhado de referências ao filme de 1996 e uma história fraca que se preocupa em dar um tom exagerado no caráter determinista a vida, pois mesmo que o presente seja uma inevitável consequência dos nossos atos passados, viver num ritmo de c’est la vie, é um belo desperdício de tempo.