Gladiador 2 – Vale a pena ouvir Enya de novo?

Quando um filme combina aprovação de crítica e sucesso de público é justo parar e entender os motivos que o levaram a essa posição geralmente tão almejada além, é claro, de apreciá-lo. Assim é Gladiador do ano 2000, dirigido e produzido por Ridley Scott. Vinte e quatro anos depois, a sequência encabeçada pelo mesmo diretor dificilmente conseguirá um ou outro feito (crítica e público) e tem diversos motivos para isso.

No filme deste ano, Paul Mescal (excelente em Aftersun) é o novo gladiador e protagonista, que ganha de presente um roteiro e direção que o faz querer repetir muito de Russel Crowe do primeiro filme: de querer se mostrar mais introspectivo (mas aí por 3 vezes faz um discurso longo começando com frases do tipo “não sou de falar muito…”), de carregar trauma e mágoas que precisam de vingança, para então a vontade de vingar simplesmente desaparecer sem um desenvolvimento adequado. Por tudo isso, a atuação do gladiador não empolga. A mesma percepção se aplica ao cast principal, mesmo que Denzel Washington tenha tempo em tela para usar sua oratória e atuação em bons monólogos, é muito torpe sequer acreditar na velocidade que a personagem dele chega ao topo da hierarquia política do maior império da Terra.

Há uma corrente da crítica que despreza as liberdades poéticas de Ridley Scott frente a história real, mas sob esse aspecto, na minha opinião, o cinema pode ser soberano se souber usar variações para a História – do Coliseu com tubarões aos dois imperadores dividindo trono – mas são em outras partes da história que o filme se perde, como por exemplo, a legião de 5.000 pessoas do exército mais poderoso do mundo que não soube que seu general – a quem são fieis – foi assassinado a não ser que ume mensageiro mandando dias e dias depois vai a cavalo contar.

Na maior parte do filme – em especial na metade final – tem-se a impressão de que a obra é o resultado da direção e roteiro de um estudante afoito sem saber o que fazer mas que tem lembrança e carinho pelas coisas boas do filme de 2000. Assim, Gladiador 2 funciona como um fan service pesado, que ao beber dessa fonte consegue fazer um primeiro ato muito bom ao introduzir os personagens e os contextos da Roma naquele momento (16 anos após a trama do primeiro filme), mas que não tem habilidade para desenvolver uma história que superficialmente tenta ser complexa (a deposição de imperadores, traição, revolta popular, descendência plebeia mas com sangue “real”) e quando se vê perdido tenta recorrer a um atalho: se aproveitar de elementos do primeiro filme. As personagens principais mudam de opinião sobre as coisas mais importantes de uma cena para outra apenas porque é mais conveniente para história. Outro ponto a se destacar é a vida de todos que parece tão descartável onde todo mundo morre (mais que nos episódios mais sangrentos de Game of Thrones) e, com isso, é difícil criar vínculo ou sensação que as personagens são importantes para a história.

Em suma, o mais indignante deste filme é que mesmo com todos seus percalços e falhas de concepção e direção, o tema e a clássica história da jornada de herói personificada num gladiador que luta num Coliseu cheio de romanos e mexe com o poder do império continua tendo elementos que fascinam, que fazem querer ver um filme deste tamanho no cinema, mas que a entrega disso tudo seja preguiçosa e cheia de atalhos – o final usando a música de Enya é a cereja do bolo.

Os meus (melhores) discos de 2020

Um ano duro e desafiador. Esse foi o 2020 que deixamos pra trás. Na modernidade líquida, arte nunca foi tão necessária e importante, seja como fuga do cotidiano difícil de encarar, seja como motor para transformar sentimentos individuais em coletivos. Assim, minha lista dos meus melhores discos de 2020 mesmo sendo (infelizmente) composta apenas com lançamentos estrangeiros, acaba sendo uma fusão de sons questionadores da realidade e de outros que exploram a alegria e a gratitude. Abaixo o top10 dos discos, daquelas obras que, se escutadas por completo, “contam uma história” completa e dão o tom do ano.

10 – Yves Tumor, Heaven to a Tortured Mind

9 – Paul McCarteny, McCartney III

8 – Phoebe Bridgers, Punisher

7 – Freddie Gibbs, Alfredo

6 – Fleet Foxes, Shore

5 – Bob Dylan, Rough and Rowdy Ways

4 – Jessie Ware, What’s your Pleasure?

3 – Run The Jewels, RTJ4

2 – Bruce Springsteen, Letter to You

1 – Tame Imapala, The Slow Rush

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E, além deste, uma menção honrosa a música que – embora o álbum não esteja no top10 da lista – mais conseguiu unir (e não dividir, feito raro!) o mundo em 2020:

Os melhores discos de 2018

Wow! What a year!

Se ano passado a tarefa de elencar os melhores discos foi árdua (você lê nesse post aqui a lista de 2017), nesse ano a pretensão de resumir o ano em 5 álbuns foi pro espaço ainda no primeiro trimestre e o top5 virou top10 e, na vontade de não deixar tantos bons trabalhos de fora, virou top15.

Eis os meus discos preferidos de 2018:

15 – Soccer Mommy, Clean

14 – Jorja Smith, Lost and Found

13 – Spiritualized, And Nothing Hurt

12 – Robyn, Honey

11 – Janelle Monae, Dirty Computer

10 – Kurt Vile, Bottle it in

9 – Kali Uchis, Isolation

8 – Camila Cabello, Camila

7 – Courtney Barnett, Tell me How you Really Feel

6 – Paul McCartney, Egypt Station

5 – Arctic Monkeys, Tranquility Base Hotel & Casino

4 – The Internet, Hive Mind

3 – Mitski, Be the Cowboy

2 – Fantastic Negrito, Please don’t be dead

1 – Pusha T, Daytona