Divertidamente 2: O casamento entre Cinema e Psicologia?

Uma das minhas obras de animação favoritas de todos os tempos, Divertidamente (Inside Out) de 2015 é o marco definitivo da Pixar, seu auge em combinar num mesmo filme uma narrativa que agrada e fascina crianças e, ao mesmo tempo mergulhar em teses psicológicas densas com uma série de gatilhos para trazer estas à realidade de cada um. Passados 9 anos, o diretor Pete Docter assume a produção da continuação com a direção de Kelsey Mann (conhecido pelas animações O Bom Dinossauro, Lightyear e Red) para tratar da adolescência da protagonista Riley e o que se passa em seu cérebro.

E é nesse contexto que reside o maior demérito do filme. Enquanto no primeiro volume de 2015 o plot se ambientava na mudança de cidade da protagonista Riley e sua complexidade natural (amigos, escola, raízes) que ia além da sua vida e atingia a de seus pais trazendo abrangência para que as emoções básicas (Alegria, Tristeza, Raiva e Aversão/Nojo) usassem os melhores momentos para aparecer, nesta continuação a trama é muito específica e se baseia na aceitação de Riley em uma nova equipe de hóquei no gelo e a separação de duas amigas que mal são desenvolvidas como personagens. No meio disso, o início da adolescência e puberdade trazem novas emoções (Ansiedade, Inveja, Tédio, Vergonha e, de relance, a Nostalgia). A Alegria (dublada por Amy Poehler) rivaliza com a Ansiedade (esta, dublada por Maya Hawke) como a emoção dominante e controladora e este duelo, a dualidade ocupa a maior parte do filme e o aprisiona de explorar o mundo “cérebro da Riley”, um grande trunfo do primeiro filme.

No entanto, Divertidamente 2 continua a mexer com nossas emoções, e a carga quase didática da transição das emoções na entrada da adolescência continua sendo excepcional, digno de nota. Quão importante é enxergamos momentos de Ansiedade na nossa vida? As memórias se somando e virando convicções, você já pensou nas convicções que carrega para vide, de onde vieram? E, talvez, a “mensagem do filme” continuando ecoando algo introduzido na obra de 2015: todas emoções e memórias são importantes (no primeiro volume, “aprendemos” que a Tristeza é fundamental para a vida), no momento que queremos “esconder” algo no cérebro (uma analogia, bem apresentada) a vida se torna desordem, desiquilíbrio. Aliado a isso, a transformação de uma memória de curto para longo prazo ocorre devido às emoções; afinal, um dia rotineiro tem muito mais chance de ser esquecido que o dia que acontece algo emocionante na vida de cada um.

Assim, Divertidamente 2 é um casamento incompleto entre a Psicologia que vai a fundo nas emoções e a universaliza, compactuando muitos pontos com os espectadores e o Cinema, que peca na escolha da narrativa e ritmo.

Para uma continuação na conversa neurocientífica da obra, recomendo a análise do psicólogo Eslen Delanogare (https://www.instagram.com/p/C8j2Gv7uKXk/)

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