Os (meus) melhores filmes de 2020

Pelos motivos errados – a pandemia – chegamos ao ano em que a briga entre cinema x serviços de streaming perdeu força e nunca houve tanta oferta de bons filmes nos catálogos digitais como em 2020. Na tarefa de ver “o copo meio cheio” no caos que imperou globalmente e balançou crenças e convicções, toda a arte foi importante. Encontramos no cinema, em meio a isso, movimentos de retratar histórias que buscam dar voz contundentemente a minorias ou parcelas da sociedade antes não ouvidas apropriadamente, como as empreitadas de Regina King em Uma Noite em Miami ou da série de 5 filmes Small Axe de Steve McQueen, as duas brilhantes abordagens da opressão sexual em Bela Vingança ou A Assistente.

Além disso, a onda global cinematográfica (marcada como uma fase “pós Parasita”) nos aproxima de grandes filmes, da Dinamarca a Coréia do Sul, da Rússia a Romênia. Mas esta visão de arte cinematográfica é ainda muito primária; bom mesmo é assistir um filme que independe da temática, país de origem ou formato e encontrar algo mais nele, uma ideia e forma que repousa na memória muito além do seu final. E estes são os 20 de 2020 que mais me encantaram:

20 – Nunca, Raramente, Às vezes, Sempre (Never Rarely Sometimes Always), de Eliza Hittman (disponível no Telecine Play)

19 –  Bela Vingança (Promising Young Woman), de Emerald Fennell

18 – First Cow, de Kelly Richardson

17 – Colectiv – É Tudo Verdade (Collective), de Alexander Nanau (disponível nas plataformas HBO)

16 – A Assistente (The Assistant), de Kitty Green (disponível na Amazon Prime)

15 – Borat Subsequent Moviefilm, de Jason Woliner (disponível na Amazon Prime)

14 –  Má Educação (Bad Education), de Cory Finley (disponível nos serviços HBO)

13 –  Uma Mulher Alta (Beanpole), de Kantemir Balagov (disponível no Mubi)

12 –  Minari, de Lee Isaac Chung

11 –  Uma Noite em Miami (One Night in Miami…), de Regina King (disponível na Amazon Prime)

10 –  The Forty-Year-Old Version, de Radha Blank (disponível na Netflix)

9 –  Nomadland – Sobreviver na América, de Chloe Zhao

8 –  A Mulher que Fugiu (The Woman Who Ran), de Sang-Soo Hong (disponível no Mubi)

7 –  Martin Eden, de Pietro Marcello (disponível no Mubi)

6 – Druk – Mais uma Rodada (Another Round), de Thomas Vinterberg (disponível no Now Net Streaming)

5 – Agente Duplo (The Mole Agent), de Maite Alberdi (disponível no Globoplay)“Vendido e divulgado em trailers e materiais promocionais de uma forma totalmente errada, felizmente chegou ao Oscar. Mais do que isso, é uma carta de amor a empatia e valorização da vida em uma das etapas mais esquecidas atualmente”.

4 – Time, de Garrett Bradley (disponível na Amazon Prime)“Desconcertante. A inquietude que provoca ao questionar certas verdades ou sensos comuns da nossa sociedade vai muito além do final do filme”.

3 – Small Axe: Lovers Rock, de Steve McQueen (em breve disponível na Amazon Prime)“Não fazia ideia do quanto precisava desse filme. Na sua simplicidade, uma versão mais pura de Dazed and Confused (Jovens, Loucos e Rebeldes) e nem por isso, menos impactante. Som e luz formam elemento central de uma história que cada um certamente já vivenciou a sua versão”.

2 – A Vastidão da Noite (The Vast of Night), de Andrew Patterson (disponível na Amazon Prime)“No limite da linha tênue entre nostalgia como recurso de roteiro x nostalgia como supérfluo para esconder furos, a Vastidão da Noite é completo, ficção que não se limita a um subgênero. Mais do que o sobrenatural, fala sobre uma época cujo olhar continua a ser fascinante”.

1 – Estou Pensando em Acabar com Tudo, de Charlie Kaufman (disponível na Netflix)“Metalinguístico. Pretensioso. Pseudointelectual. Para assistir com uma xícara de café. Digno de Kaufman. Mas, mesmo assim principalmente, um estudo de como nossa mente sempre é um terreno mais fértil, ágil e prolífico que nossas ações. Afinal, nós somos o que fazemos ou o que pensamos? ”

Um resumo dos melhores:

  • Melhor Filme: Estou Pensando em Acabar com Tudo
  • Melhor Diretor: Steve McQueen em Small Axe: Lovers Rock
  • Melhor Ator: Anthony Hopkins em  Meu Pai & Chadwick Boseman em A Voz Suprema do Blues
  • Melhor Atriz:  Vasilisa Perelygin em Uma Mulher Alta
  • Melhor Ator Coadjuvante: Leslie Odom Jr. em Uma Noite em Miami
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Ellen Burstyn em Pieces of a Woman
  • Melhor roteiro: Estou Pensando em Acabar com Tudo
  • Melhor montagem: Time
  • Melhor design de produção: Meu Pai (The Father)
  • Melhor trilha sonora: Small Axe: Lovers Rock
  • Melhor Fotografia: Nomadland
  • Filmes mais superestimados: Mank, Destacamento Blood, Os 7 de Chicago, O Tigre Branco, As Mortes de Dick Johnson
  • Piores filmes do ano: Tenet, A Festa de Formatura 

Aos filmes de 2020, salute!

Os melhores filmes de 2019 – A lista

O último ano da década trouxe nas produções do cinema uma dose maior que a costumeira de fórmulas e enredos bem conhecidos. Analisar 2019, sob essa visão, é se frustrar com falta de originalidade nas grandes produções. Numa década em que os blockbusters, em especial da Disney/Marvel, dominaram bilheterias, pareceu mais lógico e seguro aos realizadores manter fórmulas que já funcionaram. Adicionando um ou outro elemento novo e significativo vemos mais uma vez filmes sobre as Guerras Mundiais do século passado (1917, Uma Vida Oculta, Jojo Rabbit), máfia (O Irlandês), nostalgia dos anos 60 (Era uma vez em Hollywood), romances do século XIX (Adoráveis Mulheres). Por isso, que obras como a ficção sul coreana Parasita, altamente crítica e analítica à nossa sociedade atual ou um falso documentário sobre uma lenda musical se sobressaem e estão no topo da minha lista de preferidos. Além desses, peças de originalidade tais quais A Despedida (outro de origem asiática), História de Um Casamento, Joias Brutas, Um Lindo Dia Na Vizinhança ou Nós merecem igualmente destaque. Os meus favoritos de 2019 são:

  • Melhor Filme: Parasita 
  • Melhor Diretor: Bong Joon-Hoem Parasita
  • Melhor Ator: Joaquim Phoenix em Coringa
  • Melhor Atriz: Lupita Nyong’o em Nós 
  • Melhor Ator Coadjuvante: Al Pacino em O Irlandês
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Shuzhen Zhao em A Despedida
  • Melhor roteiro: Parasita
  • Melhor montagem: 1917
  • Melhor trilha sonora: Coringa 
  • Melhor Fotografia: 1917
  • Filme mais superestimado: O Escândalo
  • Piores filmes do ano: Tolkien, X Men: Fênix Negra

 

E o top15 do ano:

15 – Uma Vida Oculta, de Terrence Malick

14 – Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig

13 – Em trânsito, de Christian Petzold

12 – História de um casamento, de Noah Baumbach

11 – Joias Brutas, de Josh e Ben Safdie

10 – Um lindo dia na Vizinhança, de Marielle Heller

9 – Midsommar: O mal não espera a noite, de Ari Aster

8 – Nós, de Jordan Peele

7 – Dois Papas, de Fernando Meirelles

6 –Fora de série (Booksmart), de Olivia Wilde

5 – O Irlandês, de Martin Scorsese

4 – A Despedida (The Farewell), de Lulu Wang

3 – Era uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino

2 – Rolling Thunder Revue, de Martin Scorsese

1 – Parasita, de Bong Joon-Ho

Os melhores filmes de 2018 – A lista

Com grandes diferenças em relação às premiações de cinema do ano (2018), em especial ao Oscar, que na sua 91ª edição neste domingo próximo encerra o ciclo das estatuetas dos filmes do último ano, minha lista concentra filme que privilegiam forma e desenvolvimento de conteúdo sobrepondo a temática em si. Assim, escapam dela filmes médios (Green Book ou Nasce uma Estrela) e filmes medíocres (Bohemian Rhapsody) alçados aos maiores prêmios apenas pela hiperxposição de cantores ou preocupação em fazer votantes pensarem que o racismo (e demais preconceitos) está vencido. Dito isso, exemplos de sensibilidade e cadências povoam os meus preferidos de 2018:

  • Melhor Filme: Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here)
  • Melhor Diretor: Lynne Ramsay em Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here)
  • Melhor Ator: Joaquim Phoenixem Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here)
  • Melhor Atriz: Joanna Kulig em Guerra Fria (Cold War)
  • Melhor Ator Coadjuvante: Adam Driver em Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Emma Stone emA Favorita (The Favourite)
  • Melhor roteiro: The Tale (The Tale)
  • Melhor montagem: Vice (Vice)
  • Melhor trilha sonora: O Primeiro Homem (First Man)
  • Melhor Fotografia: Guerra Fria (Cold War)
  • Filme(s) mais superestimado(s): Green Book: O Guia, Bohemian Rhapsody
  • Piores filmes do ano: Mute

 

E o top15 do ano:

 

15 – Vice (Vice), de Adam McKay

14 – Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman), de Spike Lee

13 – Homem Aranha no Aranhaverso (Spider Man into the Spider-verse), de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman

12 – Missão Impossível Efeito Fallout (MI Fallout), de Christopher McQuarrie

11 – The Ballad of Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs), de Joel Coen e Ethan Coen

10 – Support the girls (Support the girls), Andrew Bujalski

9 – Eighth Grade (Eighth Grade), de Bo Burnham

8 – A Favorita (The Favourite), de Yorgos Lanthimos

7 – Roma (Roma), de Alfonso Cuaron

6 – First Reformed (First Reformed), de Paul Schrader

5 – Happy as Lazzaro (Lazzaro Felice), de Alice Rohrwacher

4 – The Tale (The tale), de Jennifer Fox

3 – Sorry to bother you (Sorry to bother you), de Boots Riley

2 – Guerra Fria (Cold War), de Pawel Pawlikowski

1 – Você nunca esteve realmente aqui (You were never really here), de Lynne Ramsay

 

Os melhores filmes de 2017 – A lista

 

No dia em que mais uma temporada do cinema se encerra com a 90a edição do Oscar – afirmação muito mais válida para o cinema norte americano, mas ainda assim extremamente relevante ao mundo – um balanço dos filmes de 2017 se faz necessário. Se, em 2016 a falta de diversidade (étnica, racial, social e de gênero) foi escancarada aos holofotes das principais premiações, um sopro de boas iniciativas fez de 2017 um ano com uma ligeira mudança nas apostas dos grandes estúdios (e, evidentemente, dos independentes mais ainda).

Ainda que corramos o risco de supervalorizar algumas obras ou atores apenas por uma questão de minorias – por exemplo,  a supervalorização das habilidades de Greta Gerwig como diretora – a minha lista de melhores do ano e também os indicados as premiações trazem bons exemplos de como a arte é – e deve ser – uma expressão contemporânea das características da nossa sociedade: do preconceito racial em Corra! a desigualdade econômica tão bem explorada em Projeto Flórida; da sensação de não pertencimento ao mundo e seu caos (Já não me sinto em casa nesse mundo) a diversidade sexual de uma forma lírica em Me Chame pelo Seu Nome.

Outro traço marcante dos filmes de 2017 foi o humor, que soube ser dosado nos filmes já citados no parágrafo anterior até nas mais psicológicas obras com Trama Fantasma (a incursão de Paul Thomas Anderson num universo à Hitchcock), as sutis ironias em A Forma D’Água ou de forma objetiva em Eu, Tonya. Além disso, a polarização de temas, muitas vezes dentro dos filmes, contribui para histórias com espaço para um grande número de fantásticas atuações de atores coadjuvantes, especialmente os homens.

Então, estes são os meus preferidos do ano:

  • Melhor Filme: Corra! (Get Out)
  • Melhor Diretor: Sean Baker em Projeto Flórida (The Florida Project)
  • Melhor Ator: Daniel Kaluuya em Corra! (Get Out)
  • Melhor Atriz: Vicky Krieps em Trama Fantasma (Phantom Thread)
  • Melhor Ator Coadjuvante: Jason Mitchell em Mudbound
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Lauren Metcalf em Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird)
  • Melhor roteiro: Corra! (Get Out)
  • Melhor documentário: Ícaro (Icarus)
  • Melhor montagem: Dunkirk
  • Melhor Fotografia: Blade Runner 2049
  • Filme(s) mais superestimado(s): Três anúncios para um crime (Three Billboards outside Ebbing, Missouri), Lady Bird: A hora de Voar (Lady Bird)
  • Piores filmes do ano: It – A Coisa (It), Alien: Covenant;

 

E o top15 do ano de 2017:

 

15 –   A Ghost Story de David Lowery

14 – Ícaro (Icarus) de Bryan Fogel

13 – Detroit em rebelião (Detroit) de Kathryn Bigelow

12 – Doentes de Amor (The Big Sick) de Michael Showalter

11 – Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird) de Greta Gerwig

10 – Blade Runner 2049 de Dennis Villeneuve

9 – Logan de James Mangold

8 – A Forma d’água (The Shape of Water) de Guillermo Del Toro

7 – Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by your name) de Luca Guadagnino

6 – Trama Fantasma (Phantom Thread) de Paul Thomas Anderson

5 – Eu, Tonya (I, Tonya) de Craig Gillespie

4 – Projeto Flórida (The Florida Project) de Sean Baker

3 – Bom Comportamento (Good Time) de Benny & Josh Safdie

2 – Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (I don’t feel at home in this world anymore) de Macon Blair

1 – Corra! (Get Out) de Jordan Peele

A Forma da Água (2017) – Universal, atemporal

shape.png

Famigerada é a preferência e hábito do diretor Guillermo Del Toro em usar criaturas mágicas, não convencionais ou místicas fora de seu habitat, rodeadas por humanos. Independente da época da história são eles (humanos) em sua maioria, arrogantes, convencidos de sua superioridade e medrosos com o desconhecido. A Forma da Água (The Shape of Water), um dos favoritos aos prêmios da temporada é uma nova incursão do cineasta mexicano nesta temática e é, desde O Labirinto do Fauno, seu melhor trabalho.

Numa ambientação primordial dos primeiros anos da Guerra Fria – da guerra por conhecimento científico e militar entre Estados Unidos e União Soviética – com destaque a trilha sonora e principalmente ao melhor design de produção do ano, a criatura interpretada por Doug Jones encontra na personagem de Sally Hawkins a genuína expressão de bondade e solidão, combinação que resulta em amor, carnal e fraternal entre ambos.

Numa precipitada interpretação esta é uma sinopse comum a várias centenas de filmes; então, o que faz A Forma da Água se sobressair?  Os detalhes e a ironia, no passageiro com um bolo no ônibus, na forma como a rotina é filmada ou na recorrente gelatina verde; no roteiro de Del Toro que nos faz acreditar que a vida da personagem de Hawkins a conduziu para àquele momento e que ainda no meio disso fala de racismo e homofobia sutil e habilmente; e, claro, na atuação da protagonista, que sem dizer uma palavra converge em expressão e ações a transformação da timidez e solidão em aventura e felicidade. Uma história convencional no seu núcleo que se torna grande não pelos efeitos especiais ou por retratar amor a uma criatura marítima (afinal, a analogia óbvia é que deslocados da sociedade, todos podemos ser ela em algum momento da vida) mas sim pela habilidade em falar de temas simples e universais.

I, Tonya (2017) – Não pesquise, assista !

769341148_5618218526001_5617890179001-vs

Saber o mínimo possível de um filme antes de assisti-lo é o estilo de espectador em que eu me enquadro. Se vale a pena evitar ler notícias a respeito ou assistir trailers antes do filme em si? Normalmente, sim. Mas em “I, Tonya” a condição é ainda superada e obtive uma das mais fantásticas experiências cinematográficas graças a isso.

Sabendo apenas que se trata um filme que está no radar das premiações desta temporada 2017/2018 e com uma provável indicação a melhor atriz para Margot Robbie no Oscar – além de chances reais de vitória – e que o enredo é centrado na história de uma patinadora no gelo chamada Tonya Harding,  em praticamente 2 horas o filme brinca com este desconhecimento te deixando por vezes na certeza de que se trata de uma história real, mas na maior parte do filme racionalizando de que tudo faz parte de um grande roteiro de ficção com os mesmos atores dos personagens se passando pelas pessoas reais, numa livre a associação aos “falsos documentários”, como na série The Office. Ao final do filme, graças a uma brilhante edição ágil, conhecemos a verdade (assista ou procure em outro review pois não comentarei se é uma história real ou não).

Além disso, emoldurada sob a face de um drama de competição esportiva de alto nível (com espaço para as Olímpiadas) e todas as consequências de um ambiente competitivo, aos poucos o filme ganha seus contornos de comédia e certo humor negro, graças aos atores coadjuvantes e seus histórias surreais (destaque para o personagem Shawn de Paul Walter Hauser) e a leveza da atuação de Margot Robbie e simplicidade das suas falas. Assim, inevitável é a comparação com uma história dos irmãos Coen (Irmão, Cadê Você? ou Fargo) e precisas são as abordagens de uma realidade preconceituosa dos chamados whitetrashs nos EUA (neste caso, do estado do Oregon).

Sem revelar muito mais do filme, é notório que uma comédia – ainda mais como esta – inicialmente não tenha o mesmo apreço como um drama complexo e profundo, mas tenho a certeza que com o passar dos anos será inevitável não relaciona-la em qualquer lista dos melhores filmes de 2017 (a exemplo da maior parte dos filmes dos Coen ou do mais recente A Grande Aposta). Assistir um filme sem saber nada dele, aceita o desafio? Se a resposta for sim, I, Tonya é o melhor ponto de partida.

O Sal da Terra (2014)

Se uma boa redação precisa de um excelente título, um bom filme também começa a ter sua qualidade apreciada já no título. Quando o título de um filme resume com excepcional habilidade as suas ideias centrais é um belo indício que, ao menos, ele tem coesão. E esta qualidade é uma das predominantes em O Sal da Terra, documentário de 2014 que apresenta a vida do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado através da sua obra.

Dirigido e produzido pelo cineasta alemão Wim Wenders em parceria com Juliano Salgado (filho de Sebastião), O Sal da Terra é um documentário (acertadamente indicado ao Oscar) que une as várias fases da carreira do famigerado protagonista através desta simples mas brilhante constatação: o que faz diferença para o mundo (o sal ou “tempero” dele) são – sempre foram e serão – as pessoas. Essa constatação, embora de uma obviedade gigante, através da utilização das fotos, resultado uma vida de expedições pela América Latina, Leste Europeu e África, entre outros, culmina na visualização das experiências do fotógrafo e vai além do que meros relatos escritos sobre a natureza humana nos 4 cantos da terra poderiam produzir.

Enquanto você lê este texto é perfeitamente provável que no planeta, por exemplo, existem pessoas experimentando suas maiores felicidades ou tristezas da vida, desempenhando rotinas ou hábitos que nunca vimos ou soubemos, ou com preocupações que para você (ou eu) não fazem sentido. Por mais polarizados e distintos que sejam nossos hábitos e locais por onde passamos, a vida ordinariamente nos limita a realidade que nos cerca (afinal, recursos como o tempo são finitos e a imprevisibilidade da raça humana, não), e com isso acabamos tendo a noção e percepção mais viva somente daquilo que faz parte da nossa realidade. São experiências como as de Salgado em O Sal da Terra, documentadas através da fotografia preto-e-branco, imparciais e impessoais, que servem de combustível para mostrar que o mundo sempre é maior do que o imaginávamos no instante anterior (apenas isto, sem o mérito de ser melhor ou pior, e toda a subjetividade carregada neste tipo de análise) .

(Melhor e mais prudente do que falar especificamente das obras de Sebastião Salgado é observá-las e, por isso, algumas estão na sequência abaixo neste post).

Genesis-8Sebastiao-Salgado-from-Amazonas-Images-Seriessal8200_ecuador06the-salt-of-the-earth-1

Os melhores filmes de 2016 – A lista e o ano

Nesta temporada 2016 do cinema, que formalmente se encerra no domingo com a cerimônia do Oscar, é inegável que o mundo cinematográfico mudou e evoluiu. Não somente – mas inclusive – Hollywood, chegou a um estágio da produção de vários BONS filmes. Filmes com uma história sem grandes problemas, atuações dentro da média e apelos visuais e emocionais com algumas boas histórias – muitas baseadas em fatos reais. Se isso tudo soa bem aparentemente, após alguns exemplares de obras dessa magnitude percebemos que essa “fórmula” do filme bem acabado enrolado em papel de presente é cansativa. O filme termina e em poucos minutos ou no dia seguinte, ele se perdeu entre tantos outros num lugar comum.

Há muito tempo eu não via uma lista de indicados ao Oscar de Melhor Filme sem apontar um – ou mais filmes – como “ruins” numa análise mais sucinta e pouco recomendada. Embora eu tenha algumas restrições com o indicado Estrelas Além do Tempo deste ano, para mim é inegável que os 9 filmes indicados possuem um refinamento compatível com um “padrão mínimo” de qualidade. Mas, se quem ganha com isso são (ou deveria ser) os estúdios e cinemas com uma hipotética maior facilidade de comercializar os filmes, tem alguém que perde? Na minha opinião, sim, mas depende de como você se enquadra no quesito APRECIADOR-DE-FILMES. A significância do filme para cada pessoa é muito subjetiva (arte, não é mesmo?) e varia conforme inúmeros fatores, mas as probabilidades que um filme limitado em entregar uma fórmula pronta/pouco ousada e bem produzida oferece tendem a ser baixas.

Por isso tudo, a minha lista dos favoritos deste ano destoa na sua ordenação de muitos dos prêmios concedidos, pois embora alguns filmes destes ranqueados por mim apresentem alguns pontuais defeitos, como o momento “quase-vergonha-alheia” de Capitão Fantástico com “Sweet Child’o Mine” ou o moralismo de Mel Gibson de Até o Último Homem, todos esses e a maior parte dos meus favoritos fazem parte daquele grupo de filmes que te deixam a pensar por um bom tempo após os créditos finais, seja por um desconforto com o choque da temática (Moonlight ou A Criada, por exemplo) e da ambientação (The Fits) ou pela complexidade e articulação das ideias (O.J.: Made in America ou Capitão Fantástico) ou ainda por atuações magníficas, como Isabelle Hupert em Elle, atingindo o nível  Daniel Day Lewis de atuação.

Ou, depois disso tudo você ainda considera que o favorito ao Oscar, La La Land: Cantando Estações (um bom filme, diga-se de passagem) terá o mesmo impacto/significado em 5 ou 10 anos? Creio que não.

 

Dito isso, eis os meus preferidos…

  • Melhor Filme: Capitão Fantástico (Captain Fantastic);
  • Melhor Diretor: Anna Rose Holmer por The Fits (The Fits);
  • Melhor Ator: Casey Affleck em Manchester à Beira Mar (Manchester By The Sea);
  • Melhor Atriz: Isabelle Hupert em Elle* – a melhor coisa no ano no quesito atuação!
  • Melhor Ator Coadjuvante: John Goodman em Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane);
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Lily Gladstone em Certas Mulheres (Certain Women)* – Viola Davis é uma excelente atriz, mas não é coadjuvante em Um Limite Entre Nós (Fences);
  • Melhor Filme de Animação: Moana;
  • Melhor documentário: O.J.: Made in America;
  • Melhor Fotografia: Docinho Americano (American Honey);
  • Melhor Canção: City of Stars, La La Land: Cantando Estações (La La Land);
  • Filme(s) mais superestimado(s): Zootopia (Zootopia), A Chegada (Arrival);
  • Piores filmes do ano: Esquadrão Suicida (Suicide Squad), Horizonte Profundo (Deepwater Horizon);

 

…e o Top15 dos filmes de 2016:

15 – Animais Noturnos (Nocturnal Animals) de Tom Ford

14 – Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake) de Ken Loach

13 – A 13ª Emenda (13th) de Ava DuVernay

12 – Divinas (Divines) de Houda Benyamina

11 – Aquarius (Aquarius) de Kleber Mendonça Filho

10 – Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight) de Barry Jenkins

9 – Manchester à Beira Mar (Manchester By The Sea) de Kenneth Lonergan

8 – Toni Erdmann (Toni Erdmann) de Maren Ade

7 – A Bruxa (The Witch) de Robert Eggers

6 – O.J.: Made in America (O.J.: Made in America) de Ezra Edelman

5 – A Criada (The Handmaiden) de Park Chan-wook

4 – Até o Último Homem (Hacksaw Ridge) de Mel Gibson

3 – Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfiel Lane) de Dan Trachtenberg

2 – The Fits (The Fits) de Anna Rose Holmer

1 – Capitão Fantástico (Captain Fantastic) de Matt Ross

 

 

Lion: Uma jornada para casa (2016)

https-%2f%2fblueprint-api-production-s3-amazonaws-com%2fuploads%2fcard%2fimage%2f281971%2fsunny_pawar

É inútil discutir Lion: Uma Jornada Para Casa (2016, Lion) como um filme ou explorar seus aspectos de produção, direção, roteiro e atuações. É uma obra que trabalha na mediocridade nesses quesitos, isto é, nem se destaca nem fica devendo, parecendo um belo exemplar de um telefilme (filme feito para a TV) da HBO.

O que realmente importa neste filme é a sua ligação com o mundo real. Ao acreditarmos que se trata de uma história real (eu não pesquisei o quanto é realidade e o quanto foi “ficcionalizado” pelo diretor Garth Davis), de que o menino indiano que se perdeu aos 6 anos e 25 anos depois, morando num país diferente e com cultura totalmente distinta (Austrália) consegue refazer o caminho de casa para encontrar a mãe biológica precisamos parar de pensar ou criticar muito do filme. Esta capacidade extraordinária de o mundo produzir inúmeras histórias fantásticas diariamente é uma obra de arte tão fantástica que supera quaisquer filmes. Enfim, Lion é um filme que deve ser visto como uma ode não ao cinema, mas a imprevisibilidade que o mundo – na verdade, estar vivo – reserva a quem dele fez ou faz parte.

Um limite entre nós (Fences, 2016) – O grande teatro de Denzel Washington

1200.jpg

Ao contrário do que o título deste post pode sugerir, Um Limite Entre Nós (título original Fences) não é um filme de baixa qualidade. A caracterização desta obra me lembra outras adaptações cinematográficas de roteiros focados nos diálogos acima de tudo, tais como a obra prima de 2008 intitulada Dúvida (Doubt). Neste filme de 2016, e concorrente a muitas estatuetas do Oscar – incluindo a de melhor filme, Denzel Washington além de ser protagonista é o diretor e mente criativa da obra. Interpretando um trabalhador da companhia do lixo nos EUA pós Segunda Guerra Mundial ele faz par com a personagem de Viola Davis, sua esposa.

Em menos de 5 minutos de filme temos a certeza que a atuação de Denzel merece, no mínimo, uma indicação a melhor ator. Com naturalidade e desenvoltura de um ator extra classe ele mostra carisma a amabilidade invejáveis, que fazem o espectador querer conhecer melhor Troy Maxson, seu personagem. Aí a trajetória do filme começa a se justificar de uma forma muito inteligente. Ao longo do filme descobrimos que por trás do Denzel Washington das primeiras cenas temos um homem abandonado pela mãe e com pai abusivo, amargurado por não ter mais êxito profissional, com nostalgia da época em que era um destaque do baseball e lutando contra sua vida boêmia e infiel no matrimônio. Conforme essa caracterização vai se delineando o outro ponto forte do filme, Viola Davis, começa a aparecer e tal qual seu par em cena, a clamar por atenção. Inicialmente de aparência submissa, vemos que a força de vontade para permanecer naquele casamento, amando ao seu marido é gigante, assim como a atuação.

Enquanto Denzel entrega ao público uma de suas melhores interpretações da sua carreira, como diretor ele prefere delinear bem os limites da cenografia, as posições de cada ator no set e deixar que as atuações conduzam o resto. Praticamente o filme inteiro se concentra entre o cenário da sala de estar, cozinha e área de fundos da residência do casal. Por isso e pelos longos, mas belíssimos monólogos, temos a estrutura teatral da obra, digna de uma grande peça. Mas não está na técnica de cenografia ou atuações o mérito do filme. Elas são parte de um propósito maior e relativamente bem sucedido: humanizar a complexidade das ações do ser humano. O comportamento moral idealizado não existe e, atrás de cada sorriso ou traição sempre há uma história.