Aprendendo a começar

Começar algo novo é o típico tema falado na maioria dos discursos motivacionais aos quais os algoritmos de redes sociais colocam sob holofotes. Mas a banalização do falar que “é importante fazer coisas novas” foca prioritariamente no resultado delas, do pragmatismo de que, com prática, um novo hábito será incorporará na nossa rotina, na nossa vida e ela ficará melhor. Treinar musculação é difícil, mas depois que acostuma tem seus benefícios ao corpo e mente. Correr é só começar e se nas primeiras vezes não for a 8ª maravilha do mundo, insista um pouco que a endorfina vem e tudo vira rotina. Cozinhar uma receita complexa é possível de forma rápida e descomplicada, basta aprender o método e ter alguma parafernália gourmet. Vida saudável, falar outras línguas, tarefas domésticas, rotinas empresariais…é assim na maioria dos discursos.

Porém, quando focamos muito em um motivo para agir (a motivação) ou em um propósito – que beira certa utopia muitas vezes – nos esquecemos de aproveitar o processo, a experiência única que é aprender, aperfeiçoar, errar. Aprender é entrar em contato com aquilo que não se sabe. Implica doses de vulnerabilidade, pois se quisermos aprender ficando na defensiva ou arrogância o resultado não virá conforme o esperado e o tempo investido parecerá sem sentido, reforçando crenças e negatividades. Embora este texto não seja uma apologia ao viver a vida sem rumo ou não ter motivo para fazer o que se faz, ele é um convite a prestar atenção quando estamos começando algo, aprendendo: o que funciona, o que não funciona e (mais importante) qual a minha régua para medir funcionalidade? Além disso, se descobrir nos seus erros, baixar a guarda e aceitar que até aquele momento você sabia muito pouco sobre.

*Texto originado a partir do aprendizado de fazer um bom iogurte natural caseiro.

Tudo sente

O mundo sente. Tudo que existe, existe com uma história. E por que não as plantas, os vegetais, os animais, além dos homens? Sem a pretensão de querer igualar o que representam histórias individuais de cada ser, esquecer que a alface que vai à mesa ou a pessoa que atravessa a faixa de pedestres ao seu lado são mais que casualidades pode nos tornar distantes, tão distantes como algo que não é um ser, uma máquina.

Em 1982 o filme Blade Runner inovou em técnicas cinematográficas e, pela primeira vez na história do cinema de altos orçamentos, apresentou um futuro conceitual onde o mundo não era bonito ou fluido e quebrou o senso comum de que o progresso vai nos levar a um lugar sem falhas. Afinal, quando pensamos em futuro da humanidade, por muitas vezes nossa mente está tão condicionada a ir em direção a novas tecnologias e confortos que é poderoso lembrar que continuaremos a ter medos, inseguranças e dificuldades cujas nada que foi criado no mundo externo pelo homem é solução. Se causa um desconforto, é porque continuamos sentindo. Se continuamos sentindo, é porque estamos no caminho certo – ainda mais se nos escutarmos bem.

Além disso, o mesmo filme ainda fez algo mais impactante ao estimular a dúvida em seus personagens (e nos espectadores) de quem eram de fato os homens e quem eram replicantes (os androides, criados a imagem da raça humana) e, se estes não eram máquinas bem construídas para simular humanidade. Quanto mais nos distanciamos do pensar e viver longe da nossa essência e potencialidades, mais difícil fica de responder a dúvida dos personagens do filme. O estoicismo – tão na moda atualmente, embora muitas vezes para justificar comportamentos questionáveis – apontava que só somos felizes quando alinhamos o que podemos oferecer com o que de fato fazemos. Poucas as sensações são melhores do que àquelas onde você sente que faz ou está vivendo no lugar – físico, espiritual ou de companhia – que deveria estar. Mas, escrever sobre isso é apenas entrar no hall de entrada de uma mansão que só pode ser percorrida na vida. Tem quem prefira ficar só em um cômodo e àqueles que vão olhar a casa inteira, encontrando aposentos mais bagunçados e outros bem decorados implorando para serem usados. Se a casa é sua, por que não viver em todo o seu espaço?

Engrenagens

Tantas são as engrenagens que regem o mundo, e nem as percebemos — a ponto de que, se uma simples peça sair do lugar, o mundo muda drasticamente. Pode parecer propaganda de canal de notícias ou discurso pré-fabricado; depende de como você interpreta. Meu convite é para uma pequena pausa, um suspiro trabalhado em reflexão.

Na última semana, a notícia de um vazamento de combustível em uma vizinhança próxima ao meu lar ganhou algumas manchetes e alterou a rotina do entorno. Alguns moradores tiveram que deixar suas casas por precaução; outros permaneceram em estado de alerta, e os empregados do posto de combustível devem estar se perguntando quando poderão voltar ao trabalho. A mesma rotina de sempre, com algo levemente fora do esperado.

Talvez a situação mais universalmente ilustrativa nos dias de hoje é ficarmos sem conexão com a internet e/ou sem energia elétrica. Sem entrar nos lugares-comuns já amplamente explorados, não se pode negar que não é apenas o funcionamento dos eletrônicos e equipamentos que muda — é o nosso funcionamento também. No aspecto biológico dos seres vivos, a complexidade é ainda maior do que uma simples interrupção no sinal de internet. O professor Clóvis de Barros, em um recente podcast, já dizia que um simples cisco no olho nos torna inoperantes.

Há muita vida e muitas coisas acontecendo o tempo todo, ao mesmo tempo, para que, às vezes, tudo pareça não estar acontecendo — no universo, ao nosso redor e dentro de nós. Diante de cada oportunidade em que algo sai da normalidade e da previsibilidade, antes de pensar no que fazer, ajuda e tranquiliza muito lembrar da complexidade presente nesse emaranhado. Por outro lado, quando coisas boas — daquelas que você não esperava tiram o fôlego ou causam frio na barriga — acontecem, também vale (e muito) lembrar que houve uma sucessão de complexidades que foram superadas para que elas se realizassem.

Do carrossel a playlist: uma dose de nostalgia sonora

Aos emocionados executivos da Kodak, Don Draper apresentava a campanha publicitária do projetor de slides da empresa na década de 60. Na fictícia Mad Men (episódio 13, temporada 1), a ideia de um simples projetor não trazia o apelo necessário e a brilhante ideia – executada no mundo real e levada a cabo na série – pautava que as imagens escancaradas por um projetor eram mais do que nova tecnologia; eram um carrossel, um convite a um parque de diversões em que cada parada era um afago nostálgico, uma memória eternizada e suas implicações na história de cada um. Assim é a nostalgia, um vício perigoso a qualquer um, que nunca é ruim (afinal, você já teve uma memória nostálgica que preferiu esquecer? provavelmente não) mas, se consumida na dose certa, ajuda a melhorar o presente.

Permanecem 60 anos depois da Kodak e seu projetor (e sua falência) exemplos que a tecnologia ainda nos traz de pílulas nostálgicas na medida certa. São tantos que, com frequência, nem percebemos ou dedicamos tempo. A última que consumi e vale o post, e funciona de certa forma como uma publicidade espontânea e gratuita, é o recurso que o app Shazam traz ao sincronizar as “descobertas” de músicas – àquelas músicas que você ouve em algum lugar e precisa saber o nome, artista – à players de músicas, como o Spotify. Neste streaming, a playlist automaticamente criada pelo Shazam com os sons descobertos vão sendo empilhados um após o outro. E aí, sem prestar muita atenção a isto, chega o dia em que você decide ouvir os sons e, um a um, te levam às memórias de onde você os ouviu, onde você estava (e com quem!) e, principalmente, quem você era naquele instante.

*citei o Shazam, mas provavelmente seus conrrentes disponibilizam funções similares.

A supracitada cena de Mad Men e a caixa de Pandora nostálgica que ela abre:

15 segundos de chiado

Num vídeo recente do canal Meteoro (https://www.youtube.com/watch?v=PxFAiejrHBM) em meio a um resgate das três principais distopias do século passado (Admirável Mundo Novo, 1974 e Fahrenheit 451) certo assunto surge como ponto de reflexão: a comunicação mais visual do que escrita e os emojis como peça simbólica do nosso tempo. Embora não se estenda em explicar ou dissecar o tema, o vídeo termina e as questões brotam na mente em frente a uma tela preta.</p> vídeo recente do canal Meteoro em meio a um resgate das três principais distopias do século passado (Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451) certo assunto surge como ponto de reflexão: a comunicação mais visual do que escrita e os emojis como peça simbólica do nosso tempo. Embora não se estenda em explicar ou dissecar o tema, o vídeo termina e as questões brotam na mente em frente a uma tela preta.

Sem a pretensão de cientificar algo muito mais profundo do que poucos parágrafos escritos numa manhã de inverno com sol, as imagens (e vídeos) são peças fundamentais da nossa cultura, porém entre tantos efeitos colaterais o mais grave é nos levar por um caminho de imediatismo ou superficialidade.

Os 15 segundos iniciais padrão de apenas chiados no início de um LP, o vinil, hoje são no máximo, nostalgia momentânea, mas geralmente acompanhados de uma inquietação e senso de urgência pelo que virá a seguir e também contemplações não entendíveis num 2020 como “Por que colocar trecho sem música num disco?”. Qual a razão? Perguntamos tanto isso como sociedade que a vida tem momentos de contemplação mais breves, despercebidos às vezes e, como provoca o vídeo do Meteoro, expressos por um simples emojis. Feliz, triste, engraçado. Tudo é simples na linguagem visual. Mas a simplicidade não nos tornou mais ágeis ou práticos como fomos ensinados a crer e sim, mais superficiais. O quanto a mais você descobre do seu mundo se emojis darem lugar a pensamentos complexos e à observação daquilo que nos rodeia?

Decisões importantemente triviais, iPhone, milho e coronavírus

Parece óbvio, mas são tantas as obviedades que nos atingem em algum momento da vida que essa mereceu um post. Yuval Harari, professor e escritor israelense, alçado ao mundo na última década pelo seu Sapiens: uma breve história da humanidade, traz entre várias doses de conjecturas ou acontecimentos históricos (e, com o perdão da redundância, pré-históricos!) a discussão do porquê os eventos mais importantes e, também os triviais, da história aconteceram.

A falácia que acompanha normalmente nosso pensamento vem desde o ensino escolar que conta a história como uma sucessão de acontecimentos inevitáveis e explica o contexto que permitiu tudo acontecer (o “como”) em vez do “por que”, nos levando ao caminho do erro, de pensar, por exemplo, que a globalização, o smartphone, as grandes religiões e comermos milho na Alemanha, na Turquia e no Brasil é algo que não tinha outro rumo senão acontecer na história. Na verdade, todos esses eventos (as trocas de produtos e redução de barreiras nas fronteiras entre país que são embrião da globalização, o progresso científico que levou um Steve Jobs a um palco apresentar seu iPhone, ou as migrações dos homo sapiens levando suas crenças/religiões ou o plantio dos mesmos alimentos a todos os continentes) foram acontecimentos usuais no curso da história do seus protagonistas.

Enquanto a história está sendo escrita, sempre teremos uma infinidade de caminhos que podemos seguir com ela e, independente do escolhido, nunca saberemos o quão importante com certeza ele será para a nossa vida e para a humanidade. Um exemplo oportuno que Harari faz questão de usar é o de Constantino, imperador romano que trocou a religião do Império Romano para o cristianismo, que sequer imaginou que essa sua decisão implicaria que 2,3 bilhões de pessoas hoje se identificassem com essa crença. Para ele, foi apenas uma decisão.

Assim é, com grandes decisões para a humanidade, mas também se aplica ao nosso cotidiano. Vivendo sob um mundo que respira e pede mudanças em 2020, impulsionadas pela pandemia de coronavírus, sabemos que mudanças virão, mas certamente seus atores (dos criadores de uma vacina eficaz a você e eu) que desempenharão seus papéis não tem consciência do todo que representam suas ações para o prisma de médio e longo prazo.

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Toda semana um post. Ou seu dinheiro de volta.

Chuva Urbana

Quando chove tudo muda.

O tempo é o mesmo. As pessoas são as mesmas

Mas os sons. Ah, os sons. Esses são diferentes.

As praças ficam vazias. Não há mais risos de crianças ou o coletivo de sons que pessoas fazem em grupo que estando longe apenas se sabe que há vida naquele lugar. Mas ainda há vida, a natureza no seu estado mais primitivo. Sempre esteve ali. E assim deseja permanecer (se nós deixarmos).

Nas ruas, só quem precisa estar. Carros trafegam por poças que antes eram apenas buracos. Passos apressados. Conhece-se até as preferências dos calçados de cada um apenas pelos sons. As conversas cessam. Pragmatismo e objetividade.

Um convite a investir esse tempo numa incrível experiência de sinestesia, na audição e reflexão, ou em apressar as atividades para da chuva escapar. Depende de onde você está.

Aos poucos, mais ou menos tarde, pássaros cantam em algum lugar e entre alguma buzina de carro e outra, você percebe que aquele momento está acabando, a chuva se foi. Você a aproveitou como deveria? Para quem consegue, a beleza e a ironia – da experiência e da vida – no final das contas era apenas água. Do céu.

 

Conceito

Conceito é uma palavra que traduz uma ideia. Uma ideia inteira que então fica “presa” a algumas letras, que pode ser colocada em frases, conversas, músicas ou camisetas. Quando paramos para pensar em como esse lado angustiante da linguagem é tão limitador, em especial, ideias mais belas por natureza parecem as mais prejudicadas. Como disse Oscar Wilde “definir é limitar”. Então, se não nos escapamos de criar e popularizar conceitos, que o façamos não como quem reza um Pai Nosso sem se dar por conta do que fala e sim, como quando se demora uma eternidade para ler um parágrafo justamente porque por trás de cada palavra há uma ideia e, normalmente, uma história. Ao nos depararmos com alguma placa com dizeres fora do comum em locais públicos (“não alimente os jacarés”, “antes de entrar no elevador certifique-se de que ele realmente está no andar”) logo imaginamos que toda placa tem uma história que levou ela a ser colocada lá. Assim são as palavras. Todas.

Talvez o mais divisivo e explorado conceito da história humana é o da felicidade. Sem pretensão alguma de querer definir algo que sempre soubemos mais sentir do que quantificar é bom conhecer o que já foi dito sobre o assunto. Um  bom começo é o vídeo do professor e palestrante Clóvis de Barros Filho que, em 34 minutos, aborda de uma forma leve as caracterizações desse conceito através dos olhos de Aristóteles, Jesus e Espinoza.

 

Ainda, o aspecto mais fascinante deste vídeo na minha opinião é a revolução que Jesus trouxe com sua ideia de felicidade. Algo que, seja você cristão, ateu ou religioso de qualquer tipo de espiritualidade, há de se admitir que foi único e dividiu o mundo de forma muito mais importante que o calendário (a.c./d.c.), pois foi pela primeira vez (documentada) os ideais de amor fraterno entre todos como felicidade foram tão bem pontuados. A este, a chamada Oração de São Francisco, é a síntese da filosofia mais pura sobre o que pode ser o conceito de felicidade.

Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz
Onde houver ódio, que eu leve o amor
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão
Onde houver discórdia, que eu leve a união
Onde houver dúvida, que eu leve a fé
Onde houver erro, que eu leve a verdade
Onde houver desespero, que eu leve a esperança
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar do que ser consolado
Compreender do que ser compreendido
Amar que ser amado
Pois, é dando que se recebe
É perdoando que se é perdoado;
E morrendo que se vive
Para a vida eterna

A nossa riqueza

Medir e falar de números sempre esteve ao lado das ciências exatas e distante demais das humanas. Neste processo de 8 ou 80, yin ou yang, esta separação trouxe uma perda de oportunidades a ambas as áreas. Um exemplo clássico, que condiz e muito com a nossa época, é a forma de categorizar a classe social. Polêmica por natureza, pode vir pelo questionamento a um entrevistado sobre a renda familiar ou sobre quantidade de bens que possui, cujo somatório é apresentado através de um método chamado “Critério Brasil”.

Antes de discorrer sobre a eficácia de tais métodos, é oportuno falar deste Critério Brasil, que transforma em pontos a quantidade de atributos no domicílio e a escolaridade do chefe da família da forma que as tabelas abaixo denotam.

1

De acordo com a pontuação obtida, o domicílio será classificado em seis estratos socioeconômicos: A, B1, B2, C1, C2 e D-E.

2

Quanto mais se dedica tempo a essa metodologia, ainda considerada de grande eficácia nas pesquisas, mais se percebe que ela é falha e que falhamos nas coisas mais óbvias.

Inicialmente, personifica em uma pessoa, o “chefe da família”, num conceito retrógrado que remete ao patriarcado antigo, a responsabilidade do sucesso de todos. Além disso, atribui importância desmedida aos bens/cômodos de uma moradia. Aí está o maior questionamento filosófico, que se estende não só ao método, mas a percepção social (pois, embora discorde deste critério, ele representa infelizmente ainda, um senso comum), a falácia de que a maior quantidade de bens indica maior riqueza. A este critério o investimento de tempo e dinheiro em projetos sociais é muito menor do que dois micro-ondas na cozinha. Afinal, quem prefere ajudar ao outro quando se pode ter um copo de leite e um prato de comida aquecidos ao mesmo tempo? Mais do que isso, é de certa forma uma apologia a uma vida de consumo, orientada a posses e sua divulgação alimenta um sonho distorcido a tantos que buscam melhores condições financeiras de que para se elevar de classe, implica adquirir, comprar e ter.

Na contramão deste, o sociólogo Jessé Souza (autor de A Elite do Atraso e A Classe Média no Espelho, entre outros) traz uma classificação menos econômica e mais social e cultural às classes: com sabedoria classifica a classe alta como elite proprietária, de grandes extensões de terra ou dos meios de produção, e a classe média vinculada a educação, ao privilégio positivo de estudar, de receber educação (da família principalmente) que estimula capacidade de pensar, que faz enxergar toda a complexidade que há no mundo e estimula a capacidade de pensamento abstrato. Além de estar implícita uma crítica a ideologia da meritocracia aí, traz de forma simples a importância da educação, da família, de aspectos sociais a um tema – classe socioeconômica – atualmente muito mais associado a cifrões que ao modo de pensar.

Então, por que abordar e questionar esses métodos atuais? Porque são os dados obtidos através deles que ditam políticas de governo e estudos sociais aplicados. Também porque espalhar e questionar esse senso de certeza quanto ao método de medir é o princípio para muda-lo e, aprender que numa discussão de métodos e números, nem só um pensamento puramente cartesiano pode ser ouvido.

Mais sobre esse raciocínio de Jessé Souza pode ser visto nessa entrevista:

Vem pra rua ?

Na nossa humilde e falha condição humana tendemos a cunhar mais valor a ideias e discursos embasados por citações de ilustres personas. Mesmo que muitas vezes totalmente fora de contexto, as citações conferem brilho a discursos que enxergaríamos como “pobres” sem elas. Deste modo, por exemplo, pastores, padres e ateus citam os mesmos versículos bíblicos para argumentar ideias opostas. Mais recentemente, filósofos já falecidos são lembrados (especialmente em redes sociais) para justificar o cenário político nacional e as ações que devem ser tomadas.

Um exemplo desses é Martin Luther King e sua frase de que “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. A forte e contundente afirmação forte nos chama a opinar, nos posicionar. Embora ficar a parte de qualquer discussão possa ser a solução mais cômoda e conveniente para ficar “de bem” com qualquer um dos (diversos) lados que sair “vencedor” é um desperdício de vida apenas assisti-la. Por isso, nesse momento de enorme ebulição na nossa política, com protestos nas ruas, atenção midiática pelos desdobramentos em Brasília, parece me óbvio o quadro patético da nossa estrutura política: situação e oposição com preocupações apenas consigo mesmo, isto é, com (e em como) ter o poder para si. Assim, milhões vão as ruas em posições opostas, querendo melhores condições sociais e econômicas, mas antes de tudo, como peões no tabuleiro dos caciques políticos.

Com grande dificuldade por não saber dialogar e imensa falta de carisma, Dilma vem fazendo uma péssima gestão no Poder Executivo. Daquelas que se fosse numa empresa do setor privado, já estaria no mercado de trabalho procurando emprego. Mas, em um país não é assim. A constância de seus governantes é um dos principais elementos de soberania nacional. Dito isso, os avanços (sociais) do governo Lula ficaram pequenos para a sede de poder traduzida em corrupção que o PT teve ao assumir o poder em 2003. Vinculado a um estandarte antigo de ser “diferente” trilhou os mesmos caminhos de seus antecessores no assunto corrupção.

Por isso, é difícil, na minha opinião, imaginar que um impeachment, ou mecanismo de igual efeito tenha impacto de realmente mudar algo drasticamente. A estrutura é a mesma e os vícios são conhecidos. Sair às ruas revela o descontentamento, a desilusão, a sede de mudança. Mas não o compromisso de mudar. Dilma, Lula, Aécio, Serra, Temer, Renan e Cunha  – só para citar alguns. Alguém realmente acredita que a mudança virá da mão, mente e “bolso” de um deles? Eu não.

Porém, se conscientes e céticos quanto a isso, soubermos entender e nos contentar com breves períodos de euforia (em 2010-11 o grito de oposição a Lula era abafado pelo crescimento econômico – ilusório a médio prazo) vale a pena ir as ruas e defender nossa posição, nem que seja pelo “último gás da Coca”.