A Forma da Água (2017) – Universal, atemporal

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Famigerada é a preferência e hábito do diretor Guillermo Del Toro em usar criaturas mágicas, não convencionais ou místicas fora de seu habitat, rodeadas por humanos. Independente da época da história são eles (humanos) em sua maioria, arrogantes, convencidos de sua superioridade e medrosos com o desconhecido. A Forma da Água (The Shape of Water), um dos favoritos aos prêmios da temporada é uma nova incursão do cineasta mexicano nesta temática e é, desde O Labirinto do Fauno, seu melhor trabalho.

Numa ambientação primordial dos primeiros anos da Guerra Fria – da guerra por conhecimento científico e militar entre Estados Unidos e União Soviética – com destaque a trilha sonora e principalmente ao melhor design de produção do ano, a criatura interpretada por Doug Jones encontra na personagem de Sally Hawkins a genuína expressão de bondade e solidão, combinação que resulta em amor, carnal e fraternal entre ambos.

Numa precipitada interpretação esta é uma sinopse comum a várias centenas de filmes; então, o que faz A Forma da Água se sobressair?  Os detalhes e a ironia, no passageiro com um bolo no ônibus, na forma como a rotina é filmada ou na recorrente gelatina verde; no roteiro de Del Toro que nos faz acreditar que a vida da personagem de Hawkins a conduziu para àquele momento e que ainda no meio disso fala de racismo e homofobia sutil e habilmente; e, claro, na atuação da protagonista, que sem dizer uma palavra converge em expressão e ações a transformação da timidez e solidão em aventura e felicidade. Uma história convencional no seu núcleo que se torna grande não pelos efeitos especiais ou por retratar amor a uma criatura marítima (afinal, a analogia óbvia é que deslocados da sociedade, todos podemos ser ela em algum momento da vida) mas sim pela habilidade em falar de temas simples e universais.

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Lion: Uma jornada para casa (2016)

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É inútil discutir Lion: Uma Jornada Para Casa (2016, Lion) como um filme ou explorar seus aspectos de produção, direção, roteiro e atuações. É uma obra que trabalha na mediocridade nesses quesitos, isto é, nem se destaca nem fica devendo, parecendo um belo exemplar de um telefilme (filme feito para a TV) da HBO.

O que realmente importa neste filme é a sua ligação com o mundo real. Ao acreditarmos que se trata de uma história real (eu não pesquisei o quanto é realidade e o quanto foi “ficcionalizado” pelo diretor Garth Davis), de que o menino indiano que se perdeu aos 6 anos e 25 anos depois, morando num país diferente e com cultura totalmente distinta (Austrália) consegue refazer o caminho de casa para encontrar a mãe biológica precisamos parar de pensar ou criticar muito do filme. Esta capacidade extraordinária de o mundo produzir inúmeras histórias fantásticas diariamente é uma obra de arte tão fantástica que supera quaisquer filmes. Enfim, Lion é um filme que deve ser visto como uma ode não ao cinema, mas a imprevisibilidade que o mundo – na verdade, estar vivo – reserva a quem dele fez ou faz parte.

Manchester à Beira Mar (2016) – o poder da imperfeição

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Enquanto tantos filmes procuram nos convencer da sua qualidade através de uma trama “redonda”, sem espaço para divagações, com todas as ações se desdobrando em outras num fluxo de perfeição cinematográfica, Manchester à Beira Mar (2016, Manchester By The Sea) vai – com o perdão do trocadilho – contra a maré.

Não é a grande atuação de Casey Affleck (indicado e favorito, com certa justiça, ao prêmio de Melhor Ator no Oscar) como protagonista nem a de Lucas Hedges que são o principal triunfo do filme. É a sua imperfeição – habilmente desenvolvida por Kenneth Lonergan, o diretor. A imperfeição é onipresente em todo o filme: nos diálogos que se encerram com ideias abertas, no clima de inconveniência nas conversas, na falta de solução aos problemas mundanos e burocráticos e na incapacidade de superar traumas passados. Pois isto tudo é a vida humana em uma condição mais próxima à realidade, longe de idealismos, a virtude deste que é, indiscutivelmente, um dos melhores filmes do ano.

Um limite entre nós (Fences, 2016) – O grande teatro de Denzel Washington

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Ao contrário do que o título deste post pode sugerir, Um Limite Entre Nós (título original Fences) não é um filme de baixa qualidade. A caracterização desta obra me lembra outras adaptações cinematográficas de roteiros focados nos diálogos acima de tudo, tais como a obra prima de 2008 intitulada Dúvida (Doubt). Neste filme de 2016, e concorrente a muitas estatuetas do Oscar – incluindo a de melhor filme, Denzel Washington além de ser protagonista é o diretor e mente criativa da obra. Interpretando um trabalhador da companhia do lixo nos EUA pós Segunda Guerra Mundial ele faz par com a personagem de Viola Davis, sua esposa.

Em menos de 5 minutos de filme temos a certeza que a atuação de Denzel merece, no mínimo, uma indicação a melhor ator. Com naturalidade e desenvoltura de um ator extra classe ele mostra carisma a amabilidade invejáveis, que fazem o espectador querer conhecer melhor Troy Maxson, seu personagem. Aí a trajetória do filme começa a se justificar de uma forma muito inteligente. Ao longo do filme descobrimos que por trás do Denzel Washington das primeiras cenas temos um homem abandonado pela mãe e com pai abusivo, amargurado por não ter mais êxito profissional, com nostalgia da época em que era um destaque do baseball e lutando contra sua vida boêmia e infiel no matrimônio. Conforme essa caracterização vai se delineando o outro ponto forte do filme, Viola Davis, começa a aparecer e tal qual seu par em cena, a clamar por atenção. Inicialmente de aparência submissa, vemos que a força de vontade para permanecer naquele casamento, amando ao seu marido é gigante, assim como a atuação.

Enquanto Denzel entrega ao público uma de suas melhores interpretações da sua carreira, como diretor ele prefere delinear bem os limites da cenografia, as posições de cada ator no set e deixar que as atuações conduzam o resto. Praticamente o filme inteiro se concentra entre o cenário da sala de estar, cozinha e área de fundos da residência do casal. Por isso e pelos longos, mas belíssimos monólogos, temos a estrutura teatral da obra, digna de uma grande peça. Mas não está na técnica de cenografia ou atuações o mérito do filme. Elas são parte de um propósito maior e relativamente bem sucedido: humanizar a complexidade das ações do ser humano. O comportamento moral idealizado não existe e, atrás de cada sorriso ou traição sempre há uma história.

Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) – e da simplicidade e beleza

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Um review de Moonlight – Sob a Luz do Luar não precisa ser extenso. Não há de ser escrita uma tese acadêmica para falar do filme. Aqui a simplicidade do filme deve se traduzir em facilidade na análise. Barry Jenkins, o diretor, desenvolve uma obra sobre o protagonista Chiron, que abrange três fases bem distintas e explicitadas na tela do mesmo modo como Quentin Tarantino, por exemplo, costuma marcar seus filmes em capítulos: 1.a infância de Chiron, 2.sua adolescência e 3.a fase adulta, próximo aos 30 anos. Ambientado em Miami, Flórida, com enfoque às regiões/vizinhanças habitadas majoritariamente por negros vemos um Chiron desde pequeno perseguido pelos colegas de escola por não se ajustar ao mesmo comportamento deles. Quieto, tímido e gay é o alvo claro dos preconceitos dos demais meninos. Desamparado pela mãe, que apenas dá valor as drogas que consome, encontra proteção no casal vivido por Mahershala Ali e Janelle Monáe, que suprem a necessidade paterna e materna.

Mas conforme Chiron vai crescendo, assim ocorre com seus “amigos”, e o preconceito se intensifica assim como a sua timidez e introversão. O clímax dessa história são as agressões físicas sofridas por Chiron e, então, a sua vingança violenta. Depois disso, vemos ele já adulto em uma cidade diferente, com uma postura e aparência completamente inesperadas: traficando drogas, com hábitos que remetem ao personagem de Mahershala Ali visto no início do filme. Forjado no sentimento de exclusão e agressão da sociedade ele agora é superficialmente alguém que age com a mesma violência da qual sofreu, nem que para isso precise esconder quem de fato gostaria de ser. Cabe as cenas finais do filme, que oportuniza o encontro dele com seu amigo de infância e primeiro homem que beijou na vida, revelar que psicologicamente continua sendo mesmo Chiron criança e adolescente, com inúmeras inseguranças mas com a certeza de que seria melhor ostentar algo que não é do que voltar aos tempos sombrios vistos no início do filme.

Percebemos que a história tem uma simplicidade invejável e que nos fascina sem precisar explorar temas como a vinda de extraterrestres a Terra ou uma jornada heroica na 2ª Guerra Mundial ou ainda coreografias que param uma rodovia inteira em Los Angeles – apenas para citar algumas tramas de outros concorrentes ao Oscar neste ano. Por que isso ocorre? Cabe aí o mérito a Jenkins, que recorre a simplicidade na direção aliada a refinamento nas tomadas calmas, bem sincronizadas com a trilha e edição. Nada é apressado nas cenas filmadas e agilidade fica por conta da montagem que faz o filme fluir sem deixar ninguém com sono. Ainda sobre o modo como Jenkins escolhe rodar seu filme, nas cenas da infância de Chiron (em especial na qual ele aprende a nadar – imagem deste post) temos uma beleza única e alguns paralelos com a direção de Terrence Malick em A Árvore da Vida.

Ponto fundamental para análise é o tema que une os capítulos do filme: o preconceito de gênero e, sob esse aspecto, Jenkins opta acertadamente em trata-lo de forma aberta, direta mas sem grandes sensacionalismos, como em Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), por exemplo. No entanto, ao lembrar de Sobre Meninos e Lobos (Mystic River) chego a conclusão de que prefiro o modo de montagem e direção do filme de Clint Eastwood de 2003, que desenvolve com mais tempo de tela todas as implicações que um trauma na infância gera no futuro. E é por isso, que na minha opinião, Moonlight é um grande filme, que conquista pelo modo direto mas belo de contar uma história comum (“comum” no sentido que pode se encaixar em diversos locais do mundo e épocas) mas que na preocupação de desenvolver uma história de tantos acontecimentos e de arco dramático tão longo deixa de oferecer pistas e subsídios para que o espectador formule interpretações e possa se envolver de uma forma mais profunda que perdure mesmo após os créditos finais.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016)

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Princípios básicos para uma crítica sobre Até o Último Homem: a análise é sobre o filme, em seus 139 minutos e nunca diretamente sobre as declarações, polêmicas e personalidade de Mel Gibson, seu diretor. Parece óbvio, mas até mesmo grandes veículos de comunicação fazem questão de falar de tudo menos sobre cinema.

Dito isso, Até o Último Homem (Hacksaw Ridge) é uma das melhores coisas nessa chamada “Corrida do Ouro”, expressão em referência aos prêmios da temporada (Oscar, PGA, DGA, associações de críticos, entre outras). O drama protagonizado por Andrew Garfield em, enfim, uma grande atuação desde A Rede Social, é bem dividido em 3 atos principais: a infância e adolescência do jovem Desmond Doss na Virginia da década de 30, o alistamento militar e o treinamento de guerra em solo norte-americano, e as batalhas da Segunda Guerra Mundial no Japão, mais especificamente na Serra de Hacksaw, que dá título ao filme. Esta estrutura muito bem montada e ritmada por Gibson e seus montadores me lembrou, com grande alegria, de Nascido para Matar (Full Metal Jacket) o clássico de guerra de Kubrik.

O mote do filme, que une suas 3 partes é a convicção pacifista de Desmond Doss, que recusa praticar a violência. Então, já no primeiro ato do filme descobrimos as motivações para esse comportamento moral do personagem vivido por Garfield. Mas, além disso, merece  destaque o romance do protagonista com a personagem de Teresa Palmer, que em poucos minutos de diálogos traz encantamento maior que a trama romântica inteira de La La Land – Cantando Estações.

O grande conflito do filme começa com a recusa de Desmond em portar/manusear qualquer arma em frente a todo batalhão de infantaria. O ambiente fortemente hierárquico do Exército e extremamente nervoso após o ataque a Pearl Harbor pressiona e pune Desmond a ponto de quase o fazer desistir da sua vontade de ir à guerra para ajudar, nunca para matar. Nesse arco dramático vemos dois atores de carreiras completamente distintas com atuações muito boas: Vince Vaughn aproveitando sua habilidade em comédia para interpretar o sargento responsável pela turma de recrutas e o retorno de Hugo Weaving a um papel de destaque.

Vencidas as barreiras de crenças e fé, somos transportados ao Japão e é seguro afirmar que já nos primeiros momentos de batalha temos as melhores cenas de guerra desde O Resgate do Soldado Ryan. As tomadas são ágeis, a edição de som e mixagem são impecáveis e Mel Gibson não tem receio em mostrar cenas mais sórdidas que uma guerra causa sobre as almas, vidas e corpos (em geral, dilacerados). Assim, o filme que começa calmo sob a tranquilidade de um dia de verão na Virginia vai crescendo em ambição com uma força carismática de Andrew Garfield e firmeza na direção de Mel Gibson até seus momentos finais, o êxtase da destruição, sombria e nefasta, mas real.

Até o Último Homem é apontado por muitos como uma obra de demagogia e acusado por romantizar o campo de batalha numa guerra. Discordo parcialmente dessas ponderações, pois a história de Desmond Doss, embora com cara de um belo trabalho de ficção é fidedigna, sendo ele, o soldado na vida real, responsável por salvar mais de 70 outros soldados e o primeiro pacifista a ganhar a Medalha de Honra do governo dos EUA, maior condecoração militar do país. No entanto, a atmosfera envolvente da aura de bom moço de Desmond, dada graças ao modo gentil, calmo e risonho de Garfield realmente contribui para que os horrores da guerra sejam minimizados nas cenas que Desmond ajuda seus amigos. Por fim, este detalhe não apaga todos os méritos deste que, para mim, é um dos melhores filmes do ano e, sem dúvida, da temática bélica.

 

Os melhores filmes de 2015 – A lista

Como o Oscar ocorre no domingo próximo, encerro aqui o ano de 2015 – e não no dezembro passado, como 99% das pessoas, pois muitos filmes de 2015 só chegaram ao Brasil nestes primeiros meses do ano – neste “balanço” cinematográfico.

Se premiações de cinema fossem o espelho para classificar os melhores e não apenas a opinião de um grupo de “formadores de opinião”, eu começaria a me preocupar com o ano de 2015 e com minhas preferências cinematográficas. Dos últimos anos, certamente 2015 foi o ano em que minha lista de melhores destoou mais aos indicados de Oscar, Globos de Ouro e afins.

Dito isso, inegável que as temáticas que trazem as minorias raciais/de gênero/de sexo ao protagonismo foram um dos pontos recorrentes em grande parte da minha lista de melhores (a citar o protagonismo feminino em Mad Max, Acima das Nuvens, Cinco Graças; o protagonismo dos negros em Straight Outta Compton ou Creed e a diversidade sexual em Tangerine, por exemplo).

O segundo e vital ponto da minha lista é a consolidação da importância das animações como obras de alto teor filosófico e contemplativo. O topo da minha lista possui dois exemplares de filosofia da maior qualidade em forma de animação.

Para fechar o breve resumo do ano, é espantoso como tivemos muitas atuações geniais em papeis coadjuvantes (em especial para os atores que, em minha opinião, tem a categoria das premiações disputada em melhor nível), ao contrário e atuações principais que foram mais escassas de genialidade.

Antes da lista, propriamente dita, se eu fosse um dos votantes em premiações nesse ano, meus votos seriam assim:

  • Melhor filme: Divertidamente
  • Pior Filme do Ano: Sob o mesmo céu (Aloha)
  • Melhor diretor: George Miller (Mad Max)
  • Melhor roteiro: Creed – Nascido para Lutar
  • Melhor ator: Leonardo DiCaprio em O Regresso
  • Melhor atriz: Rooney Mara em Carol
  • Melhor ator coadjuvante: Idris Elba em Beasts of No Nation
  • Melhor atriz coadjuvante: Alicia Vikander em A Garota Dinamarquesa
  • Melhor fotografia: O Regresso
  • Melhor animação:  Divertidamente
  • Filmes Mais Superestimados: Sicario, Ex-Machina

A maior prova de um ano com qualidade inegável foi agrupar todos os meus favoritos em uma lista. Portanto, tomei a liberdade de elencar o meus 20 melhores na lista abaixo

20 – Tomorrowland – Um Lugar onde nada é impossível (Tomorrowland), de Brad Bird

19 – Homem Formiga (Ant Man), de Peyton Reed

18 – O Quarto de Jack (Room), de Lenny Abrahamson

17 – Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight), de Tom McCarthy

16 – Os Oito Odiados (The Hateful Eight), de Quentin Tarantino

15 – Anomalisa (Anomalisa), de Charlie Kaufman

14 – Cartel Land, de Matthew Heineman

13 – Creed: Nascido para Lutar (Creed), de Ryan Coogler

12 – Star Wars: O despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens), de JJ Abrams

11 – Tangerine, de Sean Baker

10 – O Menino e o Mundo, de Alê Abreu

9 – Cinco Graças (Mustang), de Deniz Gamze Ergüven

8 – Que Horas Ela Volta, de Ana Muylaert

7 – Straight Outta Compton – A história do N.W.A. (Straight Outta Compton), de F. Gary Grey

6 – Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria), de Olivier Assayas

O Top5:

 

5 – Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road), de George Miller

4 – O pequeno Quinquin (Li’l Quinquin), de Bruno Dumont

3 – Cobain: Montage of a Heck, de Brett Morgan

2 – World of Tomorrow, de Don Hertzfeldt

1 – Divertidamente (Inside Out), de Pete Docter